A imaginária – Adalgisa Nery

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Escritora, jornalista, deputada estadual no Rio de Janeiro, Adalgisa Nery (1905 – 1980) foi uma intelectual de destaque no Brasil. Seu livro A imaginária foi publicado pela primeira vez em 1959 e foi sucesso de público e crítica, com cinco edições publicadas na época. Apesar do grande sucesso literário, A imaginária só ganhou uma nova edição em 2015.

Escrito em primeira pessoa, o livro é um monólogo interior da personagem Berenice, que repassa em uma noite solitária os principais acontecimentos da sua vida. Mas também é uma autobiografia, uma forma que Adalgisa encontrou para escrever sobre o tumultuado casamento com o pintor Ismael Nery (1900-1934).

Assim como a personagem principal, Adalgisa perdeu a mãe muito jovem, aos oito anos de idade. A solidão marca a vida da personagem Berenice desde a infância. A garota já demonstrava uma grande sensibilidade e uma personalidade forte. Com o novo casamento do pai, entra em conflito com a madrasta, e é mandada para colégios internos. Mas o grande rompimento com a família acontece quando Berenice se apaixona pelo vizinho e casa ainda adolescente.

Adalgisa e Ismael Nery

Adalgisa casou com Ismael Nery em 1922, quando tinha apenas 17 anos. Ismael era um grande nome nos meios intelectuais e artísticos do Rio de Janeiro; e Adalgisa fez amizades e conheceu nomes como Manuel Bandeira e Murilo Mendes. Mas o casamento também foi extremamente opressor para a escritora, e o lado sombrio do casamento foi retratado em A imaginária.

O marido da personagem Berenice tem um comportamento condescendente: a considera muito jovem, sem criatividade e brilhantismo. Ele adoece e a maior preocupação é com a vida afetiva e sexual da mulher depois que morrer.  Todos os acontecimentos de sua vida a tornam uma mulher ansiosa pelo futuro, mas consciente que, por sua condição feminina, muitos outros acontecimentos ruins estão a sua espera.

“Há dias, começo a pressentir que novas camadas de acontecimentos imprevistos e cruéis serão colocados a minha alma. E já me falta o ar!”

 

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Adalgisa Nery, pintura de Ismael Nery

 

Adalgisa escreve de forma poética os sentimentos e angústias que passou durante o casamento, abordando como as estruturas da sociedade afetam a saúde mental da mulher. Não podemos esquecer que a época em que viveu Adalgisa ainda era de grandes restrições para as mulheres. Ela mesma não escreveu nada durante o casamento, reprimindo sua veia poética – seu primeiro livro de poemas foi publicado em 1937.

Após a morte de Ismael Nery, Adalgisa casou em 1940 com Lourival Fontes, chefe do Departamento de Imprensa e Propaganda no governo Getúlio Vargas. Adalgisa acompanhou Fontes em missões diplomáticas nos Estados Unidos e no Canadá enquanto continuava a escrever e publicar livros de poemas e ficção.

Em 1945, Fontes foi nomeado embaixador no México. Neste período, Adalgisa estabeleceu laços de amizade com os principais artistas mexicanos, como Frida Kahlo e Diego Rivera. Também foi homenageada pelo governo mexicano por suas conferências sobre artistas como a poetisa Juana Inés.

Além da carreira como escritora e jornalista, Adalgisa se aventurou na política. Foi eleita deputada estadual no Rio de Janeiro em 1960 pelo Partido Socialista Brasileiro. As colunas diárias que Adalgisa escrevia para o jornal Última Hora, a ajudaram a se eleger. Mesmo com o golpe de 1964, Adalgisa continuou os seus trabalhos como deputada. Porém, teve seus direitos políticos cassados em 1969.

Após a cassação do mandato, Adalgisa tornou-se reclusa e solitária. Internou-se em uma casa de repouso em 1976 e faleceu em 1980.

Título: A imaginária
Autora: Adalgisa Nery
Editora: José Olympio

Psicologia de um vencido – Augusto dos Anjos

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PSICOLOGIA DE UM VENCIDO

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Produndissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Eu sei, mas não devia – crônica de Marina Colasanti

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A escritora Marina Colasanti foi indicada esta semana ao prêmio Hans Christian Andersen, considerado o “Nobel” da literatura infantil. Não li nenhum livro infantil da autora, mas um texto dela que me marcou muito foi a crônica “Eu sei, mas não devia“:

“A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E porque não tem vista, a gente logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz.
E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.”
“A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.”
O Antônio Abujamra gravou um vídeo recitando a crônica, vale a pena ver:
A escritora Marina Colasanti mantém um site com crônicas e textos.

“Alguma coisa urgentemente” – conto de João Gilberto Noll

O escritor gaúcho João Gilberto Noll morreu na última quarta-feira, 29 de março, em Porto Alegre. Vencedor de cinco prêmios Jabuti, Noll escreveu 18 livros e teve algumas obras adaptadas para o cinema, como “Harmada” e “Hotel Atlântico”. De acordo com análise do escritor Ricardo Lísias, a obra do autor já previa as dificuldades que o Brasil teria para superar a estrutura autoritária da ditadura.

Essa análise social é vista no conto “Alguma coisa urgentemente“, de 1980.  A relação de um adolescente com o pai, preso político, mostra as dificuldades dos filhos de pais que lutaram contra a ditadura e a fragilidade dessas relações num ambiente autoritário.

O conto é um dos mais aclamados do escritor e da literatura brasileira e foi publicado no livro “O cego e a dançarina“, que ganhou o prêmio Jabuti. O filme também foi adaptado para o cinema pelo diretor Murilo Salles com o título “Nunca fomos tão felizes”.

Os primeiros anos de vida suscitaram em mim o gosto da aventura. O meu pai dizia não saber bem o porquê da existência e vivia mudando de trabalho, de mulher e de cidade. A característica mais marcante do meu pai era a sua rotatividade. Dizia-se filósofo sem livros, com uma única fortuna: o pensamento. Eu, no começo, achava meu pai tão-só um homem amargurado por ter sido abandonado por minha mãe quando eu era de colo. Morávamos então no alto da Rua Ramiro Barcelos, em Porto Alegre, meu pai me levava a passear todas manhãs na Praça Júlio de Castilhos e me ensinava os nomes das árvores, eu não gostava de ficar só nos nomes, gostava de saber as características de cada vegetal, a região de origem. Ele me dizia que o mundo não era só aquelas plantas, era também as pessoas que passavam e as que ficavam e que cada um tem o seu drama. Eu lhe pedia colo. Ele me dava e assobiava uma canção medieval que afirmava ser a sua preferida. No colo dele eu balbuciava uns pensamentos perigosos:

— Quando é que você vai morrer?

— Não vou te deixar sozinho, filho!

O resto do conto pode ser lido no site Releituras.

Pena que a obra de João Gilberto Noll é tão pouco conhecida do público e que ele tenha morrido em um período tão conturbado da história do país.