Melhores leituras de 2017

Li menos do que planejei em 2017, mas também acho que não fiz feio considerando o tempo que as rede sociais sugam (e Netflix, Youtube…). Algumas leituras foram memoráveis e merecem ser compartilhadas com vocês!

 História de quem foge e de quem fica elena ferrante

História de quem foge e de quem fica – Elena Ferrante

Este é o terceiro volume da série napolitana, escrito pela misteriosa escritora italiana Elena Ferrante e sucesso no mundo inteiro. A personagem Elena Greco começa a narrar a história de sua amizade desde a infância com Raffaella Cerullo – Lila.

Em “História de quem foge e de quem fica“, as amigas Lenu e Lila encontram-se agora em importantes momentos da vida adulta. Elena não consegue se dedicar à carreira literária com o casamento e as filhas. Lila tenta reconstruir sua vida no bairro da infância. Uma leitura que me fez refletir sobre a situação da mulheres e sobre as relações de amizade.


História da menina perdida – Elena Ferrante

O último livro da série é a melhor leitura da tetralogia napolitana. É o mais bem escrito e com capacidade de dizer muito em poucas linhas. A cada linha que avançamos na leitura, sabemos que algo irremediavelmente ruim irá acontecer e ficamos com a respiração suspensa durante toda a leitura. Vamos sentindo as dores dos personagens, mas também desenvolvendo uma relação de amor e ódio com eles (principalmente com Nino).

 

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Clarice Lispector – esboço para um possível retrato – Olga Borelli

Este livro de memórias escrito por Olga Borelli, amiga íntima de Clarice Lispector, foi publicado em 1981 e está fora do mercado. Olga Borelli conviveu de perto com a escritora nos seus últimos anos de vida e ajudou a editar várias de suas obras.

Os detalhes da vida cotidiana e a seleção de textos e cartas feita por Olga Borelli fazem com que o leitor sinta o pensamento de Clarice e tenha uma compreensão íntima da escritora. Borelli selecionou escritos inéditos e também cartas da escritora. Uma leitura imperdível para os fãs de Clarice.

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O escritor norueguês Karl Ove Knausgård


A morte do pai – Karl Ove Knausgård

O escritor norueguês Karl Ove Knausgård sempre quis escrever sobre a morte do seu pai após anos de alcoolismo. Depois de ter publicado dois livros de ficção, Knausgård decidiu escrever sobre a própria vida, como em um diário. Ele escreve sobre os filhos, a morte do pai e detalhes banais do cotidiano, mas numa escrita muito sensível que envolve o leitor em seu universo.

“A morte do pai” é o primeiro livro da série Minha Luta, que é sucesso de público e crítica em diversos países.


Um outro amor – Karl Ove Knausgård

“Um outro amor” é o segundo livro da série de Knausgård e uma leitura supreendente. No segundo livro sobre sua vida, o escritor aborda agora as suas relações amorosas, o casamento com a mulher Linda, os filhos, problemas conjugais e relações com os amigos.

O grande segredo de Knausgård é transformar o banal do dia a dia em literatura da mais alta qualidade. Trocas de fraldas, brigas com os vizinhos, o simples ato de colocar o lixo no depósito, tudo prende o leitor, que quer ler mais e entrar mais na vida do autor. Acho que este é o grande segredo, nos sentimos próximos do escritor, entrando em seus pensamentos e cotidiano.

Knausgård não esconde o que pensa dos amigos, da mulher e parentes, o que às vezes nos faz sentir raiva, às vezes compreensão. Esta sinceridade trouxe problemas ao autor, que perdeu amigos e enfrentou problemas no casamento. Também houve críticas à exposição dos filhos e da família.

Apesar das polêmicas, foi uma das melhores leituras que fiz nos últimos anos. E o final dos dois livros são perfeitos, muito bem escritos.

As memórias de Olga Borelli em “Clarice Lispector – esboço para um possível retrato”

Muitas biografias sobre a escritora Clarice Lispector (1920-1977) foram feitas, como a mais recente e famosa, “Clarice,” do americano Benjamin Moser; e a biografia escrita pela pesquisadora Nádia Gotlib, “Clarice uma vida que se conta“.

Mas há uma obra pouco conhecida sobre Clarice, escrita por Olga Borelli, amiga íntima e presente em seus últimos  anos de vida. Em “Clarice Lispector – esboço para um possível retrato“, Borelli une suas memórias a textos inéditos da autora. É um livro imperdível para os fãs da escritora. Sempre há um mistério por revelar em Clarice, e neste livro entramos um pouquinho mais neste mistério.

A obra foi publicada em 1981 e não houve mais reedições. O livro pode ser comprado por um preço bem salgado em sebos ou pode ser encontrado em bibliotecas públicas (peguei emprestado na biblioteca da Universidade Federal de Santa Catarina).

 

As memórias de Olga Borelli em Clarice Lispector esboço para um possível retrato

O livro de Olga Borelli sobre Clarice não está mais disponível nas livrarias, mas pode ser encontrado em bibliotecas públicas. (Este exemplar da UFSC está um pouco surrado)

 

A vida íntima de Clarice

Os detalhes da vida cotidiana e a seleção de textos e cartas feita por Olga Borelli fazem com que o leitor sinta o pensamento de Clarice e tenha uma compreensão íntima da escritora.  Em suas memórias, Borelli reconstituiu os mínimos detalhes da vida da amiga: a cor do batom (rubro forte), a hora de acordar (entre três e cinco da manhã), o significado de Deus (Deus significa o apuramento do sonho, significa a capacidade de uma pessoa de se livrar do peso do si-mesmo).

Nos últimos anos de vida da escritora, era Borelli quem ajudava a editar os livros e a organizar os fragmentos de texto que Clarice anotava em talões de cheques, guardanapos e lenços. Foi Borelli que ajudou Clarice na estruturação do livro “Água viva“. A escritora anotou palavras e frases por três anos, mas apenas quando conheceu Olga conseguiu estruturar o livro, que é um jorro de pensamentos e sensações, sem a estrutura tradicional de enredo e trama. A própria Clarice não considerava o livro bom, e acreditava que nenhuma editora se interessaria por ele (observação: o livro é ótimo!).

 

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Clarice Lispector e Olga Borelli em viagem a Buenos Aires

 

De acordo com Olga Borelli, o método de trabalho para editar uma das maiores escritoras brasileiras era “respirar junto“. E é respirando junto com Clarice e Olga que lemos “Clarice Lispector – esboço para um possível retrato“:

“Quantas vezes vi, maravilhada, o nascimento de um texto a partir da simples anotação de uma palavra! Mas também quantas vezes fui testemunha impotente de seus momentos de desespero diante do desafio do papel em branco.”

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio. Que é que eu posso escrever. Como posso anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma ideia. Cada palavra materializa o espírito. Quantas mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.

“Sua solidão foi consequência da liberdade maior a que sempre aspirou. Fazia o que queria quando queria. Não era um ser fechado, amargurado, como se divulgou. Dava declarações, quando as sabia indispensáveis, e se deixava fotografar.”

Minha própria liberdade não é livre: corre sobre trilhos invisíveis. Nem a loucura é livre. Mas também é verdade que liberdade sem uma diretiva seria uma borboleta voando no ar.

Estou no reino da fala. Escrever é lidar com a absoluta desconfiança. Escrevo como se somam 3 algarismos. A matemática da existência. O que escrevo é simples como um vôo. Um vôo vertiginoso. Êxtase?”

 

Biografia de Clarice Lispector ganha nova edição

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Em 2009, a  editora Cosac Naify lançou uma badalada biografia da escritora Clarice Lispector, feita pelo americano Benjamin Moser. O livro foi sucesso de vendas e ajudou a divulgar a escritora no exterior. Com o fim da Cosac Naify, o livro ficou um tempo esgotado mas já pode ser encontrado nas livrarias em uma reedição pela Companhia das Letras.

Moser fez uma ampla pesquisa sobre a vida de Clarice, viajando até a Ucrânia para conhecer a cidade de Tchechelnick, onde a escritora nasceu em 10 de dezembro de 1920. Os pais de Clarice, Mania e Pinkhas, e as duas irmãs mais velhas, Elisa e Tania, imigraram para o Brasil em 1922, fugindo da guerra civil na Ucrânia e da perseguição aos judeus. Durante a guerra, a família teve que se deslocar por várias cidades do interior para fugir dos pogroms, ataques de extrema violência contra os judeus de uma comunidade, com o estupro de mulheres, assassinatos de crianças e de adultos e saques.

Num desses deslocamentos, a família Lispector se instalou na cidade de Haysyn, que também foi atacada. A mãe de Clarice, Mania Lispector, foi atacada em um pogrom e sofreu consequências que causaram sua morte prematura aos 42 anos. De acordo com Benjamin Moser, Elisa Lispector escreveu em suas memórias não publicadas: “Foi o trauma decorrente de um daqueles fatídicos pogroms que invalidou minha mãe”.

Na biografia de Moser, é abordada pela primeira vez o que teria causado a doença que causou tanto sofrimento a Mania. Para o autor, Mania foi estuprada por soldados soviéticos e contraiu sífilis, e não teve o tratamento adequado. A própria Clarice teria confidenciado a uma amiga íntima os horrores que a mãe teria passado durante o pogrom. Não há nenhum registro das três irmãs falando sobre o incidente, porém a família da escritora nunca contestou as informações da biografia.

Outra teoria que Moser lança é a de que Clarice foi concebida para “curar a mãe”. No interior da Ucrânia, a população acreditava que forças sobrenaturais eram causadoras de doenças, além da crença que uma gravidez pode curar um enfermidade. Clarice escreveu sobre isso:

“Fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. [..] Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe”.

Benjamin Moser fez uma restituição cuidadosa das agruras da família Lispector até chegar ao Brasil. Sabemos que após o nascimento de Clarice a doença de Mania começou a se agravar, e Pinkhas ficou acamado com febre tifoide. Assim que o pai ficou curado, a família fugiu para a Romênia, com Pinkhas “carregando a bagagem da família e a pequena Clarice amarrada a seu peito”. Elisa não tinha sapatos, e improvisava com caçarolas. A família conseguiu chegar em segurança ao Brasil em 1922.

Os Lispector se instalaram primeiro em Maceió, mas depois de três anos migraram para Recife. O pai trabalhava como mascate e a saúde de Mania só piorava. Clarice inventava histórias para entreter a mãe, que sempre tinham um final mágico que a curavam. A última mudança foi para o Rio de Janeiro, quando Clarice tinha 15 anos. Pinkhas, que adotou no Brasil o nome de Pedro, morreu aos 55 anos, após complicações de uma cirurgia de vesícula. Os pais de Clarice não viveram o suficiente para ver a consagração da filha como escritora.

Clarice e a literatura

O interesse por literatura começou cedo na vida da escritora, que escreveu um conto que não conseguiu terminar aos 13 anos. Já inventava histórias desde criança, e as leituras na adolescência a influenciaram, como “O lobo da estepe”, de Herman Hesse, e “Crime e Castigo” de Dostoievski. O primeiro conto publicado foi em 25 de maio de 1940, “Triunfo”, na Revista Pan, com apenas 19 anos.

Na biografia, Benjamin Moser aborda as influências de Clarice na hora de escrever.O tema do exílio, de se sentir estrangeiro e estranho, além dos danos psicológicos causados pelo pogrom, que resultaram numa depressão e dificuldade de se relacionar com outras pessoas, mesmo que Clarice não tenha presenciado um.

Como pode ser visto em muitas protagonistas dos livros de Clarice, há uma busca pela liberdade, uma inadequação, principalmente à vida de dona de casa (e no caso de Clarice, à vida de mulher de diplomata).

O judaísmo e uma busca por Deus, ou o sentido da vida, também são presentes na obra de Clarice. Em “A hora da estrela”, a personagem Macabéa tem seu nome inspirado nos macabeus, cuja história bíblica é celebrada no Chanucá.  “A hora da estrela” foi o último livro publicado pela escritora, em outubro de 1977. Alguns dias depois, foi internada com câncer no ovário. Morreu no dia 9 de dezembro daquele mesmo ano.

A obra de Clarice Lispector, muitas vezes tida como “hermética”, foi se popularizando ao longo dos anos. É um dos escritores brasileiros mais traduzidos no exterior. O que não fez com que o mistério Clarice fosse resolvido ao longo dos anos. Seu jeito reservado e tímido, os muitos anos morando no exterior com o marido e a relutância em falar sobre sua origem russa fizeram com que muitos mitos fosse criados em torno da escritora. Ela sempre reiterou sua brasilidade, apesar de muitos insistirem que era estrangeira, por causa de seu estranho sotaque (nordestino com um leve problema de dicção) e de suas roupas.

Nos últimos anos, temos visto um crescente número de obras sobre Clarice, coletâneas de cartas que ela trocava com amigos e irmãos, crônicas de jornal e artigos para o público feminino sob o pseudônimo de Helen Palmer. Mesmo com a publicação de inúmeras biografias, como a de Benjamin Moser, a sensação que temos ao ler essa minuciosa biografia é de que a alma atormentada de Clarice Lispector nunca poderá ser desnudada por completo.

Outras biografias sobre Clarice Lispector

A obra de Benjamin Moser não é a única biografia sobre a escritora. Há o livro da amiga íntima dos últimos anos, Olga Borelli (Esboço para um possível retrato – Clarice Lispector, Ed. Nova Fronteira, 1981). Há também a obra de Nádia Gotlib,  “Clarice: uma vida que se conta” (Edusp, 2009), e a tese de doutorado da canadense Claire Varin, “Línguas de fogo” (Ed. Limiar, 2002). “Eu sou uma pergunta. Uma biografia de Clarice Lispector” (Rocco, 1999), foi escrita por Teresa Montero.

Para conhecer mais sobre a escritora, também há a única entrevista que Clarice gravou para a televisão, em 1977.