Psicologia de um vencido – Augusto dos Anjos

psicologia de um vencido augusto dos anjos

 

PSICOLOGIA DE UM VENCIDO

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Produndissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Eu sei, mas não devia – crônica de Marina Colasanti

eu sei mas não devia marina colasanti

 

A escritora Marina Colasanti foi indicada esta semana ao prêmio Hans Christian Andersen, considerado o “Nobel” da literatura infantil. Não li nenhum livro infantil da autora, mas um texto dela que me marcou muito foi a crônica “Eu sei, mas não devia“:

“A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E porque não tem vista, a gente logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz.
E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.”
“A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.”
O Antônio Abujamra gravou um vídeo recitando a crônica, vale a pena ver:
A escritora Marina Colasanti mantém um site com crônicas e textos.

“Alguma coisa urgentemente” – conto de João Gilberto Noll

O escritor gaúcho João Gilberto Noll morreu na última quarta-feira, 29 de março, em Porto Alegre. Vencedor de cinco prêmios Jabuti, Noll escreveu 18 livros e teve algumas obras adaptadas para o cinema, como “Harmada” e “Hotel Atlântico”. De acordo com análise do escritor Ricardo Lísias, a obra do autor já previa as dificuldades que o Brasil teria para superar a estrutura autoritária da ditadura.

Essa análise social é vista no conto “Alguma coisa urgentemente“, de 1980.  A relação de um adolescente com o pai, preso político, mostra as dificuldades dos filhos de pais que lutaram contra a ditadura e a fragilidade dessas relações num ambiente autoritário.

O conto é um dos mais aclamados do escritor e da literatura brasileira e foi publicado no livro “O cego e a dançarina“, que ganhou o prêmio Jabuti. O filme também foi adaptado para o cinema pelo diretor Murilo Salles com o título “Nunca fomos tão felizes”.

Os primeiros anos de vida suscitaram em mim o gosto da aventura. O meu pai dizia não saber bem o porquê da existência e vivia mudando de trabalho, de mulher e de cidade. A característica mais marcante do meu pai era a sua rotatividade. Dizia-se filósofo sem livros, com uma única fortuna: o pensamento. Eu, no começo, achava meu pai tão-só um homem amargurado por ter sido abandonado por minha mãe quando eu era de colo. Morávamos então no alto da Rua Ramiro Barcelos, em Porto Alegre, meu pai me levava a passear todas manhãs na Praça Júlio de Castilhos e me ensinava os nomes das árvores, eu não gostava de ficar só nos nomes, gostava de saber as características de cada vegetal, a região de origem. Ele me dizia que o mundo não era só aquelas plantas, era também as pessoas que passavam e as que ficavam e que cada um tem o seu drama. Eu lhe pedia colo. Ele me dava e assobiava uma canção medieval que afirmava ser a sua preferida. No colo dele eu balbuciava uns pensamentos perigosos:

— Quando é que você vai morrer?

— Não vou te deixar sozinho, filho!

O resto do conto pode ser lido no site Releituras.

Pena que a obra de João Gilberto Noll é tão pouco conhecida do público e que ele tenha morrido em um período tão conturbado da história do país.