Biografia de Clarice Lispector ganha nova edição

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Em 2009, a  editora Cosac Naify lançou uma badalada biografia da escritora Clarice Lispector, feita pelo americano Benjamin Moser. O livro foi sucesso de vendas e ajudou a divulgar a escritora no exterior. Com o fim da Cosac Naify, o livro ficou um tempo esgotado mas já pode ser encontrado nas livrarias em uma reedição pela Companhia das Letras.

Moser fez uma ampla pesquisa sobre a vida de Clarice, viajando até a Ucrânia para conhecer a cidade de Tchechelnick, onde a escritora nasceu em 10 de dezembro de 1920. Os pais de Clarice, Mania e Pinkhas, e as duas irmãs mais velhas, Elisa e Tania, imigraram para o Brasil em 1922, fugindo da guerra civil na Ucrânia e da perseguição aos judeus. Durante a guerra, a família teve que se deslocar por várias cidades do interior para fugir dos pogroms, ataques de extrema violência contra os judeus de uma comunidade, com o estupro de mulheres, assassinatos de crianças e de adultos e saques.

Num desses deslocamentos, a família Lispector se instalou na cidade de Haysyn, que também foi atacada. A mãe de Clarice, Mania Lispector, foi atacada em um pogrom e sofreu consequências que causaram sua morte prematura aos 42 anos. De acordo com Benjamin Moser, Elisa Lispector escreveu em suas memórias não publicadas: “Foi o trauma decorrente de um daqueles fatídicos pogroms que invalidou minha mãe”.

Na biografia de Moser, é abordada pela primeira vez o que teria causado a doença que causou tanto sofrimento a Mania. Para o autor, Mania foi estuprada por soldados soviéticos e contraiu sífilis, e não teve o tratamento adequado. A própria Clarice teria confidenciado a uma amiga íntima os horrores que a mãe teria passado durante o pogrom. Não há nenhum registro das três irmãs falando sobre o incidente, porém a família da escritora nunca contestou as informações da biografia.

Outra teoria que Moser lança é a de que Clarice foi concebida para “curar a mãe”. No interior da Ucrânia, a população acreditava que forças sobrenaturais eram causadoras de doenças, além da crença que uma gravidez pode curar um enfermidade. Clarice escreveu sobre isso:

“Fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. [..] Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe”.

Benjamin Moser fez uma restituição cuidadosa das agruras da família Lispector até chegar ao Brasil. Sabemos que após o nascimento de Clarice a doença de Mania começou a se agravar, e Pinkhas ficou acamado com febre tifoide. Assim que o pai ficou curado, a família fugiu para a Romênia, com Pinkhas “carregando a bagagem da família e a pequena Clarice amarrada a seu peito”. Elisa não tinha sapatos, e improvisava com caçarolas. A família conseguiu chegar em segurança ao Brasil em 1922.

Os Lispector se instalaram primeiro em Maceió, mas depois de três anos migraram para Recife. O pai trabalhava como mascate e a saúde de Mania só piorava. Clarice inventava histórias para entreter a mãe, que sempre tinham um final mágico que a curavam. A última mudança foi para o Rio de Janeiro, quando Clarice tinha 15 anos. Pinkhas, que adotou no Brasil o nome de Pedro, morreu aos 55 anos, após complicações de uma cirurgia de vesícula. Os pais de Clarice não viveram o suficiente para ver a consagração da filha como escritora.

Clarice e a literatura

O interesse por literatura começou cedo na vida da escritora, que escreveu um conto que não conseguiu terminar aos 13 anos. Já inventava histórias desde criança, e as leituras na adolescência a influenciaram, como “O lobo da estepe”, de Herman Hesse, e “Crime e Castigo” de Dostoievski. O primeiro conto publicado foi em 25 de maio de 1940, “Triunfo”, na Revista Pan, com apenas 19 anos.

Na biografia, Benjamin Moser aborda as influências de Clarice na hora de escrever.O tema do exílio, de se sentir estrangeiro e estranho, além dos danos psicológicos causados pelo pogrom, que resultaram numa depressão e dificuldade de se relacionar com outras pessoas, mesmo que Clarice não tenha presenciado um.

Como pode ser visto em muitas protagonistas dos livros de Clarice, há uma busca pela liberdade, uma inadequação, principalmente à vida de dona de casa (e no caso de Clarice, à vida de mulher de diplomata).

O judaísmo e uma busca por Deus, ou o sentido da vida, também são presentes na obra de Clarice. Em “A hora da estrela”, a personagem Macabéa tem seu nome inspirado nos macabeus, cuja história bíblica é celebrada no Chanucá.  “A hora da estrela” foi o último livro publicado pela escritora, em outubro de 1977. Alguns dias depois, foi internada com câncer no ovário. Morreu no dia 9 de dezembro daquele mesmo ano.

A obra de Clarice Lispector, muitas vezes tida como “hermética”, foi se popularizando ao longo dos anos. É um dos escritores brasileiros mais traduzidos no exterior. O que não fez com que o mistério Clarice fosse resolvido ao longo dos anos. Seu jeito reservado e tímido, os muitos anos morando no exterior com o marido e a relutância em falar sobre sua origem russa fizeram com que muitos mitos fosse criados em torno da escritora. Ela sempre reiterou sua brasilidade, apesar de muitos insistirem que era estrangeira, por causa de seu estranho sotaque (nordestino com um leve problema de dicção) e de suas roupas.

Nos últimos anos, temos visto um crescente número de obras sobre Clarice, coletâneas de cartas que ela trocava com amigos e irmãos, crônicas de jornal e artigos para o público feminino sob o pseudônimo de Helen Palmer. Mesmo com a publicação de inúmeras biografias, como a de Benjamin Moser, a sensação que temos ao ler essa minuciosa biografia é de que a alma atormentada de Clarice Lispector nunca poderá ser desnudada por completo.

Outras biografias sobre Clarice Lispector

A obra de Benjamin Moser não é a única biografia sobre a escritora. Há o livro da amiga íntima dos últimos anos, Olga Borelli (Esboço para um possível retrato – Clarice Lispector, Ed. Nova Fronteira, 1981). Há também a obra de Nádia Gotlib,  “Clarice: uma vida que se conta” (Edusp, 2009), e a tese de doutorado da canadense Claire Varin, “Línguas de fogo” (Ed. Limiar, 2002). “Eu sou uma pergunta. Uma biografia de Clarice Lispector” (Rocco, 1999), foi escrita por Teresa Montero.

Para conhecer mais sobre a escritora, também há a única entrevista que Clarice gravou para a televisão, em 1977.