Melhores filmes e séries de 2018

Esta lista é bem pessoal (e atrasada). Tem produções recentes e também mais antigas. Foram obras que me marcaram ou provocaram grandes reflexões, e, agora, compartilho com vocês ;).

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Sonhos

Akira Kurosawa foi um dos mais aclamados cineastas do século XX. No final da vida, em 1990, ele dirigiu um filme que seria diferente de toda sua obra cinematográfica. Sonhos, como o próprio título sugere, teve seu roteiro baseado nos próprios sonhos de Kurosawa. O filme é composto por oito histórias independentes, como sonhos de infância e da vida adulta.

 

The square – A arte da discórdia

Este é um filme sueco, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2018. É um filme que nos faz refletir sobre a questão da arte contemporânea e também sobre como os europeus lidam com os imigrantes. O ambiente do mundo da arte é exibido sem sacralidade e com grande sarcasmo. O espectador nunca mais verá uma exposição (principalmente de arte contemporânea) da mesma maneira.

A sociedade literária e a torta de casca de batata

A Netflix produziu este filme baseado em um livro de uma autora estreante de 70 anos, Mary Ann Shafer, que escreveu a obra com a ajuda da sobrinha Annie Barrows. A sociedade literária e a torta de casca de batata é um filme simples e romântico, indicado para quem gosta de livros, além de mostrar as consequências da Segunda Guerra Mundial na vida de pessoas comuns.

Lady Bird

A estreia da atriz Greta Gerwig na direção resulta num filme delicado e intenso sobre a adolescência e a complicada relação entre mães e filhas. Lady Bird recebeu indicações ao Oscar nas categorias melhor filme, melhor direção, melhor roteiro, melhor atriz (Saoirse Ronan) e melhor atriz coadjuvante (Laurie Metcalf). Aliás, recomendo vários filmes com Greta Gerwig: Frances Ha, Mistress America.

 

Bandersnatch

É o primeiro filme interativo produzido pela Netflix, dentro da séria Blackmirror, que explora a influência da tecnologia na vida das pessoas. Um jovem da década de 80 é contratado por uma grande empresa para produzir seu próprio videogame. A produção intensa o força a lidar com problemas psicológicos causados pela morte da mãe. O espectador deve escolher as ações que o personagem irá tomar, alterando o curso do filme. Há cinco finais alternativos, e tem gente que já mapeou cada um.

 

Unbreakable Kimmy Schmidt

Unbreakable Kimmy Schmidt é uma das séries mais loucas e divertidas da Netflix. A série foi idealizada pela humorista Tina Fey e não é um tipo de humor que vai agradar a todas as pessoas. A personagem principal é interpretada pela excelente atriz Ellie Kemper. Infelizmente, no dia 25 de janeiro, estreia a última temporada.

 

Com amor, Van Gogh

É um dos filmes mais belos que já vi! O personagem principal, Armand Roulin (que realmente existiu – foi vizinho do pintor) viaja para o interior da França em busca de respostas para o suicídio de Van Gogh. O filme todo foi pintado a óleo por cerca de cem artistas do mundo todo, com base nas obras de Van Gogh. O visual é incrivelmente bonito, uma obra de arte.

Vida da poetisa Juana Inés é inspiração para série da Netflix

Desde janeiro está disponível na Netflix a série “Juana Inés” sobre a poetisa, escritora, dramaturga e religiosa Irmã Juana Inés de la Cruz (1651-1695). Ela foi uma das grandes poetisas do período barroco espanhol e era conhecida pela grande inteligência e virtuosismo com as palavras. A série mostra a dificuldade das mulheres de terem acesso ao mundo cultural e intelectual da época, e as poucas oportunidades que tinham fora do casamento, principalmente quando eram filhas bastardas.

Juana Inés nasceu Juana Ramírez de Asbaje em San Miguel de Nepantha, no México. De acordo com a série, era filha bastarda de Pedro Manuel de Asbaje y Vargas Machuca com a criolla Isabel Ramírez de Santillana. Seu pai abandonou a família e a mãe se casou novamente.

Precoce e com grande curiosidade intelectual, educou-se na biblioteca do avô. Leu os clássicos gregos e romanos, filosofia e teologia. Também estudou astrologia e matemática. Infelizmente, na época em que Juana Inés viveu, as mulheres não tinham acesso aos estudos formais. Ela chegou a considerar se vestir de homem para entrar na universidade. Teve aulas de latim e também aprendeu a falar o idioma indígena nahuatl, o que era causa de grande escândalo.

 

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Juana Inés aos quinze anos de idade

Com 14 anos, ingressou na Corte Virreinal do México e logo caiu nas graças da realeza pela sua erudição, mas principalmente por causa de seus versos. Foi dama de companhia da Marquesa de Mancera, Leonor Carreto, para quem escreveu versos. A “Fênix da América” escreveu poemas sagrados e profanos. Alguns deles podem ser lidos aqui.

 

DOCE TORMENTO

 O mal que venho sofrendo
E que em meu peito se lê,
Sei que o sinto, mas porque
O sinto é que não entendo.

Sinto uma grave agonia
No sonhar em que me vejo:
Sonho que nasce em desejo
E acaba em melancolia.

Quando com maior fraqueza
O meu estado deploro,
Sei que estou bem triste, e ignoro
A causa de tal tristeza.

Sinto um desejo nefasto
Pelo objeto ao qual aspiro;
Mas quando de perto o miro,
Eu mesma é que a mão afasto.

Penso mal do mesmo bem
Com receoso temor
E às vezes o mesmo amor
Me obriga a mostrar desdém.

Com pouca causa ofendida,
Costumo, com meio amor,
Negar um leve favor
A quem eu daria a vida.

Já paciente, já irritada,
Vacilo em penar agudo:
Por ele sofrerei tudo,
Tudo; mas com ele, nada.

Ao que pelo objeto amado
Meu coração não se atreve?
Por ele, o pesado é leve;
Sem ele, o leve é pesado.

Quando o desengano toco,
Luto com o mesmo quebranto
De ver que padeço tanto,
Padecendo por tão pouco.

No tormento em que me vejo,
Levada de meu engano,
Busco sempre o desengano,
E não acha-lo desejo.

Se a alguém meu queixume exalo,
Mais a dizê-lo me obriga
Para que mo contradiga
Do que para reforçá-lo.

Pois e, com minha paixão,
Daquele que amo maldigo,
É meu maior inimigo
Quem nisso me dá razão.

Se acaso me contradigo
Neste meu arrazoado,
Vós que tiverdes amado
Entendereis o que digo.

Sucesso literário e conflitos com a Igreja

Como filha bastardada, sem dote, a única opção que restava era ser dama de companhia na corte ou freira. Aos 16 anos entrou para a Ordem das Carmelitas Descalças, mas não se adaptou à rigidez do convento. Em 1668, ingressa na Ordem das Jerônimas, onde permanecerá por toda a vida.

A sugestão para entrar no convento veio do padre Núñez de Miranda, confessor dos vice-reis. Na série da Netflix, ele é um vilão que atormenta Juana Inés – ele foi confessor da poetisa na ficção e na vida real, além de ser membro do Tribunal do Santo Ofício. O padre Núñez de Miranda ficcional é cheio de inveja e admiração pelo talento de Juana Inés. Na vida real, o comportamento da escritora era reprovado por seu confessor. Com a ajuda de María Luisa Gonzaga Manrique de Lara, a condessa de Paredes, Juana Inés consegue se afastar da esfera de influência de Miranda.

 

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Retrato de Juana Inés por Miguel Cabrera

Muitos estudiosos especularam sobre a relação de Juana Inés com a condessa. Maria Luísa incentivava a carreira da monja e ambas eram muito próximas. A escritora escreveu inúmeros poemas para a condessa, quase 50, que foram compilados recentemente na coletânea “Un amar ardiente”.

Juana Inés não escreveu apenas poemas sobre o amor e Deus, mas também aproveitou sua pluma para criticar os homens e o machismo da sociedade, como no poema “Homens néscios que acusais”:

 

HOMENS NÉSCIOS QUE ACUSAIS

Homens néscios que acusais
a mulher sem razão,
sem ver que sois a causa
do mesmo que culpais:

se com ânsia sem igual
solicitais seu desdém,
por que quereis que procedam bem
se as incitais ao mal?

Combateis sua resistência
e logo, com gravidade,
dizeis que é leviandade
o que fez a diligência.

Assemelhar-se quer a ousadia
de vosso parecer louco,
ao menino que faz uma mostro
e logo lhe tem medo.

Quereis, com presunção néscia,
encontrar à que procurais,
para prometida, Thais,
e para possuir, Lucrecia.

Que humor pode ser mais estranho
que aquele que, sem conselho,
ele próprio embaça o espelho,
e reclama que não está claro?

Com o favor e o desdém,
estás em igual condição,
queixando-se, se lhes tratam mal,
zombando, se lhes querem bem.

Opinião, nenhuma ganha,
pois a que mais se recata,
se não vos admite, é ingrata,
e se vos admite, é leviana.

Sempre tão néscios andais
que, com desigual cota,
a uma culpais por cruel
e a outra por fácil culpais.

Pois como há de ser moderada
a que vosso amor pretende,
se a que é ingrata, ofende,
e a que é fácil, entedia?

Mas, entre o tédio e a aflição
que vosso gosto insinua,
bem haja a que não vos queira
e lamentai vos em hora idônea.

Dão vossas queridas tristezas,
a suas liberdades asas,
e depois de torná-las más
quereis achá-las virtuosas.

Qual maior culpa tem tido
em uma paixão errada:
a que cai pelos rogos
ou quem roga por caído?

Ou quem tem maior culpa,
independente do mal que faça:
a que peca por salário,
ou quem para pecar paga?

Pois, para que vos espantais
da culpa que tens?
quereis elas como as fazeis
ou fazei elas como as procurais.

Deixe de solicitar,
e depois, com mais razão,
acusareis a afeição
da que vos for a suplicar.

Bem com muitas armas fundo
que luta vossa arrogância,
pois em promessa e instancia
juntais diabo, carne e mundo.

 

A Igreja Católica não via com bons olhos a independência e o talento da monja, que parecia não se importar com as consequências dos seus escritos. Os conflitos se tornaram mais agudos à medida que Juana Inés ganhava fama literária. O estopim foram os comentários críticos ao “Sermão do Mandato”, do padre Antonio Vieira, que Juana Inés fez em carta privada ao bispo Don Manuel Fernandes.  O religioso publicou o manuscrito sem a autorização da autora, com o nome de “Carta Atenagórica”, e assinou o prefácio sob o pseudônimo Sóror Filotea de la Cruz.

Em resposta, Juana Inés publicou “Respuesta a Sóror Filotea de la Cruz“, carta na qual defende a liberdade intelectual da mulher. Após a publicação da carta, aumenta a pressão do clero sobre Juana Inés. Ela se reaproxima do padre Núñez de Miranda, que a aconselha a abandonar os estudos para fugir da tirania da Inquisição. Assim, ela renunciou aos seus bens, doando livros e instrumentos musicais. Escreve com o próprio sangue um auto de fé, em que se arrepende de ter escrito obras profanas. Em 1695, pouco anos depois de ter abandonado sua carreira como escritora, morre aos 43 anos durante uma epidemia de peste.

Para saber mais: 

El amor sin tabúes entre sor Juana Inés de la Cruz y la virreina de México

Obras de Juana Inés – Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes

Dica de filme: Funny Girl -A garota genial

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Barbra Streisand brinca com os padrões de beleza em “Funny Girl”

Em 1968, Barbra Streisand já era uma cantora de sucesso na Broadway quando estreou no cinema com o filme “Funny girl – A garota genial”. O que a cantora não imaginava é que iria construir uma carreira sólida no cinema e ainda ganhar  um Oscar de Melhor atriz (dividido com Katharine Hepburn).

Streisand estreou na Broadway em 1964 com o espetáculo “Funny girl”, sobre a vida da cantora e atriz Fanny Brice. O musical teve um enorme sucesso e foi adaptado para o cinema pelo renomado diretor William Wyler (“Ben-Hur”, “A princesa e o plebeu”).

Assim como Streisand, Fanny Brice está longe do padrão de beleza de Hollywood, mas tem charme e talento. Ela é  uma atriz e cantora iniciante que mora num bairro judeu com a mãe. Fanny sabe jogar com inteligência e humor para garantir o seu lugar num mundo onde a beleza é o principal valor. Ela muda a sua entrada no espetáculo do diretor Ziegfeld, colocando uma barriga de grávida para que a audiência não risse quando ela cantasse o refrão “tão bonita”.

Durante a sua busca pela fama, Fanny Brice encontra Nicky Arnstein (Omar Sharif) que ganha a vida jogando poker. Nicky Arnstein é o clássico canalha charmoso, e a ingênua Fanny cai na lábia dele. Durante o casamento ele se ressente de não ter dinheiro para acompanhar Fanny, uma estrela da Broadway. Arnstein começa a entrar em negócios escusos e jogatinas.

O filme é uma boa opção para quem gosta de musicais e comédias e está disponível na Netflix.