A imaginária – Adalgisa Nery

a-imaginária-adalgisa-nery

Escritora, jornalista, deputada estadual no Rio de Janeiro, Adalgisa Nery (1905 – 1980) foi uma intelectual de destaque no Brasil. Seu livro A imaginária foi publicado pela primeira vez em 1959 e foi sucesso de público e crítica, com cinco edições publicadas na época. Apesar do grande sucesso literário, A imaginária só ganhou uma nova edição em 2015.

Escrito em primeira pessoa, o livro é um monólogo interior da personagem Berenice, que repassa em uma noite solitária os principais acontecimentos da sua vida. Mas também é uma autobiografia, uma forma que Adalgisa encontrou para escrever sobre o tumultuado casamento com o pintor Ismael Nery (1900-1934).

Assim como a personagem principal, Adalgisa perdeu a mãe muito jovem, aos oito anos de idade. A solidão marca a vida da personagem Berenice desde a infância. A garota já demonstrava uma grande sensibilidade e uma personalidade forte. Com o novo casamento do pai, entra em conflito com a madrasta, e é mandada para colégios internos. Mas o grande rompimento com a família acontece quando Berenice se apaixona pelo vizinho e casa ainda adolescente.

Adalgisa e Ismael Nery

Adalgisa casou com Ismael Nery em 1922, quando tinha apenas 17 anos. Ismael era um grande nome nos meios intelectuais e artísticos do Rio de Janeiro; e Adalgisa fez amizades e conheceu nomes como Manuel Bandeira e Murilo Mendes. Mas o casamento também foi extremamente opressor para a escritora, e o lado sombrio do casamento foi retratado em A imaginária.

O marido da personagem Berenice tem um comportamento condescendente: a considera muito jovem, sem criatividade e brilhantismo. Ele adoece e a maior preocupação é com a vida afetiva e sexual da mulher depois que morrer.  Todos os acontecimentos de sua vida a tornam uma mulher ansiosa pelo futuro, mas consciente que, por sua condição feminina, muitos outros acontecimentos ruins estão a sua espera.

“Há dias, começo a pressentir que novas camadas de acontecimentos imprevistos e cruéis serão colocados a minha alma. E já me falta o ar!”

 

a imaginária adalgisa nery

Adalgisa Nery, pintura de Ismael Nery

 

Adalgisa escreve de forma poética os sentimentos e angústias que passou durante o casamento, abordando como as estruturas da sociedade afetam a saúde mental da mulher. Não podemos esquecer que a época em que viveu Adalgisa ainda era de grandes restrições para as mulheres. Ela mesma não escreveu nada durante o casamento, reprimindo sua veia poética – seu primeiro livro de poemas foi publicado em 1937.

Após a morte de Ismael Nery, Adalgisa casou em 1940 com Lourival Fontes, chefe do Departamento de Imprensa e Propaganda no governo Getúlio Vargas. Adalgisa acompanhou Fontes em missões diplomáticas nos Estados Unidos e no Canadá enquanto continuava a escrever e publicar livros de poemas e ficção.

Em 1945, Fontes foi nomeado embaixador no México. Neste período, Adalgisa estabeleceu laços de amizade com os principais artistas mexicanos, como Frida Kahlo e Diego Rivera. Também foi homenageada pelo governo mexicano por suas conferências sobre artistas como a poetisa Juana Inés.

Além da carreira como escritora e jornalista, Adalgisa se aventurou na política. Foi eleita deputada estadual no Rio de Janeiro em 1960 pelo Partido Socialista Brasileiro. As colunas diárias que Adalgisa escrevia para o jornal Última Hora, a ajudaram a se eleger. Mesmo com o golpe de 1964, Adalgisa continuou os seus trabalhos como deputada. Porém, teve seus direitos políticos cassados em 1969.

Após a cassação do mandato, Adalgisa tornou-se reclusa e solitária. Internou-se em uma casa de repouso em 1976 e faleceu em 1980.

Título: A imaginária
Autora: Adalgisa Nery
Editora: José Olympio

Biografia: Jane Austen – uma vida revelada

As obras de Jane Austen são lidas por milhões de pessoas em todo o mundo. Ela foi uma das escritoras que melhor retratou os costumes da aristocracia inglesa do século 19.

O mundo em que a escritora viveu na infância e na vida adulta foi a inspiração para clássicos como Razão e sensibilidade e Orgulho e preconceito. Este mundo era uma Inglaterra conservadora, onde o valor social das mulheres era regido pelo casamento e o dote. Mesmo com a evolução das condições de vida das mulheres, os leitores modernos continuam a se encantar com as personagens de Austen.

Catherine Reef, em sua biografia Jane Austen – uma vida revelada, mostra como os livros – e a própria vida de Austen – giraram em torno do conflito entre o amor verdadeiro e casamentos arranjados, determinados pela classe social.

biografia -jane austen uma vida revelada

 

Jane Austen e a vida de escritora

Jane Austen começou a escrever ainda na infância. Seu pai, um clérigo do interior da Inglaterra, a incentivava a ler e a escrever, o que não era muito comum na época. As mulheres eram educadas para o casamento e não tinham direito à herança. Este fato influenciou a vida e os escritos de Austen, que só começou a fazer sucesso financeiro como escritora depois dos 30 anos. A maioria das obras de Austen foram publicadas sob pseudônimo. Quando ela estava começando a se tornar conhecida, morreu prematuramente aos 41 anos.

As mulheres da classe social de Jane Austen não trabalhavam. Havia uma série de regras sociais que a aristocracia e as classes mais abastadas tinham que seguir. Os casamentos eram arranjados, e a própria Jane recusou propostas por não amar os pretendentes (atitude incomum para época). A escritora foi hábil em transpor para os livros este universo em obras como Orgulho e preconceito.

Um livro indicado para todos os fãs de Jane Austen e para quem quer entender mais sobre a Inglaterra do século 19.


Título:
 Jane Austen – uma vida revelada
Autora: Catherine Reef
Tradutora: Kátia Hanna
Editora: Novo Século

Filme sobre a escritora e psicanalista Lou Andreas-Salomé estreia no Brasil

lou adrea filme

 

Lou Andreas-Salomé foi uma mulher à frente de seu tempo. Ela nasceu em São Petersburgo, na Rússia, em 1861, e teve papel destacado na psicanálise, ciência em ascensão nos séculos XIX e XX. Foi discípula de Sigmund Freud, o pai da psicanálise, e escreveu inúmeros artigos e livros, pouco divulgados no Brasil.

O filme Loudirigido pela diretora alemã Cordula Kablitz-Post, estreou no Brasil no último dia 11. No filme, Lou Andreas-Salomé está com 72 anos e escrevendo suas memórias com a ajuda do acadêmico Ernst Pfeiffer.

Apesar de sua brilhante trajetória como psicanalista, Lou Andreas-Salomé tornou-se famosa por suas amizades com alguns dos principais intelectuais europeus da época. Aos 20 anos, Lou era uma grande amiga dos filósofos Friedrich Nietzsche e Paul Rée. O três viveram uma amizade bastante próxima, mas que foi desfeita após uma briga entre Lou e Nietzsche.

 

Nietzsche_paul-ree_lou-von-salome188

Lou Andreas-Salomé, Paul Rée e Friedrich Nietzsche

Depois do casamento com o linguista Friedrich C. Andreas, a relação com Paul Rée começou a declinar, mas vieram novos amigos que influenciaram a vida intelectual de Lou. Ela iniciou um intenso caso com o então aspirante a poeta Rainer Maria Rilke, quinze anos mais jovem que a escritora. Outro momento decisivo foi o encontro com Sigmund Freud, que a introduziu à psicanálise. Lou escreveu obras importantes como O Erotismo Seguido de Reflexões Sobre o Problema do Amor.

A obra como escritora e ensaísta foi prolífica. Lou publicou também uma autobiografia e análises sobre a obra de Nietzsche e Rilke. Suas correspondências com Freud e Rilke foram reunidas em livro. Infelizmente, as obras desta autora não estão disponíveis em português. Como sempre, quem quiser ler alguma obra pode procurar edições em inglês ou livros raros em sebos.

Gostou do post? Siga o blog também no Instagram!

Cinco livros escritos por mulheres para ler no fim de semana

 

Cinco livros escritos por mulheres para ler no fim de semana

 

O fim de semana é sempre um bom momento para colocar a leitura em dia. Esta é uma seleção com oito livros curtos, menos de duzentas páginas, para ler em um fim de semana, feriado prolongado ou nas férias (ou quando você quiser). Todos os livros são escritos por mulheres, mostrando um ponto de vista feminino, muitas vezes negligenciado pela literatura.

Contos do esconderijo – Anne Frank

Anne Frank é mais conhecida pelo seu diário, mas ela também escreveu contos e ensaios. Em “Contos do esconderijo” vemos o talento em gestação de uma escritora precoce, mas que infelizmente não pode viver tempo suficiente para maturar seu dom. A jovem escritora mostra uma grande sensibilidade para captar detalhes da vida cotidiana. Estes textos foram excluídos da versão original do “Diário de Anne Frank”.

Quarto de despejo – Carolina Maria de Jesus

“É por isso que eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, pobres, somos os trastes velhos.” Esta frase é do diário de Carolina Maria de Jesus, que se transformou no livro “Quarto de despejo”. Carolina Maria de Jesus vivia na favela do Canindé em São Paulo, onde tentava sobreviver como catadora de papel para sustentar os filhos.

Vivendo este duro cotidiano, Carolina relatava suas frustrações e rotina em um diário. Sua sorte mudou quando o jornalista Audálio Dantas a conheceu enquanto fazia uma reportagem. Dantas ficou impressionado com a qualidade do texto de Carolina. “Quarto de despejo” alcançou grande sucesso e foi traduzido em diversos países.

A hora da estrela – Clarice Lispector

“A hora da estrela” foi o último livro escrito por Clarice Lispector. É um dos melhores livros de Clarice e um clássico da literatura brasileira que merece ser lido. O livro narra a história de Macabéa, uma alagoana que migra para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida. Com poucos recursos, Macabéa luta para se adaptar à cidade grande.

A redoma de vidro – Sylvia Plath

“A redoma de vidro” foi o único romance escrito pela poetisa americana Sylvia Plath. Na década de 50, Plath morou um mês em Nova York para trabalhar como editora na revista Mademoiselle. A experiência foi tão marcante que serviu como inspiração para o único romance de Plath.

No livro, a estudante universitária Esther Greenwood é selecionada para estagiar durante um mês em uma revista de Nova York. É a sua primeira vez em uma cidade grande e ela tem que lidar com uma súbita liberdade e a decepção com o trabalho na revista. A ausência de sentido de sua experiência a joga num episódio de depressão.

A chave de casa – Tatiana Salem Levy

Este é o romance de estreia de Tatiana Salem Levy, uma das melhores escritoras da cena contemporânea brasileira. A autora se inspirou na história de sua família para criar uma personagem descendente de judeus-turcos. Ela recebe uma chave do avô, uma chave para a casa da família em Esmirna, na Turquia.

A procura das raízes familiares se mistura com os seus problemas de relacionamento e o passado da família durante a ditadura militar. O livro ganhou o prêmio São Paulo de Literatura – melhor livro de autor estreante – 2008.

 

 

 

 

“Estação onze” – um livro sobre memórias afetivas e o poder da arte

estação onze livro emily st. john mandel

Conheci por acaso o livro “Estação onze“, da escritora canadense Emily St. John Mandel. E que livro! Minha tia comprou numa promoção nas lojas Americanas e minha mãe pegou emprestado. A obra foi publicada em 2014 nos Estados Unidos e teve uma boa repercussão entre os críticos (tem até elogio da New Yorker na contracapa).

Em “Estação onze“, depois de uma pandemia de gripe, a civilização se desintegra, e o que resta são pequenos povoados estabelecidos pelos sobreviventes. Não há mais governos, polícia, fronteiras. Nem remédios, internet e celulares. No ano 20 após a tragédia, a companhia teatral Sinfonia Itinerante percorre esses pequenos povoados entre o Canadá e os Estados Unidos, apresentando peças de Shakespeare e concertos de música clássica.

A autora Emily St. John Mandel entrelaça a história da atriz da Sinfonia Kirsten Raymonde com a do famoso ator hollywoodiano Arthur Leander. Kirsten tinha apenas oito anos quando seus pais morreram na epidemia de gripe. No dia em que a epidemia se alastrou, Kirsten estava no palco representando uma das filhas de Rei Lear, em uma montagem estrelada por Arthur. O ator morreu no palco nesta mesma noite.

Estação Onze emily st. john mandel

No mundo pós-apocalíptico de “Estação Onze” não há cafeterias, nem máquinas de café expresso

O único elo que Kirsten tem com o passado são as misteriosas revistas em quadrinhos do “Dr. Onze”, um presente de Arthur. Enquanto viaja com a Sinfonia Itinerante representando e sobrevivendo, ela tenta reconstruir este passado com revistas de celebridades cheias de fofocas sobre o ator.

Estação Onze – uma ficção científica diferente

As revistas em quadrinhos do “Dr. Onze” foram escritas pela primeira mulher de Arthur, Miranda, e nunca foram publicadas antes da epidemia. Miranda desenhava as revistas com perfeccionismo: elas nunca estavam prontas o suficiente para serem publicadas. A desenhista nunca teve fama ou reconhecimento profissional pela sua arte. Mas agora elas são lidas e fazem a diferença na vida de outras pessoas, mesmo que a artista não veja o resultado final. O que resta é a obra.

Em “Estação Onze“, Emily St. John Mandel  reflete sobre a importância da arte em momentos difíceis e quando tudo parece desmoronar. A autora não reflete sobre as causas da pandemia de gripe, ou se uma cura será descoberta. O que importa são as relações pessoais e familiares e como a arte é tudo o que resta quando todas as tecnologias falham.

“Não havia mais mergulhos em piscinas de água clorada com luzes verdes por baixo. Não havia mais jogos de bola sob holofotes. Não havia mais luzes nas varandas circundadas por mariposas nas noites de verão. Não havia mais trens correndo sob as cidades com a força alucinante do terceiro trilho condutor de eletricidade. Não havia mais cidades. Não havia mais filmes, exceto raramente, exceto quando um gerador de energia estava ligado e abafava metade do diálogo, e mesmo isso só por algum tempo, até que o combustível para os geradores acabou, porque a gasolina dos automóveis estragou depois de dois ou três anos. O combustível dos aviões durava mais tempo, porém era difícil conseguir.”

Curiosidades: no livro, as pessoas não usam carros, aviões, etc., para se deslocarem. Parece que a gasolina estraga após um tempo. Como vou assistir The Walking Dead após essa informação?

Resenha: Objetos cortantes – Gillian Flynn

A escritora americana Gillian Flynn ganhou fama internacional com o livro Garota Exemplar, lido por milhões de pessoas e adaptado para o cinema pelo diretor David Fincher. Porém, antes de criar a sombria Amy Dunne, Gillian Flynn estreou no mundo dos livros com o policial “Objetos Cortantes”, obra muito mais interessante do que “Garota Exemplar”.

Depois de um período em uma instituição psiquiátrica, a repórter Camille Preaker volta à pequena cidade onde passou a infância para investigar o desaparecimento de uma garota de 10 anos. Porém, o retorno ao trabalho e à cidade onde nasceu a fazem relembrar dos problemas da infância, da morte da irmã e do relacionamento turbulento com a mãe.

 

resenha objetos cortantes gillian flynn

 

A princípio relutante, a jornalista se envolve com o caso da garota desaparecida e permanece em Wind Gap na casa da mãe, Adora. O convívio familiar e com antigos colegas de escola disparam os gatilhos da memória de Camille. Foi durante a adolescência que ela começou a escrever palavras no próprio corpo. Usava facas, pinças, qualquer objeto cortante para se ferir.

As mulheres más de Gillian Flynn

A escritora Gillian Flynn tem um talento especial para criar personagens femininas controversas e sombrias. São mulheres que encontramos na vida real: com problemas psiquiátricos, mães tóxicas para os filhos, adolescentes sem caráter. Nada de heroínas ou mocinhas de novela.

Gillian Flynn vai traçando um panorama da pacata cidade do interior, sem crimes, aparentemente segura, mas cheia de segredos e pequenas maldades entre os habitantes. O machismo é tão naturalizado que crimes como estupro são considerados corriqueiros, inclusive pelas vítimas. O bullying e a competição entre os adolescentes são incentivados e vistos como algo normal. Há algo podre e todos fingem não ver

O livro tem um bom ritmo e personagens e tramas mais bem amarrados que o mega sucesso “Garota Exemplar”. O crime é solucionado, mas não há redenção para a protagonista. A perturbação causada pela leitura de  “Objetos cortantes” permanece com o leitor após o fim. Assim como outras obras da escritora, o livro será adaptado para a TV pela HBO, com a atriz Amy Adams no papel principal (leia a notícia aqui).

Eu sei, mas não devia – crônica de Marina Colasanti

eu sei mas não devia marina colasanti

 

A escritora Marina Colasanti foi indicada esta semana ao prêmio Hans Christian Andersen, considerado o “Nobel” da literatura infantil. Não li nenhum livro infantil da autora, mas um texto dela que me marcou muito foi a crônica “Eu sei, mas não devia“:

“A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E porque não tem vista, a gente logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz.
E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.”
“A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.”
O Antônio Abujamra gravou um vídeo recitando a crônica, vale a pena ver:
A escritora Marina Colasanti mantém um site com crônicas e textos.

“Manual da faxineira”, da escritora Lucia Berlin, é publicado no Brasil

 

manual-da-faxineira-lucia-berlin-companhia-das-letras

Conheci a escritora americana Lucia Berlin (1936-2004) lendo um artigo da revista literária The Paris Review  e me apaixonei pela escrita irônica, o modo de contar uma história sem frescuras e indo direto ao ponto. O conto “B.F. and Me” é delicioso; Berlin disserta sobre a profissão de telefonista e sobre as vozes humanas e suas personalidades. Fiquei louca para ler um livro dela, mas não havia nenhum traduzido para o português. Até agora. A Companhia das Letras irá lançar no próximo dia 13 o livro “Manual da Faxineira”, que reúne contos da escritora.

Lucia Berlin teve uma vida tumultuada e cheia de experiências que serviram de inspiração para sua obra. Aos 32 anos, já havia casado três vezes e vivido em vários lugares do mundo. Durante a infância e a adolescência, viveu no Chile e no México, onde casou e frequentou a universidade. Depois de ser abandonada pelo marido, casou novamente e mudou-se para Nova York. O último casamento foi com Buddy Berlin.  Exerceu várias profissões para sustentar os quatros filhos: professora, telefonista, faxineira e enfermeira. Nos últimos anos de vida, foi professora de escrita criativa na Universidade do Colorado.

“Manual da Faxineira” na lista dos melhores livros do New York Times

Suas experiências profissionais e os problemas com drogas e álcool foram a base de diversos contos. Ela começou a publicar textos esporádicos em algumas revistas literárias na década de 60, mas apenas nos anos 70 publicou um livro. Chamou a atenção de escritores como Lydia Davis e Saul Bellow, mas foi pouco reconhecida em vida, tanto pelo público como pela crítica.

A grande virada, infelizmente, veio depois da sua morte. Em 2015, os contos de Berlin foram reunidos no livro Manual da Faxineira, que foi indicado pelo The New York Times como um dos “10 melhores livro do ano”.

 

Vida da poetisa Juana Inés é inspiração para série da Netflix

Desde janeiro está disponível na Netflix a série “Juana Inés” sobre a poetisa, escritora, dramaturga e religiosa Irmã Juana Inés de la Cruz (1651-1695). Ela foi uma das grandes poetisas do período barroco espanhol e era conhecida pela grande inteligência e virtuosismo com as palavras. A série mostra a dificuldade das mulheres de terem acesso ao mundo cultural e intelectual da época, e as poucas oportunidades que tinham fora do casamento, principalmente quando eram filhas bastardas.

Juana Inés nasceu Juana Ramírez de Asbaje em San Miguel de Nepantha, no México. De acordo com a série, era filha bastarda de Pedro Manuel de Asbaje y Vargas Machuca com a criolla Isabel Ramírez de Santillana. Seu pai abandonou a família e a mãe se casou novamente.

Precoce e com grande curiosidade intelectual, educou-se na biblioteca do avô. Leu os clássicos gregos e romanos, filosofia e teologia. Também estudou astrologia e matemática. Infelizmente, na época em que Juana Inés viveu, as mulheres não tinham acesso aos estudos formais. Ela chegou a considerar se vestir de homem para entrar na universidade. Teve aulas de latim e também aprendeu a falar o idioma indígena nahuatl, o que era causa de grande escândalo.

 

série-netflix-juana-inés

Juana Inés aos quinze anos de idade

Com 14 anos, ingressou na Corte Virreinal do México e logo caiu nas graças da realeza pela sua erudição, mas principalmente por causa de seus versos. Foi dama de companhia da Marquesa de Mancera, Leonor Carreto, para quem escreveu versos. A “Fênix da América” escreveu poemas sagrados e profanos. Alguns deles podem ser lidos aqui.

 

DOCE TORMENTO

 O mal que venho sofrendo
E que em meu peito se lê,
Sei que o sinto, mas porque
O sinto é que não entendo.

Sinto uma grave agonia
No sonhar em que me vejo:
Sonho que nasce em desejo
E acaba em melancolia.

Quando com maior fraqueza
O meu estado deploro,
Sei que estou bem triste, e ignoro
A causa de tal tristeza.

Sinto um desejo nefasto
Pelo objeto ao qual aspiro;
Mas quando de perto o miro,
Eu mesma é que a mão afasto.

Penso mal do mesmo bem
Com receoso temor
E às vezes o mesmo amor
Me obriga a mostrar desdém.

Com pouca causa ofendida,
Costumo, com meio amor,
Negar um leve favor
A quem eu daria a vida.

Já paciente, já irritada,
Vacilo em penar agudo:
Por ele sofrerei tudo,
Tudo; mas com ele, nada.

Ao que pelo objeto amado
Meu coração não se atreve?
Por ele, o pesado é leve;
Sem ele, o leve é pesado.

Quando o desengano toco,
Luto com o mesmo quebranto
De ver que padeço tanto,
Padecendo por tão pouco.

No tormento em que me vejo,
Levada de meu engano,
Busco sempre o desengano,
E não acha-lo desejo.

Se a alguém meu queixume exalo,
Mais a dizê-lo me obriga
Para que mo contradiga
Do que para reforçá-lo.

Pois e, com minha paixão,
Daquele que amo maldigo,
É meu maior inimigo
Quem nisso me dá razão.

Se acaso me contradigo
Neste meu arrazoado,
Vós que tiverdes amado
Entendereis o que digo.

Sucesso literário e conflitos com a Igreja

Como filha bastardada, sem dote, a única opção que restava era ser dama de companhia na corte ou freira. Aos 16 anos entrou para a Ordem das Carmelitas Descalças, mas não se adaptou à rigidez do convento. Em 1668, ingressa na Ordem das Jerônimas, onde permanecerá por toda a vida.

A sugestão para entrar no convento veio do padre Núñez de Miranda, confessor dos vice-reis. Na série da Netflix, ele é um vilão que atormenta Juana Inés – ele foi confessor da poetisa na ficção e na vida real, além de ser membro do Tribunal do Santo Ofício. O padre Núñez de Miranda ficcional é cheio de inveja e admiração pelo talento de Juana Inés. Na vida real, o comportamento da escritora era reprovado por seu confessor. Com a ajuda de María Luisa Gonzaga Manrique de Lara, a condessa de Paredes, Juana Inés consegue se afastar da esfera de influência de Miranda.

 

série-netflix-juana-inés

Retrato de Juana Inés por Miguel Cabrera

Muitos estudiosos especularam sobre a relação de Juana Inés com a condessa. Maria Luísa incentivava a carreira da monja e ambas eram muito próximas. A escritora escreveu inúmeros poemas para a condessa, quase 50, que foram compilados recentemente na coletânea “Un amar ardiente”.

Juana Inés não escreveu apenas poemas sobre o amor e Deus, mas também aproveitou sua pluma para criticar os homens e o machismo da sociedade, como no poema “Homens néscios que acusais”:

 

HOMENS NÉSCIOS QUE ACUSAIS

Homens néscios que acusais
a mulher sem razão,
sem ver que sois a causa
do mesmo que culpais:

se com ânsia sem igual
solicitais seu desdém,
por que quereis que procedam bem
se as incitais ao mal?

Combateis sua resistência
e logo, com gravidade,
dizeis que é leviandade
o que fez a diligência.

Assemelhar-se quer a ousadia
de vosso parecer louco,
ao menino que faz uma mostro
e logo lhe tem medo.

Quereis, com presunção néscia,
encontrar à que procurais,
para prometida, Thais,
e para possuir, Lucrecia.

Que humor pode ser mais estranho
que aquele que, sem conselho,
ele próprio embaça o espelho,
e reclama que não está claro?

Com o favor e o desdém,
estás em igual condição,
queixando-se, se lhes tratam mal,
zombando, se lhes querem bem.

Opinião, nenhuma ganha,
pois a que mais se recata,
se não vos admite, é ingrata,
e se vos admite, é leviana.

Sempre tão néscios andais
que, com desigual cota,
a uma culpais por cruel
e a outra por fácil culpais.

Pois como há de ser moderada
a que vosso amor pretende,
se a que é ingrata, ofende,
e a que é fácil, entedia?

Mas, entre o tédio e a aflição
que vosso gosto insinua,
bem haja a que não vos queira
e lamentai vos em hora idônea.

Dão vossas queridas tristezas,
a suas liberdades asas,
e depois de torná-las más
quereis achá-las virtuosas.

Qual maior culpa tem tido
em uma paixão errada:
a que cai pelos rogos
ou quem roga por caído?

Ou quem tem maior culpa,
independente do mal que faça:
a que peca por salário,
ou quem para pecar paga?

Pois, para que vos espantais
da culpa que tens?
quereis elas como as fazeis
ou fazei elas como as procurais.

Deixe de solicitar,
e depois, com mais razão,
acusareis a afeição
da que vos for a suplicar.

Bem com muitas armas fundo
que luta vossa arrogância,
pois em promessa e instancia
juntais diabo, carne e mundo.

 

A Igreja Católica não via com bons olhos a independência e o talento da monja, que parecia não se importar com as consequências dos seus escritos. Os conflitos se tornaram mais agudos à medida que Juana Inés ganhava fama literária. O estopim foram os comentários críticos ao “Sermão do Mandato”, do padre Antonio Vieira, que Juana Inés fez em carta privada ao bispo Don Manuel Fernandes.  O religioso publicou o manuscrito sem a autorização da autora, com o nome de “Carta Atenagórica”, e assinou o prefácio sob o pseudônimo Sóror Filotea de la Cruz.

Em resposta, Juana Inés publicou “Respuesta a Sóror Filotea de la Cruz“, carta na qual defende a liberdade intelectual da mulher. Após a publicação da carta, aumenta a pressão do clero sobre Juana Inés. Ela se reaproxima do padre Núñez de Miranda, que a aconselha a abandonar os estudos para fugir da tirania da Inquisição. Assim, ela renunciou aos seus bens, doando livros e instrumentos musicais. Escreve com o próprio sangue um auto de fé, em que se arrepende de ter escrito obras profanas. Em 1695, pouco anos depois de ter abandonado sua carreira como escritora, morre aos 43 anos durante uma epidemia de peste.

Para saber mais: 

El amor sin tabúes entre sor Juana Inés de la Cruz y la virreina de México

Obras de Juana Inés – Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes

Resenha: “Dicionário de nomes próprios” – Amélie Nothomb

“Para um escritor, não há maior tentação que a de escrever a biografia de seu assassino.”

O recado de Amélie Nothomb na contracapa do livro “Dicionário de nomes próprios” é quase um spoiler para o leitor. Porém, ter algumas informações em mãos ajudam a entender um pouco das nuances do livro e as escolhas da autora. Amélie escreveu o livro inspirada na cantora francesa Robert, de carne e osso e amiga da escritora. Robert canta a música Ange et démon, que foi usada em um famoso comercial de perfume.

“Dicionário de nomes próprios” inicia com a adolescente Lucette, de 19 anos, que está na “oitava hora de insônia” por causa dos soluços do bebê em seu útero. Ela sente uma paixão instantânea por Fabien, e logo casa com o jovem, apesar da pouca idade. Lucette é intensa e quer ter uma vida fora do comum, original. Procurava nomes para o bebê em enciclopédias antigas e anotava nomes exóticos, como “Eleutério”.

Durante a gestação, Lucette percebe que Fabien não é a pessoa excitante que ela havia imaginado, era apenas um homem comum. Com medo que o futuro filho (ou filha) tenha um destino medícore, Lucette toma uma decisão que irá moldar o futuro da filha Plectrude.

Amélie vai tecendo a história de Plectrude com elegância e erudição. A sua escrita é concisa e cheia de comentários irônicos. Porém, ao lermos a história, fica a impressão de uma certa ingenuidade, um enredo quase adolescente.

dicionário-de-nomes-próprios-améli-nothomb

Amélie Nothomb escreveu uma “biografia” de sua amiga e cantora Robert

O problema principal do livro é o final. Fica claro que ela não conseguiu desenvolver a história e terminar o livro de maneira satisfatória. A personagem dentro de Amélie a deixou sem reação, sem saber o que fazer. Ela trouxe o leitor para o dilema do escritor, quando a história chega a uma bifurcação, onde tudo pode se perder. Era para ser uma história boba de adolescentes, mas se transformou numa metáfora do processo literário.

Amélie Nothomb

amélie-nothomb-livros

Amélie Nothomb publicou o primeiro livro “Higiene do assassino” aos 25 anos

A belga Amélie Nothomb é uma escritora pouca conhecida no Brasil. Talvez seja por que suas obras não tenham repercutido entre a crítica, ou não tenha sido devidamente divulgada. Ela é muito popular na Europa, onde vende muitos livros e tem fãs ávidos.

Filha de um diplomata belga, Amélie Nothomb nasceu em Kobe, no Japão, onde seu pai estava de serviço em 1967. Passou a infância vivendo entre países da Ásia e da América. Mesmo retornando à Bélgica, Amélie continuou ligada emocionalmente ao Japão (a escritora fala japonês fluentemente). Aos 21 anos, ela retornou ao país de nascimento para trabalhar numa grande empresa. A experiência foi desastrosa. A futura escritora não conseguiu se adaptar à rigidez da hierarquia no local do trabalho e voltou à França, onde publicou seu primeiro livro, “Higiene do assassino”, em 1992.

Em seu livro de estreia, com apenas 25 anos, Amélie conseguiu sucesso de público e crítica. Li  “Higiene do assassino”, durante a faculdade e me impressionei com a criatividade da trama e o estilo ácido da escritora. No livro, Prétextat Tach, escritor fictício vencedor do prêmio Nobel, tem apenas dois meses de vida. Jornalistas do mundo inteiro tentam entrevistá-lo, mas apenas uma repórter consegue. Amélie também escreveu um livro sobre sua experiência no Japão, “Medo e submissão”.