Leituras de janeiro

 

leituras de janeiro

 

Aura – Carlos Fuentes

É uma novela curta, leitura de poucas horas. O escritor mexicano Carlos Fuentes publicou Aura em 1962, num período em que surgia o realismo mágico na literatura latino-americana. Felipe Montero, um jovem professor de história, lê uma oferta de emprego tentadora no jornal. Uma viúva procura alguém para organizar as memórias do falecido marido. A casa é antiga e decrépita, mas Felipe se apaixona pela sobrinha da patroa, Aura. O autor é hábil em criar um clima de mistério e também de terror, um belo exemplo da literatura latino-americana.

Blink – A decisão num piscar de olhos – Malcolm Gladwell

O jornalista Malcolm Gladwell é famoso por seus livros de não-ficção. Em Blink, ele analisa como a intuição pode nos ajudar a tomar decisões, mas também como decisões tomadas de maneira rápida, baseadas em preconceito, podem ter consequências sérias. Para Gladwell, todos têm a capacidade de “fatiar fino”, ou seja, observar padrões em segundos e agir com base na intuição. Mas essa capacidade de fatiar fino também pode nos levar a agir com base em preconceitos, como classe social, sexo, aparência, raça.

Uma das histórias mais impressionantes contadas por Gladwell é sobre a musicista Abbie Conant. Por ser mulher, ela nunca era chamada para audições, e só conseguiu entrar em uma orquestra após um teste cego (onde o músico permanece escondido do júri em uma “tenda” – na série Mozart in the jungle há um exemplo). Depois que este tipo de teste foi implantado, as mulheres e outras minorias começaram a ganhar espaço nas orquestras. Sem o julgamento da aparência do candidato, os juízes poderiam avaliar pelo que realmente importava: a música. O livro também traz outras pesquisas científicas sobre intuição que valem a pena ser conhecidas.

 

A teoria de tudo – Jane Hawking

O sucesso do físico Stephen Hawking não se deve apenas ao seu maravilhoso cérebro. Por trás de sua obra, havia também o apoio incondicional de sua primeira esposa, Jane Hawking. Os dois se conheceram muito jovens, enquanto ainda eram estudantes. Em A teoria de tudo, Jane escreve sobre o início do relacionamento com um dos gênios da ciência e as dificuldades causadas pela doença de Stephen (Esclerose Lateral Amiotrófica). No início da década de 60, os médicos acreditavam que Stephen não chegaria aos 30 anos. A família do físico também não acreditava que Jane aguentaria por muitos anos o casamento com Stephen. Enfim, o casamento durou 30 anos, e o casal teve três filhos.

Há também um filme baseado neste livro, que é mais centrado na relação amorosa dos dois, deixando de lado todos os problemas que Jane teve para gerenciar a família com a condição de Stephen. O livro é mais realista, mostrando as dificuldades de Jane para seguir uma carreira própria , e também como cuidar de uma pessoa com necessidades especiais.

 

Relações íntimas – Susan Isaacs

Ainda estou no começo deste livro, que é um romance que parece ser açucarado, mas tem muitas doses de ironia. É sobre uma mulher morando em Nova York; ela é judia e trabalha como redatora de discursos para políticos. Sua família é muito tradicional, e não aceita seu casamento com um não-judeu e sua posição de mulher independente. O livro foi publicado em 1980, mas parece que algumas coisas não mudaram.

 

7 maneiras de ser feliz – Luc Ferry

Pelo título, parece apenas outro livro de autoajuda. Mas o filósofo Luc Ferry faz uma crítica a nossa sociedade obcecada com a ideia de ser feliz a qualquer custo. O autor acaba com as nossas convicções de que buscar a felicidade é um fim em si mesmo. Para ele, há outros bens mais importantes, que estão acima de ser feliz, como a liberdade de pensamento.

Romance moderno: uma investigação sobre relacionamentos na era digital

Romance Moderno: uma investigação sobre relacionamentos na era digital

Os sites de namoro já existiam antes dos smartphones, mas ganharam uma nova dimensão com aplicativos como Tinder e Happn. As novas tecnologias mudaram a forma como encaramos os relacionamentos amorosos.

Neste mundo de matches e deslizadas de tela, encontrar um par se tornou banal. Em segundos descobrimos que existem centenas de solteiros (e outros que mentem o estado civil) a apenas poucos metros de distância. Mas isto não significa que é mais fácil encontrar um parceiro amoroso.

Diante deste cenário, o comediante Aziz Ansari (da série Master of None, da Netflix) decidiu investigar o que mudou na vida amorosa no início deste século. Ele se juntou ao sociólogo Eric Klinenberg e escreveu o livro “Romance moderno: uma investigação sobre relacionamentos na era digital”.

O livro traz uma retrospectiva de como eram os relacionamentos na década de 60, onde não havia muitas opções de lazer e de vida, até o nosso mundo recheado de opções.
Até metade do século XX, as expectativas de relacionamento eram mais baixas. Os casamentos aconteciam entre pessoas que viviam próximas, frequentavam o mesmo bairro, as mesmas escolas. O mais provável é que você se casasse com alguém de sua vizinhança. As mulheres não estudavam ou trabalhavam, e nem era esperado que elas fizessem isso, o que reduzia as chances de encontrar um parceiro diferente.

Hoje, o esperado de um jovem é que ele conheça a vida, viaje, namore e construa uma carreira antes de se comprometer em um casamento ou relacionamento mais sério. Ao mesmo tempo que isso permite uma maior liberdade de relacionamento, também prejudica a criação de laços. O amor da sua vida deve ser alguém que o complete totalmente, alguém com quem você tenha uma conexão profunda. E sempre há a tentação: será que eu conheço alguém mais interessante?

Se relacionar com pessoas de outras cidades e até países ficou mais fácil com a internet. A única vantagem é que, quando o namoro vinga, pode ser uma relação realmente significativa na vida da pessoa.

Algoritmos do amor

Nesta era digital, somos julgados pelos algoritmos e pelos julgamentos inconscientes (nossos e dos pretendentes). As fotos, o texto de descrição dos aplicativos de namoro, a velocidade com que você responde a uma mensagem, isso tudo conta na hora de ser bem sucedido na paquera virtual.

Há alguns achados interessantes na pesquisa feita pelos autores: homens que não sorriem e que não olham para a câmera se dão melhor nos matches. Para as mulheres, as fotos que geram mais sucesso são a “selfie frontal tirada de cima, com uma expressão levemente coquete”. Já fotos em que as mulheres aparecem bebendo ou com um animal não são muito favoráveis.

O mundo virtual traz nuances que são difíceis de interpretar. Não é à toa que as pessoas se sentem tão perdidas. Há muitas variáveis e nem sabemos por que atraímos (ou afastamos) pretendentes na internet.

Aziz Ansari e Eric Klinenberg também viajaram para cidades como Buenos Aires, Paris e Tóquio para refletir sobre as diferenças culturais na hora da paquera. Enfim,”Romance moderno” é um livro para quem quer entender (e sobreviver) nesses tempos modernos.

Título: Romance moderno
Autores: Aziz Ansari e Eric Klinenberg
Tradução: Christian Schwartz
Ano de publicação: 2016
Editora: Paralela

Resenha: Em busca de um final feliz – Katherine Boo

 

Abdul, um jovem de 16 anos, vive em Annawadi, uma favela localizada próximo ao Aeroporto Internacional de Mumbai. Ele trabalha como catador de papel desde os seis anos e, agora, deve tomar uma decisão importante: foi acusado de um crime que não cometeu.  Fátima, uma das moradoras de Annawadi, ateou fogo a si mesma e agora acusa Abdul.

É a partir da história de Abdul e de sua família que a jornalista Katherine Boo relata o cotidiano de uma favela indiana no livro “Em busca de um final feliz”. Durante três anos, a autora conviveu com os moradores de Annawadi para escrever seu livro reportagem. “Eu sentira falta de livros de não-ficção sobre a Índia: histórias contadas com profundidade mostrando como as pessoas das classes mais baixas – especialmente mulheres e crianças –  estavam negociando na era dos mercados globais”, escreve Katherine Boo no posfácio.

A favela de Annawadi foi criada em 1991 por um grupo de trabalhadores que haviam sido contratados para consertar uma pista do Aeroporto Sahar. O terreno próximo ao aeroporto era úmido, encharcado e cheio de cobras. Mas os trabalhadores limparam o terreno e estabeleceram suas casas de bambu. A Índia vivia o início da liberalização econômica, e a proximidade com o aeroporto e os diversos hotéis de luxo da região prometia empregos e ascensão econômica.

“Na verdade, apenas seis dos três mil moradores da favela tinham emprego com carteira assinada. (O resto, assim como os 85% dos trabalhadores indianos, faziam parte da economia informal). É certo que alguns poucos residentes ainda catavam ratos e sapos e os fritavam para jantar. Alguns comiam grama baixa na beirada do lago de esgoto. E estes indivíduos, estas almas miseráveis, de certo modo deram uma contribuição inestimável aos seus vizinhos. Eles propiciaram aos favelados que não fritavam ratos e não comiam mato, como Abdul, uma sensação real de mobilidade e ascensão social. “

O processo de apuração da jornalista foi extremamente detalhista: muitas horas de gravação em vídeo e áudio, fotos, anotações. Cada detalhe era checado três, quatro vezes. A autora também consultou mais de três mil registros públicos.

O livro se concentra sobre os desdobramentos da acusação de Abdul, mas também sobre outros personagens, como Asha, professora do jardim de infância e cheias de conexões políticas que a fazem almejar o cargo de líder comunitária da favela. O intrincado sistema de castas indiano e as burocracias do sistema judiciário são retratados com precisão, mostrando toda a crueldade das pequenas corrupções e da miséria.

A pesquisa detalhada sobre o cotidiano da favela transforma o livro de Katherine Boo em uma sofisticada obra realista. Infelizmente, uma realidade que existe, que nos faz pensar como estão agora Abdul e todos os moradores de Annawadi.