Os livros raros de Sigrid Undset

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As obras da escritora norueguesa Sigrid Undset tratam da emancipação da mulher

Em janeiro, a revista americana Slate indicou a escritora norueguesa Sigrid Undset como a próxima “Elena Ferrante”. Mas enquanto Ferrante é uma escritora contemporânea com milhões de livros vendidos, Sigrid Undset foi a vencedora do Prêmio Nobel de 1928. O que levaria a revista a comparar essas duas escritoras de períodos tão diferentes?

Assim como Ferrante, a escritora norueguesa escreveu uma série de livros com uma personagem feminina principal, Kristin Lavransdatter. A trilogia relata a vida de Kristin do nascimento até a morte durante a Idade Média, reconstituindo a vida deste período e a condição feminina.

O livro é um sucesso até hoje na Noruega, e a casa de Undset transformou-se em um museu. A série também foi adaptada para o cinema em 1995 pela diretora Liv Ullmann  – em português o filme ganhou o título de “Kristin – Amor e Perdição”.

Apesar de ser vencedora do Nobel, a obra de Sigrid Undset não é amplamente divulgada e conhecida pelo público. Quando li a reportagem, fiquei com muita vontade de ler a trilogia, mas é mais fácil achar os livros em inglês. Infelizmente não há traduções recentes da escritora no Brasil, mas é possível encontrar exemplares em bibliotecas públicas e sebos.

Biografia

Sigrid Undset nasceu em 1882, na Dinamarca. Quando tinha dois anos de idade, a família mudou-se para a Noruega. Publicou o primeiro livro, “Fru Marte Oulie”, aos 25 anos. Nesta época, trabalhava durante o dia num escritório e escrevia à noite.

Depois de divorciar-se do marido, com quem teve três filhos, Undset se converteu ao catolicismo. Inclusive, a escritora tem muitos fãs católicos e tem entre suas obras uma biografia de Santa Catarina de Siena.

Mas a obra que lhe garantiu o Prêmio Nobel com apenas 46 anos foi Kristin Lavransdatter. A escritora tinha um grande conhecimento sobre a Idade Média e conseguiu transmitir todos os detalhes da vida nesta época, fato reconhecido pela Academia Sueca. Mas a vida depois do Nobel não foi fácil. Durante a Segunda Guerra Mundial, Sigrid exilou-se nos Estados Unidos e fez parte da resistência contra a ocupação nazista da Noruega. Depois da guerra, mudou-se para a cidade norueguesa de Lillehammer, onde morreu, em 1949.

O poeta dinamarquês

Sigrid Undset foi personagem do curta metragem “O poeta dinamarquês”, lançado em 2006 e que ganhou o Oscar de melhor curta-metragem de animação. O filme é muito bonitinho e tem um ótimo roteiro, vale a pena ver.

Aquarius é indicado ao César, o Oscar francês

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Sônia Braga interpreta a personagem Clara no longa “Aquarius”

 

O filme brasileiro “Aquarius“, que teve grande repercussão no Brasil e na crítica especializada em 2016, foi indicado ao premio César na categoria melhor filme estrangeiro.

O longa, dirigido por Kleber Mendonça Filho, conta a história de Clara (Sônia Braga), a última residente do edifício “Aquarius” que se recusa a sair do prédio na orla do Recife para que seja vendido a uma grande construtora. O filme mostra o poder das grandes empreiteiras no Brasil e as tensas relações de classe no país.

Aquarius” é sustentado pela ótima interpretação de Sônia Braga, que consegue transmitir a força e a personalidade de Clara, que já é uma das grandes personagens do cinema brasileiro.

Polêmicas com o Oscar

Aquarius” não foi selecionado para ser o representante brasileiro na disputa pelo Oscar 2017 de melhor filme estrangeiro. O escolhido foi “O pequeno segredo”, que também ficou fora da disputa pela estatueta.

O filme de Mendonça Filho realmente não teve muita sorte com o Oscar. A empresa distribuidora do filme nos Estados Unidos não inscreveu o filme oficialmente. Muitos queriam votar em Sônia Braga para o Oscar de melhor filme estrangeiro e em “Aquarius”, como informa o blog Baixo Manhattan .

Bom, já que não há “Aquarius” no Oscar 2017, o jeito é curtir a trilha sonora do filme no Spotify, que é mara.

Indicados ao Oscar 2017: A chegada

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Amy Adams interpreta uma linguista que tem como missão entrar em contato com extraterrestres

“La La Land” tem tudo para ser o grande campeão do Oscar 2017, com 14 indicações, alcançando o feito de “Titanic”. Mas outra película que foi indicada para a categoria de “Melhor Filme” e que merece atenção é “A chegada”, um filme que vai ser discutido por muito tempo, graças à complexidade da trama e a quantidade de temas que evoca.

O filme foi baseado no conto “História da sua vida“, do escritor americano Ted Chiang e dirigido pelo diretor Dennis Villeneuve (que já dirigiu os filmes “Sicário” e “Os Suspeitos”.  O livro com o conto de Ted Chiang foi lançado ano passado no Brasil pela editora Intrínseca.

A chegada

“A chegada” é sobre como a linguagem é importante para a construção das relações sociais e para o entendimento entre culturas diferentes. É a linguagem que nos permite comunicar o que sentimos e pensamos, é através dela que materializamos ideias e projetos no mundo real.

É por meio da linguagem também que nos comunicamos com outras sociedades e povos. Na maioria das vezes, essa língua é uma outra, como o inglês ou o francês. E esta comunicação muitas vezes truncada e de difícil tradução pode causar problemas, como conflitos e, nos piores casos, a guerra.

No filme, a Terra recebe a visita de 12 naves alienígenas que se posicionam em pontos estratégicos do planeta (claro, uma delas pousa nos Estados Unidos). Os militares americanos iniciam um processo para entrar em contato com esses alienígenas e descobrir quais são suas intenções.

A linguista Louise Banks (interpretada por Amy Adams) é chamada pelo Exército para estabelecer uma comunicação com esses seres. A nave é aberta por algumas horas durante o dia e, neste período, a equipe liderada pela Dr. Louise Banks e pelo Dr. Iam (Jeremy Renner) entra na nave para tentar descobrir o que esses seres querem na Terra. À medida que os encontros acontecem, a linguista consegue estabelecer parâmetros para traduzir a língua dos heptapodes.

Eles conseguem criar um dicionário para os termos da língua dos heptapodes, mas o grande impasse chega quando finalmente a pergunta fatal é feita: qual o objetivo deles na Terra? Sem entregar os detalhes da trama, a resposta à esta pergunta exige não apenas as habilidades profissionais da Dra. Louise Banks, mas também serenidade dos líderes políticos e a capacidade de agir sem preconceitos.

O filme não tem uma estrutura linear, o que lembra muito o idioma dos heptapodes. O espectador demora um pouco para se situar e acompanhar todos os passos do pensamento da Dra. Louise. A chegada é um filme de ficção científica diferente, sem grandes efeitos especiais, futurismos e batalhas. Mas consegue fazer com que pensemos na nossa condição humana e como nos relacionamos com o outro, com culturas diferentes.

Amy Adams fez uma boa interpretação, com uma boa mistura de racionalidade e emoção. A atriz era uma das grandes apostas dos críticos para o Oscar de melhor atriz, mas infelizmente ficou de fora. O diretor Dennis Villeneuve ficou revoltado com o fato de Amy Adams, que interpreta a protagonista do filme, ter sido esnobada pelo Oscar 2017.

 

Trem noturno para Lisboa, o best-seller filosófico de Pascal Mercier

Sempre levo um livro de bolso para ler durante viagens (nem que sejam 20 minutos de ônibus). Gosto de procurar livros de bolso nas livrarias e bancas de revistas, é quase um vício. Numa dessas procuras, um livro que me chamou a atenção foi Trem noturno para Lisboa (Ed. Record, 462 p.), escrito por Pascal Mercier, pseudônimo do filósofo suíço Peter Bieri. O livro vendeu mais de 2,5 milhões de exemplares no mundo.

A obra começa com um fato que mudaria a pacata vida do professor de línguas antigas Raimund Gregorius, chamado de Mundus pelos alunos. Num dia chuvoso, Gregorius encontra uma mulher misteriosa e triste que tenta se suicidar na ponte que ele atravessa todos os dias para ir à universidade em Berna, na Suíça. Gregorius a salva, e ela o acompanha até a sala de aula, para espanto dos alunos. Depois do breve encontro, tudo o que resta é a memória do português falado pela misteriosa mulher.

O encontro conduz Gregorius até um outro português, o escritor Amadeu de Prado. Ele encontra o livro “Um Ourives das Palavras” num sebo e se encanta com as reflexões de Prado sobre a vida. O professor abandona as aulas na faculdade e embarca para Lisboa com o objetivo de entender as motivações daquele escritor de palavras atormentadas. O antigo Gregorius previsível, antiquado, rígido, é substituído por um homem que se deixa levar pelas emoções.

Em Trem noturno para Lisboa, Pascal Mercier entrelaça a jornada de Gregorius com a atormentada vida de Amadeu Prado, que lutou contra a ditadura de Salazar em Portugal. As reflexões filosóficas de Prado repercutem em Gregorius, que passar a refletir sobre a vida e sobre as escolhas que fazemos. É difícil não começar a questionar a própria vida durante a leitura de Trem noturno para Lisboa.  Como diz Gregorius: “Aqueles, porém, que não atendem com atenção os impulsos da própria alma são necessariamente infelizes.

De mil experiências que fazemos, no máximo conseguimos traduzir uma em palavras, e mesmo assim de forma fortuita e sem o merecido cuidado. Entre todas as experiências mudas, permanecem ocultas aquelas que, imperceptivelmente, dão às nossas vidas a sua forma,  seu colorido e a sua melodia.

Um Ourives das Palavras – Amadeu de Prado

Trem noturno para Lisboa – filme 

O livro foi adaptado para o cinema em 2013, com o ator Jeremy Irons no papel de Raimund Gregorius. Infelizmente, o filme não mostra todas as sutilezas do livro para compreendermos as decisões do personagem. Mesmo assim, vale a pena ver o filme, que tem boas atuações, como Charlote Rampling interpretando a sisuda irmã de Prado, Adriana.

cartaz filme trem noturno para Lisboa

Trem noturno para Lisboa é a adaptação do livro de Pascal Mercier