Quando ler é doloroso

Há livros com assuntos tão dolorosos que tornam a leitura difícil, pesada, lenta.

Acontecimentos históricos como a Ditadura Militar no Brasil, a Escravidão ou o Holocausto são temas de livros de história, documentários e reportagens. Mas apenas a literatura é capaz de transmitir as nuances dos acontecimentos e a repercussão dessas tragédias na vida de uma pessoa comum.

Um desses livros perturbadores é a graphic novel “Maus”, do ilustrador e cartunista Art Spiegelman. O livro é baseado nos relatos de seu pai Vladek Spiegelman, sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia. A grande inovação de “Maus” (ratos, em alemão) é narrar os acontecimentos do Holocausto com a linguagem dos quadrinhos. Os desenhos são todos em preto e branco, e os judeus são retratados como ratos, e os alemães, como gatos.

quando ler é doloroso

O ilustrador Art Spiegelman ganhou o Prêmio Pulitzer com o relato de seu pai sobre o Holocausto

Spiegelman não esconde as características menos nobres do pai, como a sovinice e a relação um tanto fria entre os dois. É difícil ler os trechos sobre o cotidiano dos campos de concentração e as consequências desta experiência para Vladek e Anja. Mas é impossível não se emocionar com a história de Vladek, sua luta pela sobrevivência e o amor que sentia pela esposa Anja.

 

Tudo o que tenho levo comigo

“Tudo o que tenho levo comigo” é um livro que não consegui terminar de ler até hoje. Escrito pela ganhadora do Nobel de Literatura Herta Müller, o livro é um relato do personagem Leo Auberg, que com apenas 17 anos é deportado para um campo de trabalhos forçados na Ucrânia, onde vive por cinco anos. A escritora teve como inspiração um fato pessoal para escrever este livro: sua própria mãe também foi enviada a um campo de trabalhos forçados na União Soviética.

Após a Segunda Guerra Mundial, em 1945, o general soviético Vinogradov solicitou ao governo da Romênia que os alemães que morassem no país deveriam contribuir para a reconstrução da União Soviética. Até a invasão pelo Exército Vermelho, a Romênia apoiava a Alemanha nazista durante a guerra. Assim, alemães entre 17 e 45 anos foram enviados a campos de trabalhos forçados soviéticos.

quando ler é doloroso

Herta Müller baseou sua obra no relato de sobreviventes de campos de trabalho forçados soviéticos

 

A mãe de Herta Müller passou cinco anos num campo de trabalhos forçados, mas pouco falou sobre o tema com a filha. O tema “deportação” era um tabu devido ao passado nazista da Romênia. Só se falava sobre os campos de maneira velada. Em 2001, Müller começou a colher relatos de sobreviventes, entre eles Oskar Pastior, que se tornou sua principal fonte sobre os campos. Eles pretendiam escrever um livro juntos, porém Pastior morreu em 2006.

Herta Müller reconstitui com sensibilidade os pequenos detalhes do cotidiano do campo. As pás de coração para o carregamento de carvão. A beleza incomum de um lenço branco bordado à mão, tão deslocado na realidade fria do campo.

Segue um trecho do livro:

Sobre o anjo da fome

A fome está sempre ali.

Como está ali, ela vem quando e como quer.

O princípio de causalidade é o trabalho ignóbil do Anjo da Fome.

Quando ele chega, ele chega com força.

É claríssimo:

1 movimento completo com a pá = 1 grama de pão.

Título: Tudo o que tenho levo comigo
Autora: Herta Müller
Tradução: Carola Saavedra
Editora: Companhia da Letras

Título: Maus
Autor: Art Spiegelman
Tradução: Antonio de Macedo Soares
Editora: Companhia da Letras

O feminismo irônico de Marjane Satrapi em “Bordados”

bordados-marjane-satrapi-livro

A escritora Marjane Satrapi usou suas memórias de infância para escrever “Bordados”

Marjane Satrapi, 47 anos, é uma ilustradora, escritora e cineasta de origem iraniana, que mora hoje na França. Bisneta do imperador Nasser al-Din Shah (que teve cem mulheres) e filha de pais marxistas, Satrapi teve uma infância cheia de experiências ricas que depois serviram de inspiração para seus livros.

Uma dessas experiências foi a presença marcante de sua trisavó, obrigada a casar com um general do exército 50 anos mais velho quando tinha treze anos. Na noite de núpcias, para fugir do marido, fingiu estar com vontade de ir ao banheiro e foi para a casa de uma tia. Nunca mais voltou, estudou artes na Suíça e dizia que era melhor ser amante de um homem casado do que engomar camisas de marido.

A história de sua trisavó e de outras mulheres a levaram a escrever “Bordados”, um relato da vida feminina no Irã. Sob o formato de história em quadrinhos – ou graphic novel – descobrimos a dura condição de vida das mulheres iranianas. Uma sociedade onde a virgindade de uma mulher é o seu bem mais precioso, em que muitas mulheres são tratadas como objeto pelos maridos.“Bordados” é como as mulheres iranianas chamam o nosso “tricô”, jogar conversa fora, mas também é um termo para a cirurgia de reconstituição do hímen.

livro-bordados-marjane-satrapi

Marjane Satrapi escreve sobre a situação das mulheres no Irã com humor e ironia

Todas as tardes, as mulheres da família se reúnem para beber o samovar, o chá típico iraniano, e para “ventilar o coração”: falar dos outros pelas costas. Mas também para contarem sem medo suas experiências amorosas e sexuais, sem julgamentos.

Apesar de escrever histórias sobre desilusões amorosas e abuso contra mulheres, Satrapi escreve com um humor irônico e sutil. A leitura é rápida e prazerosa, como as revistas de quadrinhos são.