Filme sobre a escritora e psicanalista Lou Andreas-Salomé estreia no Brasil

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Lou Andreas-Salomé foi uma mulher à frente de seu tempo. Ela nasceu em São Petersburgo, na Rússia, em 1861, e teve papel destacado na psicanálise, ciência em ascensão nos séculos XIX e XX. Foi discípula de Sigmund Freud, o pai da psicanálise, e escreveu inúmeros artigos e livros, pouco divulgados no Brasil.

O filme Loudirigido pela diretora alemã Cordula Kablitz-Post, estreou no Brasil no último dia 11. No filme, Lou Andreas-Salomé está com 72 anos e escrevendo suas memórias com a ajuda do acadêmico Ernst Pfeiffer.

Apesar de sua brilhante trajetória como psicanalista, Lou Andreas-Salomé tornou-se famosa por suas amizades com alguns dos principais intelectuais europeus da época. Aos 20 anos, Lou era uma grande amiga dos filósofos Friedrich Nietzsche e Paul Rée. O três viveram uma amizade bastante próxima, mas que foi desfeita após uma briga entre Lou e Nietzsche.

 

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Lou Andreas-Salomé, Paul Rée e Friedrich Nietzsche

Depois do casamento com o linguista Friedrich C. Andreas, a relação com Paul Rée começou a declinar, mas vieram novos amigos que influenciaram a vida intelectual de Lou. Ela iniciou um intenso caso com o então aspirante a poeta Rainer Maria Rilke, quinze anos mais jovem que a escritora. Outro momento decisivo foi o encontro com Sigmund Freud, que a introduziu à psicanálise. Lou escreveu obras importantes como O Erotismo Seguido de Reflexões Sobre o Problema do Amor.

A obra como escritora e ensaísta foi prolífica. Lou publicou também uma autobiografia e análises sobre a obra de Nietzsche e Rilke. Suas correspondências com Freud e Rilke foram reunidas em livro. Infelizmente, as obras desta autora não estão disponíveis em português. Como sempre, quem quiser ler alguma obra pode procurar edições em inglês ou livros raros em sebos.

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A série “The Hanmaid’s Tale” e o futuro sombrio das mulheres

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Finalmente, depois de todo o bafafá, maratonei a primeira temporada  de “The Handmaid’s Tale” (baseada no livro O conto da Aia da escritora Margaret Atwood).  O romance de Margaret Atwood foi publicado em 1985, mas não poderia ser mais atual, principalmente com o governo Trump nos Estados Unidos e com a ascensão do conservadorismo no mundo.

Em um futuro não muito distante, o governo dos Estados Unidos é derrubado e parte do território se transforma na República de Gilead, um estado cristão fundamentalista. Parte das mulheres e dos homens são inférteis devido aos altos níveis de poluição ambiental. Para contornar esse problema, mulheres férteis são capturadas e transformadas em escravas sexuais, as “aias”.

As aias se vestem de vermelho e são estupradas todos os meses por homens da “classe superior”. A única função dessas mulheres na sociedade é a procriação. Elas não têm empregos, não têm família, não podem ler e nem viajar, são prisioneiras de uma sociedade de castas. Se por acaso engravidarem, o filho é criado pelas esposas dos homens da alta sociedade de Gilead.

Tanto na série como no livro, a história é narrada pela aia Offred (numa tradução livre “do Fred”). Ela não tem direito a usar o nome do passado, e é nomeada de acordo com o homem a quem está ligada no momento. As aias são passadas de família em família, como objetos.

Na série, a narração ganha mais impacto com a atuação da atriz Elisabeth Moss, que consegue interpretar todas as nuances emocionais vividas por Offred.

Na série, os direitos das mulheres são cortados aos poucos: um dia elas não têm mais direito ao trabalho, a ter uma conta no banco, pequenos passos que acabam levando a completa dominação. No Brasil, parece que estamos vivendo um início de um pequeno pesadelo, com a aprovação pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados de uma PEC que inclui a proibição do aborto em casos de estupro.

 

Resenha – “Faça acontecer” – Sheryl Sandberg

Resenha – Faça acontecer Sheryl Sandberg

Sheryl Sandberg escreveu o livro pensando nas mulheres que querem chegar ao topo de suas carreiras

A americana Sheryl Sandberg, de 47 anos, tem uma carreira dos sonhos: é chefe operacional do Facebook, bilionária e também já foi vice-presidente do Google. Sandberg ficou famosa não só por ocupar posições de destaque em empresas de tecnologia, mas também por defender os direitos das mulheres e uma maior participação feminina nas empresas.

Com o objetivo de melhorar a igualdade de gênero no ambiente corporativo, Sandberg escreveu o livro “Faça acontecer – mulheres, trabalho e a vontade de liderar”, publicado em 2013. Além de dar dicas de como as mulheres podem administrar suas carreiras, a autora também fala sobre como os homens podem ter atitudes menos sexistas no trabalho e criar um ambiente mais favorável para lideranças femininas.

Antes de comprar o livro li uma resenha que detonava Sandberg por querer dar conselhos profissionais a mulheres que não eram ricas, não tinha estudado em Harvard, não podiam pagar babás e nem andar em jatinhos privados. (Ela também contava com a ajuda de um marido compreensivo e companheiro – Dave Goldberg, que faleceu em 2015. Sandberg também escreveu um livro sobre a experiência do luto.)

 

“Minha geração lutou muito para dar escolha a todas vocês. Acreditamos em escolhas. Mas escolher sair do mercado de trabalho não era bem a escolha que achávamos que tantas de vocês fariam.”

Judith Rodin – presidente do Instituto Rockfeller.

 

Apesar de uma resistência inicial, me surpreendi muito com o livro e também me reconheci nas várias situações descritas. Muitos mais do que um livro feminista, Sandberg mostra a realidade de como as mulheres são vistas e tratadas no mundo corporativo. Ela aponta soluções práticas e como as mulheres podem contornar o sexismo ainda vigente no século XXI. Baseando-se em pesquisas acadêmicas e na sua própria experiência profissional, Sandberg faz algumas reflexões interessantes:

  • Apesar da revolução feminina, muitas mulheres ainda não conseguem conciliar a carreira profissional com a vida pessoal. As mulheres são menos estimuladas a continuarem no mercado de trabalho e a desenvolverem suas carreiras. Esse desestímulo vem da própria família, da falta de flexibilidade no trabalho e de companheiros que não dividem as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos.
  • A pior decisão que uma mulher pode tomar é basear suas escolhas levando em conta filhos e parceiros que ainda não existem, como mulheres que recusam uma promoção ou posição de liderança por que “podem engravidar”. O erro delas é acreditar que não conseguirão conciliar vida pessoal com a profissional.
  • As mulheres também são vistas com um olhar mais crítico no ambiente de trabalho – tanto por homens como por outras mulheres. Sandberg cita uma pesquisa realizada em 2003 para ilustrar seu ponto. Os pesquisadores escolheram o currículo de uma empresária bem-sucedida, Heidi, e mostraram-no para um grupo de estudantes, mas com o nome de um homem, Howard.Quando os estudantes viam o currículo de Howard, o consideravam um “cara simpático”. Quando o currículo estava no nome de Heidi, a profissional era vista como “egoísta” e alguém que não era tão legal como colega de trabalho.  Uma mulher bem-sucedida não é bem vista tanto por homens como por mulheres, um claro exemplo de como a nossa sociedade ainda discrimina mulheres que se destacam.

 

“Faça acontecer” é uma leitura rápida e agradável que traz muitos insights e questionamentos sobre como gerimos nossas carreiras e nos comportamos no ambiente de trabalho.

O feminismo irônico de Marjane Satrapi em “Bordados”

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A escritora Marjane Satrapi usou suas memórias de infância para escrever “Bordados”

Marjane Satrapi, 47 anos, é uma ilustradora, escritora e cineasta de origem iraniana, que mora hoje na França. Bisneta do imperador Nasser al-Din Shah (que teve cem mulheres) e filha de pais marxistas, Satrapi teve uma infância cheia de experiências ricas que depois serviram de inspiração para seus livros.

Uma dessas experiências foi a presença marcante de sua trisavó, obrigada a casar com um general do exército 50 anos mais velho quando tinha treze anos. Na noite de núpcias, para fugir do marido, fingiu estar com vontade de ir ao banheiro e foi para a casa de uma tia. Nunca mais voltou, estudou artes na Suíça e dizia que era melhor ser amante de um homem casado do que engomar camisas de marido.

A história de sua trisavó e de outras mulheres a levaram a escrever “Bordados”, um relato da vida feminina no Irã. Sob o formato de história em quadrinhos – ou graphic novel – descobrimos a dura condição de vida das mulheres iranianas. Uma sociedade onde a virgindade de uma mulher é o seu bem mais precioso, em que muitas mulheres são tratadas como objeto pelos maridos.“Bordados” é como as mulheres iranianas chamam o nosso “tricô”, jogar conversa fora, mas também é um termo para a cirurgia de reconstituição do hímen.

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Marjane Satrapi escreve sobre a situação das mulheres no Irã com humor e ironia

Todas as tardes, as mulheres da família se reúnem para beber o samovar, o chá típico iraniano, e para “ventilar o coração”: falar dos outros pelas costas. Mas também para contarem sem medo suas experiências amorosas e sexuais, sem julgamentos.

Apesar de escrever histórias sobre desilusões amorosas e abuso contra mulheres, Satrapi escreve com um humor irônico e sutil. A leitura é rápida e prazerosa, como as revistas de quadrinhos são.