A onda das garotas na literatura

“A garota no trem”

“Garota exemplar”

“A garota do calendário”

Quantos livros com garota no título você consegue se lembrar?

Os livros com “garotas” se tornaram bastante populares nos últimos anos. Mas o que está por trás desses títulos? Pura estratégia de marketing?

a onda das garotas na literatura

 

A escritora canadense Emily St. John Mandel (que escreveu o ótimo “Estação Onze” – resenha aqui) fez uma análise  baseada nos dados da rede social Goodreads sobre o fenômeno, além de conversar com pessoas que trabalham no mercado editorial. A análise da escritora foi publicada na revista americana FiveThirtyEight em outubro de 2016.

Febre Millenium

De acordo com as fontes ouvidas por Mandel, a onda dos livros com “garota” na capa talvez tenha começado com a série Millenium, do escritor sueco Stieg Larsson. Em inglês, os livros de Larsson ganharam títulos  com a palavra girl “The Girl With the Dragon Tattoo”, “The Girl Who Played With Fire”, “The Girl Who Kicked the Hornet’s Nest”. Em português do Brasil o girl é substituído muitas vezes por “menina” – (A menina que brincava com fogo).

Um dos achados de Mandel é que na maioria das vezes a garota do livro já é uma mulher. Muitas vezes não é decisão do escritor o título final da obra, portanto os editores escolhem o título que terá mais chances de atrair a atenção do público. E para isso, nada melhor do que entrar na onda das garotas.

a onda das garotas na literatura

Até o Mia Couto entrou na onda

Dos 810 mais populares livros com garota na capa, 79% são mulheres. Outro achado interessante da escritora é que a probabilidade da garota morrer na trama é maior se o escritor for homem. Na verdade, a porcentagem é de 17% para livros de escritores e de 5% de garotas mortas durante a trama para escritoras mulheres. Como Mandel mesmo sublinha, isso não significa que personagens mulheres têm mais chance de serem mortas se o autor for homem, mas apenas se no título houver a palavra “garota”. As mulheres também tendem a escolher mais protagonistas femininas, e seria uma escolha muito incomum matar a personagem principal.

Talvez os editores tenham razão.”A garota no trem”, de Paula Hawkins, e “A história da menina perdida”, Elena Ferrante, estão entre os mais vendidos na categoria ficção no Brasil.

1984, clássico de George Orwell, está na lista dos mais vendidos

1984 clássico de george orwell entre os livros mais vendidos

George Orwell foi autor de clássicos como “1984” e “A revolução dos bichos”

 

O site Publishnews divulga semanalmente a lista dos livros mais vendidos no Brasil. Na categoria ficção, me surpreendi com a presença do livro “1984”, do escritor George Orwell (1903-1950), publicado em 1949. Li este livro faz muitos anos, um exemplar emprestado da Biblioteca Pública de Santa Catarina. A obra-prima de George Orwell vendeu milhões de cópias no mundo todo.

Em 1984, um estado totalitário governa o continente fictício da Oceânia. A figura central deste governo é o “Grande Irmão” – o Big Brother (será que a proximidade do BBB 17 fez as vendas aumentarem?). O grande ditador foi baseado na figura de Joseph Stalin, líder da União Soviética.

Para que o governo do Grande Irmão possa se perpetuar no poder, o governo reescreve a história para que todos os acontecimentos estejam de acordo com a linha do partido. O personagem principal, Winston Smith, trabalha no Ministério da Verdade, reescrevendo documentos históricos e notícias de jornal. Todos os cidadãos são monitorados o tempo todo por meio das teletelas, câmeras instaladas nas casas e lugares públicos.

Relacionamentos amorosos são proibidos, mas Winston burla a regra ao se relacionar com Julia. Influenciado pela namorada, Winston tenta se rebelar contra o governo totalitário, mas é pego e brutalmente torturado.

O mundo orwelliano

A influência de “1984” foi tamanha que vários conceitos do livro se popularizaram, como o duplipensar  – a capacidade de manter duas ideias contraditórias na mente ao mesmo tempo, mas continuar acreditando em ambas. A novilíngua é um idioma fictício deste estado totalitário, criado para diminuir a capacidade de raciocínio, modificando as palavras já existentes.

Vivemos hoje na realidade de 1984. As câmeras de vigilância nos seguem a todo momento, junto com as câmeras de celulares e computadores. Nós mesmos alimentamos a vigilância com postagens nas redes sociais. O termo orwelliano começou a ser usado para designar ações totalitárias. E o Grande Irmão ganhou sobrevida com os reality shows.

Outros livros de George Orwell que valem a pena ler são “A revolução dos bichos”, uma sátira à forma de governo stalinista; e “Na pior em Paris e Londres”, um relato sobre os anos em que Orwell trabalhou em subempregos em Paris e Londres.

P.S 1: George Orweel escreveu uma carta em 1944 em que fala sobre governos autoritários e a possibilidade de existirem nos Estados Unidos e na Inglaterra.