“Frantumaglia” reúne artigos e entrevistas da escritora Elena Ferrante

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A editora Intrínseca publicou nesta semana o livro “Frantumaglia: os caminhos de uma escritora”, livro que reúne cartas, entrevistas e artigos sobre o processo criativo da escritora Elena Ferrante. Esta autora italiana virou fenômeno global com a série napolitana, um conjunto de quatro livros narrados pela personagem Elena Greco, que recorda a conflituosa amizade com Lina, sua amiga de infância.

Não se sabe quem é a escritora que se esconde sob o pseudônimo de Elena Ferrante. Ela se recusa a dar entrevistas e a aparecer em público. Em 2016, o jornalista investigativo Claudio Gatti apontou a tradutora Anita Raja como o nome por trás do sucesso da tetralogia napolitana. Raja não se pronunciou sobre o assunto, nem Elena Ferrante.

A mãe de Raja é uma sobrevivente dos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, muito distante dos relatos de Ferrante. Para os fãs da escritora, ela é uma verdadeira napolitana criada nos subúrbios de Nápoles.

Em Frantumaglia, a escritora italiana divide com o leitor seu processo criativo e suas memórias afetivas. Frantumaglia é uma palavra italiana usada pela mãe de Ferrante para descrever pequenos pedaços de recordações, memórias e imagens que teimam em aparecer em nossas mentes. Como escreve a própria Elena Ferrante:

“A frantumaglia é uma paisagem instável, uma massa aérea ou aquática de destroços infinitos que se revelam ao eu, brutalmente, como sua verdadeira e única interioridade. A frantumaglia é o depósito do tempo sem a ordem de uma história, de uma narrativa. A frantumaglia é o efeito da noção de perda, quando temos certeza de que tudo o que nos parece estável logo se unirá a uma paisagem de detritos”

História da menina perdida – Elena Ferrante

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Terminei de ler o quarto volume da série napolitana de Elena Ferrante há umas duas semanas, mas não consegui sentar e escrever imediatamente uma resenha. “História da menina perdida” fecha o ciclo das desventuras de Lenu e Lina de uma maneira aterradora.

É o melhor livro da tetralogia napolitana, o mais bem escrito e com capacidade de dizer muito em poucas linhas (leia também sobre os outros livros da série: A amiga genial, História do novo sobrenome, História de quem foge e de quem fica).

Neste último livro, ficam mais claras as obsessões que movem Lenu e Lina e a natureza da relação entre as duas. Elena sente culpa não só por ser bem-sucedida, mas por tudo o que não deu certo na vida de Lina, o que poderia ter sido e não foi. Lina ganhou muito dinheiro com sua empresa de programação, mas mesmo assim não conseguiu se libertar do passado. Continuava a pensar obsessivamente nos irmãos Solara e em acabar com a máfia no bairro.

O bairro em que Lenu e Lina cresceram, com suas violências e histórias, se tornou uma obsessão para as duas. Para Lila, continuar ali era uma oportunidade de remediar o passado e denunciar todos os crimes da máfia.

Já Lenu, mesmo tendo sucesso como escritora e jornalista, decide voltar para a vida em Nápoles, da qual ela tanto quis fugir. Lina, Nápoles e o bairro são quase uma neurose para Lenu. Depois da separação de Pietro, ela se muda para o apartamento em cima da casa de Lina, e isto acarreta várias consequências para a vida e o destino das duas amigas.

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A cada linha que avançamos na leitura, sabemos que algo irremediavelmente ruim irá acontecer e ficamos com a respiração suspensa durante toda a leitura. Vamos sentindo as dores dos personagens, mas também desenvolvendo uma relação de amor e ódio com eles (principalmente com Nino).

Tenho sentimentos ambíguos em relação às duas protagonistas. Lila era cruel, mas também não tinha muitos recursos psicológicos para lidar com todas as situações difíceis que passou.  Lenu às vezes pode ser muito egoísta, vendo apenas o seu lado e esquecendo as necessidades das filhas ou de outras pessoas, mas também era extremamente leal à Lila. As duas tinham amadurecido suas personalidades e amizades, ambas se apoiavam mutuamente,  e cuidavam dos filhos em conjunto.

Elena Ferrante escreveu um livro sobre a amizade, mas também sobre a maternidade, o feminismo, a relação dos escritores com a arte, as hipocrisias do mundo social e literário. Ao terminar essa série, queremos reler tudo novamente, não só para entender a vida das personagens, mas também a nossa própria vida.

P.s: interessante notar no livro uma certa obsessão da escritora com bonecas e mães que “abandonam” filhas. Essa obsessão também fica clara no livro A filha perdida.

Quarto livro da série napolitana é publicado no Brasil

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O último livro da série napolitana, da misteriosa escritora Elena Ferrante, estará disponível nas livrarias amanhã, dia 27 (leia a resenha do livro). “História da menina perdida” é o último capítulo da história de Lenu e Lina, duas amigas que sobreviveram a uma infância difícil em Nápoles e que agora devem superar os desafios da vida adulta e da condição feminina.

História da menina perdida” é a continuação do penúltimo livro  da série, “História de quem foge e de quem fica” (resenha aqui).  No final do terceiro livro, o casamento de Lenu está por um fio, e Lina parece ter se acomodado no antigo bairro da infância e no novo emprego como programadora. O quarto livro aborda a transição de Lenu e Lina da vida adulta para a velhice

Estou ansiosa para saber como a história termina. Como Lenu resolverá o conflito amoroso entre Nino e Pietro? E Lina, vai continuar se resignando aos problemas do bairro? Mais 480 páginas que serão devoradas rapidamente!

História da menina perdida – Elena Ferrante
Tradução: Maurício Santana Dias
Páginas: 480
Data de lançamento: 27/04/2017
Preço: R$ 49,90
Editora: Biblioteca Azul – Globo Livros

Resenha: História de quem foge e de quem fica – Elena Ferrante

História de quem foge e de quem fica elena ferrante

 

“História de quem foge e de quem fica” é o melhor livro da série napolitana até agora – o quarto livro ainda não foi publicado no Brasil. Neste terceiro volume da série, Elena Ferrante reflete sobre a condição da mulher com uma profundidade e honestidade difíceis de encontrar na literatura. Por meio da escrita elegante da escritora italiana, entramos nas divagações da narradora Elena Greco sobre relacionamentos, amizades, a vida, a maternidade.

Na série napolitana, Elena Greco começa a narrar a história de sua amizade desde a infância com Raffaella Cerullo – Lila. As amigas Lenu e Lila agora encontram-se em importantes momentos da vida adulta. Com a ajuda de Lenu, Lila consegue sair da fábrica de embutidos e recomeçar uma nova vida no bairro. Já Elena Greco descobre os desafios de ter uma carreira literária sendo mãe e dona de casa.

A rotina do casamento, a gravidez e a rigidez do marido Pietro a fazem esquecer de si mesma e da carreira literária que tanto lutara para conquistar.Todo o tempo disponível é para cuidar da casa e das filhas.  Apesar de ser uma mulher culta e determinada, vive na sombra do marido e dos objetos de sua afeição. Quem a tira deste estado catatônico é Nino, a paixão de infância de Lenu e o amor frustrado de Lila.

Nino é o oposto de Pietro: atencioso, relaxado, antenado com as mudanças sociais. Ele apoia as iniciativas de Elena e a valoriza, ao contrário de Pietro que sempre caçoa das ideias da mulher. Pietro não vê com bons olhos a influência de sua irmã Mariarosa sobre Lenu. Ao contrário do irmão, ela é engajada nos movimentos sociais do anos 60 e realiza grupos de estudos feministas.

Além da questão feminina, Elena Ferrante também aborda as lutas estudantis de maio de 68,  a máfia, as revoltas operárias na Itália e a agitação política que tomou conta dos país nas décadas de 60 e 70. Ferrante fala sobre esses eventos com naturalidade, um pano de fundo para a vida das personagens.

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Lenu tenta fugir de Nápoles e dos problemas do bairro, enquanto Lila aceita as consequências de morar em uma cidade dominada pela máfia

 

Há também as micro tensões sociais. A dedicada professora Galiani transforma-se numa mulher amargurada, que desdenha do sucesso literário de Lenu e de sua ascensão social. Galiani admira Lila pela coragem e pela visão prática – ela não suporta “os ricos estudantes” que pensam que agem em prol dos operários. Nadia, a filha de Galiani, torna-se uma dessas estudantes e começa um relacionamento com Pasquale, amigo de infância de Lenu e Lila. O relacionamento não é bem visto pela família de Nadia.

Os acontecimentos políticos e sociais moldam a vida de Lenu e Lina, mas a amizade entre elas é o relacionamento mais forte que possuem. Temos apenas a perspectiva de Lenu para conhecer Lila. Aliás, a presença de Lila é sempre uma sombra para Lenu, e neste terceiro livro as influências dessa relação ficam mais explícitas. Elena Greco sente-se intimidada pela inteligência de Lila e sua perspicácia até em assuntos literários: “Disse que a face nojenta das coisas não era suficiente para escrever um romance: sem imaginação não parecia uma face verdadeira, mas uma máscara.

Quando parece se livrar da influência angustiante de Lila, Elena procura em Nino uma fonte de inspiração. Confesso que senti um pouco de pena da personagem. Ela parece ser uma mulher forte, mas quando finalmente consegue se libertar, se ancora em outra pessoa para escrever e guiar sua vida. Espero que no quarto volume ela “se liberte”.

Enfim, o livro é uma excelente leitura, vale a penas ler os primeiros livros da série (que também são ótimos) “A amiga genial” e “História do novo sobrenome“. Mal vejo a hora de ler o quarto volume “Storia della bambina perduta” (História da garota perdida, numa tradução livre). Enquanto o quarto livro não é lançado no Brasil, você pode ler outros livros de Ferrante, como “A filha perdida“.

Resenha: A filha perdida – Elena Ferrante

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A escritora Elena Ferrante aborda em seu livro a relação entre mãe e filha

 

A filha perdida (Ed. Intrínseca, 176 páginas), de Elena Ferrante, é mais um livro desta escritora italiana que nos toma de arroubo e não queremos largar. Leda, uma professora universitária, decide alugar um pequeno apartamento para passar as férias de verão na costa italiana, depois que as filhas já crescidas foram morar no Canadá com o pai. Porém, os dias de descanso trazem ressentimentos há muito esquecidos.

As lembranças são reavivadas quando Leda nota a presença de Nina, uma jovem mãe, com sua pequena filha, Elena. Leda começa a observá-las na praia e a relembrar a infância, o casamento, a relação com as filhas e a maternidade. Ela desenvolve uma obsessão pela mãe e a garota, querendo saber tudo sobre Nina: quem é, se é casada, se é feliz. A neurose de Leda a leva a tomar atitudes com um alto custo no futuro.

A filha perdida foi publicado antes dos livros da famosa série napolitana, mas já vemos insinuações de temas e personagens, como a filha de Nina, que tem o mesmo apelido da Elena de “A amiga genial”, LenuComo na série napolitana, vemos outra vez a presença da máfia, representada pelo marido de Nina. Também há uma jovem presa a um casamento ruim, como Nina, e Leda, que superou uma infância pobre por meio do estudo e do refinamento do mundo acadêmico.

Em A filha perdida, Elena Ferrante usa uma linguagem aparentemente simples, sem artifícios, mas que por trás de cada frase há um mar de significados para o leitor interpretar. A linguagem concisa, firme e às vezes áspera de Elena Ferrante lembra muito a escrita de  Hemingway (saiba mais sobre ele aqui), precisa e sem floreios. É essa linguagem que nos permite entrar com frieza na tumultuada vida interior de Leda, apenas observando sua evolução para um clímax inesperado mas totalmente coerente.

 

 

 

 

 

 

Elena Ferrante e suas personagens geniais

Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana que se transformou em sensação mundial depois da publicação do livro A Amiga Genial, primeiro de uma série conhecida como tetralogia napolitana. A história de duas amigas que vivem uma infância pobre e difícil na Itália do pós-guerra conquistou os leitores, mas também acendeu a curiosidade de todos: quem é Elena Ferrante?

A escritora nunca apareceu em público ou buscou os holofotes da fama.Nas poucas conversas com a imprensa (The New York Times, The Paris Review), Ferrante sempre enfatizou a infância vivida em Nápoles como inspiração para criar personagens e tramas.

Movido pela curiosidade, o jornalista italiano Claudio Gatti investigou por dois meses a verdadeira identidade de Elena Ferrante. Em reportagem publicada em outubro de 2016 no jornal Il Sole 24 Ore e outras publicações internacionais, Gatti aponta a tradutora Anita Raja, como a verdadeira Elena Ferrante.

Além de suscitar debates sobre o direito à privacidade, a reportagem também reacendeu algumas polêmicas. Até que ponto a vida de um autor influencia o trabalho ficcional? Como essas histórias são construídas?

Tetralogia Napolitana

O mais interessante nos livros de Ferrante são as personagens femininas. O trabalho mais notável está na tetralogia napolitana, com os livros A Amiga Genial, História do Novo Sobrenome, História de Quem Vai e de Quem Fica e História da Menina Perdida (ainda não publicado no Brasil).

Com sensibilidade, mas numa linguagem simples e direta, a autora narra com velocidade de best seller a relação de cumplicidade, mas também de rivalidade entre as amigas.Neles, a personagem Lenu – Elena Greco relembra a história de amizade vivida com sua amiga Lina – Raffaella Cerullo.

Lina é massacrada durante a infância com insultos e agressões físicas pelos pais e o irmão Rino. É uma criança genial, inteligente, viva, mas que tem suas esperanças de continuar os estudos tolhidas pela família. Lenu também vive uma situação de pobreza e brigas constantes em casa, mas consegue ir adiante e frequentar a universidade.

Lina começa a estudar por conta própria, aprende inglês sozinha e devora livros. Lenu cria uma admiração pela amiga, que se transforma em inveja e competição. Se Lenu estuda grego na escola, Lina também aprende. A dinâmica da relação de amizade entre as duas se estrutura em torno da competição intelectual, mas é esta competição que impele Lenu para frente, para continuar os estudos pela amiga.

O ambiente do bairro não poderia ser pior, a máfia, representada no livro pelos irmãos Solara, controla os mais ínfimos acontecimentos do local, o que causa brigas e rancores. Lina, para se livrar das investidas dos Solara, casa com Stefano Carracci, filho do agiota Dom Achille. O segundo livro, História do Novo Sobrenome, relata o casamento de Lina e a vida de Lenu na faculdade.

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Segundo livro da série napolitana

Elena Ferrante cria um mundo ficcional maravilhoso, do qual o leitor não consegue sair sem terminar por completo o livro. Na verdade, a maior criação ficcional é a própria Elena Ferrante. É esta escritora vinda de uma infância humilde em Nápoles que faz com que o leitor se envolva nas brigas dos Solara e dos Carracci, que torça por Lina e Lenu.