“Manual da faxineira”, da escritora Lucia Berlin, é publicado no Brasil

 

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Conheci a escritora americana Lucia Berlin (1936-2004) lendo um artigo da revista literária The Paris Review  e me apaixonei pela escrita irônica, o modo de contar uma história sem frescuras e indo direto ao ponto. O conto “B.F. and Me” é delicioso; Berlin disserta sobre a profissão de telefonista e sobre as vozes humanas e suas personalidades. Fiquei louca para ler um livro dela, mas não havia nenhum traduzido para o português. Até agora. A Companhia das Letras irá lançar no próximo dia 13 o livro “Manual da Faxineira”, que reúne contos da escritora.

Lucia Berlin teve uma vida tumultuada e cheia de experiências que serviram de inspiração para sua obra. Aos 32 anos, já havia casado três vezes e vivido em vários lugares do mundo. Durante a infância e a adolescência, viveu no Chile e no México, onde casou e frequentou a universidade. Depois de ser abandonada pelo marido, casou novamente e mudou-se para Nova York. O último casamento foi com Buddy Berlin.  Exerceu várias profissões para sustentar os quatros filhos: professora, telefonista, faxineira e enfermeira. Nos últimos anos de vida, foi professora de escrita criativa na Universidade do Colorado.

“Manual da Faxineira” na lista dos melhores livros do New York Times

Suas experiências profissionais e os problemas com drogas e álcool foram a base de diversos contos. Ela começou a publicar textos esporádicos em algumas revistas literárias na década de 60, mas apenas nos anos 70 publicou um livro. Chamou a atenção de escritores como Lydia Davis e Saul Bellow, mas foi pouco reconhecida em vida, tanto pelo público como pela crítica.

A grande virada, infelizmente, veio depois da sua morte. Em 2015, os contos de Berlin foram reunidos no livro Manual da Faxineira, que foi indicado pelo The New York Times como um dos “10 melhores livro do ano”.

 

Vida da poetisa Juana Inés é inspiração para série da Netflix

Desde janeiro está disponível na Netflix a série “Juana Inés” sobre a poetisa, escritora, dramaturga e religiosa Irmã Juana Inés de la Cruz (1651-1695). Ela foi uma das grandes poetisas do período barroco espanhol e era conhecida pela grande inteligência e virtuosismo com as palavras. A série mostra a dificuldade das mulheres de terem acesso ao mundo cultural e intelectual da época, e as poucas oportunidades que tinham fora do casamento, principalmente quando eram filhas bastardas.

Juana Inés nasceu Juana Ramírez de Asbaje em San Miguel de Nepantha, no México. De acordo com a série, era filha bastarda de Pedro Manuel de Asbaje y Vargas Machuca com a criolla Isabel Ramírez de Santillana. Seu pai abandonou a família e a mãe se casou novamente.

Precoce e com grande curiosidade intelectual, educou-se na biblioteca do avô. Leu os clássicos gregos e romanos, filosofia e teologia. Também estudou astrologia e matemática. Infelizmente, na época em que Juana Inés viveu, as mulheres não tinham acesso aos estudos formais. Ela chegou a considerar se vestir de homem para entrar na universidade. Teve aulas de latim e também aprendeu a falar o idioma indígena nahuatl, o que era causa de grande escândalo.

 

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Juana Inés aos quinze anos de idade

Com 14 anos, ingressou na Corte Virreinal do México e logo caiu nas graças da realeza pela sua erudição, mas principalmente por causa de seus versos. Foi dama de companhia da Marquesa de Mancera, Leonor Carreto, para quem escreveu versos. A “Fênix da América” escreveu poemas sagrados e profanos. Alguns deles podem ser lidos aqui.

 

DOCE TORMENTO

 O mal que venho sofrendo
E que em meu peito se lê,
Sei que o sinto, mas porque
O sinto é que não entendo.

Sinto uma grave agonia
No sonhar em que me vejo:
Sonho que nasce em desejo
E acaba em melancolia.

Quando com maior fraqueza
O meu estado deploro,
Sei que estou bem triste, e ignoro
A causa de tal tristeza.

Sinto um desejo nefasto
Pelo objeto ao qual aspiro;
Mas quando de perto o miro,
Eu mesma é que a mão afasto.

Penso mal do mesmo bem
Com receoso temor
E às vezes o mesmo amor
Me obriga a mostrar desdém.

Com pouca causa ofendida,
Costumo, com meio amor,
Negar um leve favor
A quem eu daria a vida.

Já paciente, já irritada,
Vacilo em penar agudo:
Por ele sofrerei tudo,
Tudo; mas com ele, nada.

Ao que pelo objeto amado
Meu coração não se atreve?
Por ele, o pesado é leve;
Sem ele, o leve é pesado.

Quando o desengano toco,
Luto com o mesmo quebranto
De ver que padeço tanto,
Padecendo por tão pouco.

No tormento em que me vejo,
Levada de meu engano,
Busco sempre o desengano,
E não acha-lo desejo.

Se a alguém meu queixume exalo,
Mais a dizê-lo me obriga
Para que mo contradiga
Do que para reforçá-lo.

Pois e, com minha paixão,
Daquele que amo maldigo,
É meu maior inimigo
Quem nisso me dá razão.

Se acaso me contradigo
Neste meu arrazoado,
Vós que tiverdes amado
Entendereis o que digo.

Sucesso literário e conflitos com a Igreja

Como filha bastardada, sem dote, a única opção que restava era ser dama de companhia na corte ou freira. Aos 16 anos entrou para a Ordem das Carmelitas Descalças, mas não se adaptou à rigidez do convento. Em 1668, ingressa na Ordem das Jerônimas, onde permanecerá por toda a vida.

A sugestão para entrar no convento veio do padre Núñez de Miranda, confessor dos vice-reis. Na série da Netflix, ele é um vilão que atormenta Juana Inés – ele foi confessor da poetisa na ficção e na vida real, além de ser membro do Tribunal do Santo Ofício. O padre Núñez de Miranda ficcional é cheio de inveja e admiração pelo talento de Juana Inés. Na vida real, o comportamento da escritora era reprovado por seu confessor. Com a ajuda de María Luisa Gonzaga Manrique de Lara, a condessa de Paredes, Juana Inés consegue se afastar da esfera de influência de Miranda.

 

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Retrato de Juana Inés por Miguel Cabrera

Muitos estudiosos especularam sobre a relação de Juana Inés com a condessa. Maria Luísa incentivava a carreira da monja e ambas eram muito próximas. A escritora escreveu inúmeros poemas para a condessa, quase 50, que foram compilados recentemente na coletânea “Un amar ardiente”.

Juana Inés não escreveu apenas poemas sobre o amor e Deus, mas também aproveitou sua pluma para criticar os homens e o machismo da sociedade, como no poema “Homens néscios que acusais”:

 

HOMENS NÉSCIOS QUE ACUSAIS

Homens néscios que acusais
a mulher sem razão,
sem ver que sois a causa
do mesmo que culpais:

se com ânsia sem igual
solicitais seu desdém,
por que quereis que procedam bem
se as incitais ao mal?

Combateis sua resistência
e logo, com gravidade,
dizeis que é leviandade
o que fez a diligência.

Assemelhar-se quer a ousadia
de vosso parecer louco,
ao menino que faz uma mostro
e logo lhe tem medo.

Quereis, com presunção néscia,
encontrar à que procurais,
para prometida, Thais,
e para possuir, Lucrecia.

Que humor pode ser mais estranho
que aquele que, sem conselho,
ele próprio embaça o espelho,
e reclama que não está claro?

Com o favor e o desdém,
estás em igual condição,
queixando-se, se lhes tratam mal,
zombando, se lhes querem bem.

Opinião, nenhuma ganha,
pois a que mais se recata,
se não vos admite, é ingrata,
e se vos admite, é leviana.

Sempre tão néscios andais
que, com desigual cota,
a uma culpais por cruel
e a outra por fácil culpais.

Pois como há de ser moderada
a que vosso amor pretende,
se a que é ingrata, ofende,
e a que é fácil, entedia?

Mas, entre o tédio e a aflição
que vosso gosto insinua,
bem haja a que não vos queira
e lamentai vos em hora idônea.

Dão vossas queridas tristezas,
a suas liberdades asas,
e depois de torná-las más
quereis achá-las virtuosas.

Qual maior culpa tem tido
em uma paixão errada:
a que cai pelos rogos
ou quem roga por caído?

Ou quem tem maior culpa,
independente do mal que faça:
a que peca por salário,
ou quem para pecar paga?

Pois, para que vos espantais
da culpa que tens?
quereis elas como as fazeis
ou fazei elas como as procurais.

Deixe de solicitar,
e depois, com mais razão,
acusareis a afeição
da que vos for a suplicar.

Bem com muitas armas fundo
que luta vossa arrogância,
pois em promessa e instancia
juntais diabo, carne e mundo.

 

A Igreja Católica não via com bons olhos a independência e o talento da monja, que parecia não se importar com as consequências dos seus escritos. Os conflitos se tornaram mais agudos à medida que Juana Inés ganhava fama literária. O estopim foram os comentários críticos ao “Sermão do Mandato”, do padre Antonio Vieira, que Juana Inés fez em carta privada ao bispo Don Manuel Fernandes.  O religioso publicou o manuscrito sem a autorização da autora, com o nome de “Carta Atenagórica”, e assinou o prefácio sob o pseudônimo Sóror Filotea de la Cruz.

Em resposta, Juana Inés publicou “Respuesta a Sóror Filotea de la Cruz“, carta na qual defende a liberdade intelectual da mulher. Após a publicação da carta, aumenta a pressão do clero sobre Juana Inés. Ela se reaproxima do padre Núñez de Miranda, que a aconselha a abandonar os estudos para fugir da tirania da Inquisição. Assim, ela renunciou aos seus bens, doando livros e instrumentos musicais. Escreve com o próprio sangue um auto de fé, em que se arrepende de ter escrito obras profanas. Em 1695, pouco anos depois de ter abandonado sua carreira como escritora, morre aos 43 anos durante uma epidemia de peste.

Para saber mais: 

El amor sin tabúes entre sor Juana Inés de la Cruz y la virreina de México

Obras de Juana Inés – Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes

Resenha: “Dicionário de nomes próprios” – Amélie Nothomb

“Para um escritor, não há maior tentação que a de escrever a biografia de seu assassino.”

O recado de Amélie Nothomb na contracapa do livro “Dicionário de nomes próprios” é quase um spoiler para o leitor. Porém, ter algumas informações em mãos ajudam a entender um pouco das nuances do livro e as escolhas da autora. Amélie escreveu o livro inspirada na cantora francesa Robert, de carne e osso e amiga da escritora. Robert canta a música Ange et démon, que foi usada em um famoso comercial de perfume.

“Dicionário de nomes próprios” inicia com a adolescente Lucette, de 19 anos, que está na “oitava hora de insônia” por causa dos soluços do bebê em seu útero. Ela sente uma paixão instantânea por Fabien, e logo casa com o jovem, apesar da pouca idade. Lucette é intensa e quer ter uma vida fora do comum, original. Procurava nomes para o bebê em enciclopédias antigas e anotava nomes exóticos, como “Eleutério”.

Durante a gestação, Lucette percebe que Fabien não é a pessoa excitante que ela havia imaginado, era apenas um homem comum. Com medo que o futuro filho (ou filha) tenha um destino medícore, Lucette toma uma decisão que irá moldar o futuro da filha Plectrude.

Amélie vai tecendo a história de Plectrude com elegância e erudição. A sua escrita é concisa e cheia de comentários irônicos. Porém, ao lermos a história, fica a impressão de uma certa ingenuidade, um enredo quase adolescente.

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Amélie Nothomb escreveu uma “biografia” de sua amiga e cantora Robert

O problema principal do livro é o final. Fica claro que ela não conseguiu desenvolver a história e terminar o livro de maneira satisfatória. A personagem dentro de Amélie a deixou sem reação, sem saber o que fazer. Ela trouxe o leitor para o dilema do escritor, quando a história chega a uma bifurcação, onde tudo pode se perder. Era para ser uma história boba de adolescentes, mas se transformou numa metáfora do processo literário.

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Amélie Nothomb publicou o primeiro livro “Higiene do assassino” aos 25 anos

A belga Amélie Nothomb é uma escritora pouca conhecida no Brasil. Talvez seja por que suas obras não tenham repercutido entre a crítica, ou não tenha sido devidamente divulgada. Ela é muito popular na Europa, onde vende muitos livros e tem fãs ávidos.

Filha de um diplomata belga, Amélie Nothomb nasceu em Kobe, no Japão, onde seu pai estava de serviço em 1967. Passou a infância vivendo entre países da Ásia e da América. Mesmo retornando à Bélgica, Amélie continuou ligada emocionalmente ao Japão (a escritora fala japonês fluentemente). Aos 21 anos, ela retornou ao país de nascimento para trabalhar numa grande empresa. A experiência foi desastrosa. A futura escritora não conseguiu se adaptar à rigidez da hierarquia no local do trabalho e voltou à França, onde publicou seu primeiro livro, “Higiene do assassino”, em 1992.

Em seu livro de estreia, com apenas 25 anos, Amélie conseguiu sucesso de público e crítica. Li  “Higiene do assassino”, durante a faculdade e me impressionei com a criatividade da trama e o estilo ácido da escritora. No livro, Prétextat Tach, escritor fictício vencedor do prêmio Nobel, tem apenas dois meses de vida. Jornalistas do mundo inteiro tentam entrevistá-lo, mas apenas uma repórter consegue. Amélie também escreveu um livro sobre sua experiência no Japão, “Medo e submissão”.

 

 

Biografia de Clarice Lispector ganha nova edição

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Em 2009, a  editora Cosac Naify lançou uma badalada biografia da escritora Clarice Lispector, feita pelo americano Benjamin Moser. O livro foi sucesso de vendas e ajudou a divulgar a escritora no exterior. Com o fim da Cosac Naify, o livro ficou um tempo esgotado mas já pode ser encontrado nas livrarias em uma reedição pela Companhia das Letras.

Moser fez uma ampla pesquisa sobre a vida de Clarice, viajando até a Ucrânia para conhecer a cidade de Tchechelnick, onde a escritora nasceu em 10 de dezembro de 1920. Os pais de Clarice, Mania e Pinkhas, e as duas irmãs mais velhas, Elisa e Tania, imigraram para o Brasil em 1922, fugindo da guerra civil na Ucrânia e da perseguição aos judeus. Durante a guerra, a família teve que se deslocar por várias cidades do interior para fugir dos pogroms, ataques de extrema violência contra os judeus de uma comunidade, com o estupro de mulheres, assassinatos de crianças e de adultos e saques.

Num desses deslocamentos, a família Lispector se instalou na cidade de Haysyn, que também foi atacada. A mãe de Clarice, Mania Lispector, foi atacada em um pogrom e sofreu consequências que causaram sua morte prematura aos 42 anos. De acordo com Benjamin Moser, Elisa Lispector escreveu em suas memórias não publicadas: “Foi o trauma decorrente de um daqueles fatídicos pogroms que invalidou minha mãe”.

Na biografia de Moser, é abordada pela primeira vez o que teria causado a doença que causou tanto sofrimento a Mania. Para o autor, Mania foi estuprada por soldados soviéticos e contraiu sífilis, e não teve o tratamento adequado. A própria Clarice teria confidenciado a uma amiga íntima os horrores que a mãe teria passado durante o pogrom. Não há nenhum registro das três irmãs falando sobre o incidente, porém a família da escritora nunca contestou as informações da biografia.

Outra teoria que Moser lança é a de que Clarice foi concebida para “curar a mãe”. No interior da Ucrânia, a população acreditava que forças sobrenaturais eram causadoras de doenças, além da crença que uma gravidez pode curar um enfermidade. Clarice escreveu sobre isso:

“Fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. [..] Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe”.

Benjamin Moser fez uma restituição cuidadosa das agruras da família Lispector até chegar ao Brasil. Sabemos que após o nascimento de Clarice a doença de Mania começou a se agravar, e Pinkhas ficou acamado com febre tifoide. Assim que o pai ficou curado, a família fugiu para a Romênia, com Pinkhas “carregando a bagagem da família e a pequena Clarice amarrada a seu peito”. Elisa não tinha sapatos, e improvisava com caçarolas. A família conseguiu chegar em segurança ao Brasil em 1922.

Os Lispector se instalaram primeiro em Maceió, mas depois de três anos migraram para Recife. O pai trabalhava como mascate e a saúde de Mania só piorava. Clarice inventava histórias para entreter a mãe, que sempre tinham um final mágico que a curavam. A última mudança foi para o Rio de Janeiro, quando Clarice tinha 15 anos. Pinkhas, que adotou no Brasil o nome de Pedro, morreu aos 55 anos, após complicações de uma cirurgia de vesícula. Os pais de Clarice não viveram o suficiente para ver a consagração da filha como escritora.

Clarice e a literatura

O interesse por literatura começou cedo na vida da escritora, que escreveu um conto que não conseguiu terminar aos 13 anos. Já inventava histórias desde criança, e as leituras na adolescência a influenciaram, como “O lobo da estepe”, de Herman Hesse, e “Crime e Castigo” de Dostoievski. O primeiro conto publicado foi em 25 de maio de 1940, “Triunfo”, na Revista Pan, com apenas 19 anos.

Na biografia, Benjamin Moser aborda as influências de Clarice na hora de escrever.O tema do exílio, de se sentir estrangeiro e estranho, além dos danos psicológicos causados pelo pogrom, que resultaram numa depressão e dificuldade de se relacionar com outras pessoas, mesmo que Clarice não tenha presenciado um.

Como pode ser visto em muitas protagonistas dos livros de Clarice, há uma busca pela liberdade, uma inadequação, principalmente à vida de dona de casa (e no caso de Clarice, à vida de mulher de diplomata).

O judaísmo e uma busca por Deus, ou o sentido da vida, também são presentes na obra de Clarice. Em “A hora da estrela”, a personagem Macabéa tem seu nome inspirado nos macabeus, cuja história bíblica é celebrada no Chanucá.  “A hora da estrela” foi o último livro publicado pela escritora, em outubro de 1977. Alguns dias depois, foi internada com câncer no ovário. Morreu no dia 9 de dezembro daquele mesmo ano.

A obra de Clarice Lispector, muitas vezes tida como “hermética”, foi se popularizando ao longo dos anos. É um dos escritores brasileiros mais traduzidos no exterior. O que não fez com que o mistério Clarice fosse resolvido ao longo dos anos. Seu jeito reservado e tímido, os muitos anos morando no exterior com o marido e a relutância em falar sobre sua origem russa fizeram com que muitos mitos fosse criados em torno da escritora. Ela sempre reiterou sua brasilidade, apesar de muitos insistirem que era estrangeira, por causa de seu estranho sotaque (nordestino com um leve problema de dicção) e de suas roupas.

Nos últimos anos, temos visto um crescente número de obras sobre Clarice, coletâneas de cartas que ela trocava com amigos e irmãos, crônicas de jornal e artigos para o público feminino sob o pseudônimo de Helen Palmer. Mesmo com a publicação de inúmeras biografias, como a de Benjamin Moser, a sensação que temos ao ler essa minuciosa biografia é de que a alma atormentada de Clarice Lispector nunca poderá ser desnudada por completo.

Outras biografias sobre Clarice Lispector

A obra de Benjamin Moser não é a única biografia sobre a escritora. Há o livro da amiga íntima dos últimos anos, Olga Borelli (Esboço para um possível retrato – Clarice Lispector, Ed. Nova Fronteira, 1981). Há também a obra de Nádia Gotlib,  “Clarice: uma vida que se conta” (Edusp, 2009), e a tese de doutorado da canadense Claire Varin, “Línguas de fogo” (Ed. Limiar, 2002). “Eu sou uma pergunta. Uma biografia de Clarice Lispector” (Rocco, 1999), foi escrita por Teresa Montero.

Para conhecer mais sobre a escritora, também há a única entrevista que Clarice gravou para a televisão, em 1977.

Henry & June: o diário de um amor livre

“Um rosto surpreendentemente branco, olhos ardentes. June Mansfield, a esposa de Henry. Quando ela veio em minha direção da escuridão do meu jardim até a luz da entrada, vi pela primeira vez a mulher mais linda da Terra.

Anos atrás, quando tentei imaginar uma verdadeira beleza, criara uma imagem em minha mente exatamente de tal mulher. Até imaginara que ela seria judia. Já conhecia há muito tempo a cor de sua pele, seu perfil, seus dentes.

A beleza dela sobrepujou-me. Quando me sentei à sua frente, senti que faria qualquer loucura por ela, qualquer coisa que ela me pedisse. Henry esvaneceu-se. Ela era cor, brilho, estranheza.”

Henry & June: diários não expurgados de Anaïs Nin. Anaïs Nin. Porto Alegre, RS: Ed.L&PM, 2014.

Essa foi a primeira impressão que a escritora Anaïs Nin teve de June, esposa do escritor americano Henry Miller, quando a conheceu em dezembro de 1931. Naquele mesmo ano, Anaïs Nin e Miller iniciaram um relacionamento amoroso nada convencional.

Anaïs Nin nasceu em 21 de fevereiro de 1903, na França. Seu pai era cubano e a mãe dinamarquesa. Viveu durante a infância na Europa e depois nos Estados Unidos. Em 1923, Nin se casou com o banqueiro Hugh Guiler e voltou a Paris. Ela e Hugh viviam um casamento aberto numa época em que isso era considerado tabu.

No período em que conheceu Miller, Anaïs Nin estava começando sua carreira como escritora de ficção. A atração entre ambos foi intensa e logo começaram um romance. O encontro com Henry Miller influenciou a escrita e a vida de Nin, como ela mesma afirma: “Erotismo e sensualidade agora tinham um grande significado para mim”. O encontro também foi significativo para Miller, que escreveu o clássico “Trópico de câncer” durante o seu período em Paris.

Tudo ia bem entre os dois até a chegada de June. Anaïs Nin sentiu uma atração imediata e desenvolveu uma obsessão por June. Apesar do ambiente liberal, Henry sentia ciúmes da intimidade entre as duas mulheres, e Nin, do amor de Miller por June.

“Mas que jogo soberbo nós três estamos jogando. Quem é o demônio? Quem é o mentiroso? Quem é o ser humano? Quem é o mais inteligente? Quem é o mais forte? Quem ama mais? Somos três egos imensos lutando por dominação ou por amor, ou estas coisas estão misturadas?”

Henry & June: diários não expurgados de Anaïs Nin. Anaïs Nin. Porto Alegre, RS: Ed.L&PM, 2014.

“Henry & June” e os diários de Anaïs Nin

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O livro foi adaptado para o cinema em 1990 pelo diretor Philip Kaufman

O relacionamento com Henry e June foi contado em detalhes nos diários de Anaïs Nin. Porém, a autora excluiu esse período quando os diários começaram a ser publicados, a partir de 1969, para preservar o marido. “Henry & June” foi publicado na década de 1980, após a morte de Nin. Os eventos narrados no livro vão de outubro de 1931 a outubro de 1932. Além do triângulo amoroso, Nin escreve sobre suas experiências com a psicanálise, ainda incipiente, e as crises no casamento com Hugh.

Apesar de ter se aventurado na ficção, com obras eróticas como “Uma espiã na casa do amor”, a maior obra de Anaïs Nin foram os diários. Neles, a autora relata sem pudores suas descobertas sexuais e os altos e baixos do casamento com o banqueiro Hugh Guiler. Nin reflete sobre a condição da mulher, o amor e o desejo sexual, aprofundados pela psicanálise (Nin inclusive tornou-se psicanalista). A escritora falou sobre os diários nesta entrevista.

O livro Henry & June  é um extrato dos diários editados para contar o caso com os Miller. Como os demais diários da autora, entramos no mundo íntimo desses “personagens”, nos dilemas  de Nin à medida que se entrega a Henry. Vemos o processo de criação dos dois escritores, as trocas intelectuais. E o efeito desagregador que June provoca nos dois.

A escrita de Anaïs Nin é concisa, sem sentimentalismos. Os diários tem um ritmo de ficção, o leitor se envolve com as descobertas da escritora e a honestidade em analisar os próprios sentimentos. As descrições da vida em Paris na década de 30 também são interessantes.

O livro de Anaïs Nin foi adaptado para o cinema em 1990 pelo diretor Philip Kaufman. No filme, a atriz Uma Thurman interpreta June, e a atriz portuguesa Maria de Medeiros, Anaïs Nin.

Os livros raros de Sigrid Undset

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As obras da escritora norueguesa Sigrid Undset tratam da emancipação da mulher

Em janeiro, a revista americana Slate indicou a escritora norueguesa Sigrid Undset como a próxima “Elena Ferrante”. Mas enquanto Ferrante é uma escritora contemporânea com milhões de livros vendidos, Sigrid Undset foi a vencedora do Prêmio Nobel de 1928. O que levaria a revista a comparar essas duas escritoras de períodos tão diferentes?

Assim como Ferrante, a escritora norueguesa escreveu uma série de livros com uma personagem feminina principal, Kristin Lavransdatter. A trilogia relata a vida de Kristin do nascimento até a morte durante a Idade Média, reconstituindo a vida deste período e a condição feminina.

O livro é um sucesso até hoje na Noruega, e a casa de Undset transformou-se em um museu. A série também foi adaptada para o cinema em 1995 pela diretora Liv Ullmann  – em português o filme ganhou o título de “Kristin – Amor e Perdição”.

Apesar de ser vencedora do Nobel, a obra de Sigrid Undset não é amplamente divulgada e conhecida pelo público. Quando li a reportagem, fiquei com muita vontade de ler a trilogia, mas é mais fácil achar os livros em inglês. Infelizmente não há traduções recentes da escritora no Brasil, mas é possível encontrar exemplares em bibliotecas públicas e sebos.

Biografia

Sigrid Undset nasceu em 1882, na Dinamarca. Quando tinha dois anos de idade, a família mudou-se para a Noruega. Publicou o primeiro livro, “Fru Marte Oulie”, aos 25 anos. Nesta época, trabalhava durante o dia num escritório e escrevia à noite.

Depois de divorciar-se do marido, com quem teve três filhos, Undset se converteu ao catolicismo. Inclusive, a escritora tem muitos fãs católicos e tem entre suas obras uma biografia de Santa Catarina de Siena.

Mas a obra que lhe garantiu o Prêmio Nobel com apenas 46 anos foi Kristin Lavransdatter. A escritora tinha um grande conhecimento sobre a Idade Média e conseguiu transmitir todos os detalhes da vida nesta época, fato reconhecido pela Academia Sueca. Mas a vida depois do Nobel não foi fácil. Durante a Segunda Guerra Mundial, Sigrid exilou-se nos Estados Unidos e fez parte da resistência contra a ocupação nazista da Noruega. Depois da guerra, mudou-se para a cidade norueguesa de Lillehammer, onde morreu, em 1949.

O poeta dinamarquês

Sigrid Undset foi personagem do curta metragem “O poeta dinamarquês”, lançado em 2006 e que ganhou o Oscar de melhor curta-metragem de animação. O filme é muito bonitinho e tem um ótimo roteiro, vale a pena ver.

O feminismo irônico de Marjane Satrapi em “Bordados”

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A escritora Marjane Satrapi usou suas memórias de infância para escrever “Bordados”

Marjane Satrapi, 47 anos, é uma ilustradora, escritora e cineasta de origem iraniana, que mora hoje na França. Bisneta do imperador Nasser al-Din Shah (que teve cem mulheres) e filha de pais marxistas, Satrapi teve uma infância cheia de experiências ricas que depois serviram de inspiração para seus livros.

Uma dessas experiências foi a presença marcante de sua trisavó, obrigada a casar com um general do exército 50 anos mais velho quando tinha treze anos. Na noite de núpcias, para fugir do marido, fingiu estar com vontade de ir ao banheiro e foi para a casa de uma tia. Nunca mais voltou, estudou artes na Suíça e dizia que era melhor ser amante de um homem casado do que engomar camisas de marido.

A história de sua trisavó e de outras mulheres a levaram a escrever “Bordados”, um relato da vida feminina no Irã. Sob o formato de história em quadrinhos – ou graphic novel – descobrimos a dura condição de vida das mulheres iranianas. Uma sociedade onde a virgindade de uma mulher é o seu bem mais precioso, em que muitas mulheres são tratadas como objeto pelos maridos.“Bordados” é como as mulheres iranianas chamam o nosso “tricô”, jogar conversa fora, mas também é um termo para a cirurgia de reconstituição do hímen.

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Marjane Satrapi escreve sobre a situação das mulheres no Irã com humor e ironia

Todas as tardes, as mulheres da família se reúnem para beber o samovar, o chá típico iraniano, e para “ventilar o coração”: falar dos outros pelas costas. Mas também para contarem sem medo suas experiências amorosas e sexuais, sem julgamentos.

Apesar de escrever histórias sobre desilusões amorosas e abuso contra mulheres, Satrapi escreve com um humor irônico e sutil. A leitura é rápida e prazerosa, como as revistas de quadrinhos são.