Contos de autores brasileiros para ler em qualquer lugar

 

Contos de autores brasileiros

A editora Companhia das Letras criou uma newsletter gratuita que enviará contos de autores brasileiros uma vez por semana para o seu e-mail.

Entre os autores escolhidos estão Adriana Lisboa, Marcílio França Castro, João Anzanello Carrascoza e Noemi Jaffe. A ideia é divulgar os escritores por meio de contos curtos, que podem ser lidos em qualquer lugar.

Você pode se cadastrar no blog da editora. A duração do projeto é de três meses.

Dois livros para conhecer o autor americano Paul Bowles

Paul Bowles (1910-1999) foi um dos grandes escritores americanos do século XX. Uma de suas principais obras é o romance “O céu que nos protege“, que foi adaptada para o cinema pelo diretor Bernardo Bertolucci em 1990. Um dos temas mais frequentes da literatura de Bowles são viajantes em situações limites, confrontados com seus problemas psicológicos ao explorarem lugares exóticos.

Antes de ser um escritor profissional, Bowles foi um compositor requisitado na Broadway. Entre seus trabalhos mais proeminentes estão composições para o teatro e sonatas para piano. Trabalhou também como crítico de música.

Além da música, outra grande influência  foram as frequentes viagens do escritor. Durante a juventude, nos anos 20 e 30, ele viajou para lugares como Paris, Marrocos, Berlim, Guatemala, México, Índia.

Dois livros para conhecer o autor americano Paul Bowles

O céu que nos protege

A música e as viagens a lugares exóticos marcaram a literatura de Paul Bowles. Apesar de trabalhar principalmente com música, Bowles já havia publicado, aos 17 anos,  contos para a revista literária francesa Transition. Mas a mudança definitiva para o mundo literário aconteceu em 1949 com a publicação de seu primeiro romance, “O céu que nos protege“.

Para escrever sua obra-prima, Bowles se mudou de Nova York para Tânger, no Marrocos, em 1947. O escritor permaneceu no Marrocos até sua morte, em 1999.

Em “O céu que nos protege“, dois americanos, Kit e Port, viajam para o Norte da África, em direção ao Saara. Tunner, um amigo de Nova York, os acompanha durante a viagem. Ao contrário do casal, Tunner não é tão fascinado por culturas diferentes. Quando a situação fica muito precária, ele se afasta.

Já Kit e Port parecem não se importar com as condições precárias de suas viagens. Eles buscam o exótico mas também o desconforto, o choque com outras culturas, um comportamento compulsivo em direção a situações limites.

Em entrevistas, Bowles afirma que no início do processo de escrever um livro há uma certa ordem, mas depois de um certo tempo os personagens e a narrativa tomam um rumo próprio, que o escritor deve apenas seguir. Como escreveu Franz Kafka: “De um certo ponto em diante não há mais como voltar atrás. Este é o ponto que se deve atingir.”

Chá nas montanhas – contos

As marcas das viagens de Paul Bowles podem ser sentidas na coletânea de contos “Chá nas montanhas”. O livro é uma coletânea de contos publicadas ao longo da carreira do escritor em livros e revistas literárias.

Os contos são ambientados em paisagens inspiradas nas viagens de Bowles ao México, África, Marrocos. Sempre há algum elemento de tensão e horror nos contos, que permanecem no leitor após a leitura, como um choque. Os personagens estão sempre em trânsito, em busca de uma solução para um problema interno ou externo.

Como escreve no prefácio do livro o escritor Gore Vidal, “a paisagem é essencial em um conto de Bowles”. No conto “O escorpião”, sentimos a opressão de uma mulher idosa que vive numa caverna, à espera dos filhos que foram morar na cidade em busca de melhores condições de vida.

Em “Um episódio distante”, um professor de linguistica viaja até um vilarejo distante para reencontrar um amigo que havia conhecido dez anos antes. O professor é recebido com hostilidade pelos habitantes do local, que decidem escravizá-lo. Neste conto, assim como toda em sua obra, o autor explora o conflito da razão com as forças mais primitivas do ser humano.

P.S. O livro “Chá nas montanhas” foi publicado pela editora Rocco em 1994, mas não está mais disponível no catálogo. Os contos de Paul Bowles podem ser lidos no livro “Um episódio distante”, publicado pela editora Alfaguara em 2010.

 

“Manual da faxineira”, da escritora Lucia Berlin, é publicado no Brasil

 

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Conheci a escritora americana Lucia Berlin (1936-2004) lendo um artigo da revista literária The Paris Review  e me apaixonei pela escrita irônica, o modo de contar uma história sem frescuras e indo direto ao ponto. O conto “B.F. and Me” é delicioso; Berlin disserta sobre a profissão de telefonista e sobre as vozes humanas e suas personalidades. Fiquei louca para ler um livro dela, mas não havia nenhum traduzido para o português. Até agora. A Companhia das Letras irá lançar no próximo dia 13 o livro “Manual da Faxineira”, que reúne contos da escritora.

Lucia Berlin teve uma vida tumultuada e cheia de experiências que serviram de inspiração para sua obra. Aos 32 anos, já havia casado três vezes e vivido em vários lugares do mundo. Durante a infância e a adolescência, viveu no Chile e no México, onde casou e frequentou a universidade. Depois de ser abandonada pelo marido, casou novamente e mudou-se para Nova York. O último casamento foi com Buddy Berlin.  Exerceu várias profissões para sustentar os quatros filhos: professora, telefonista, faxineira e enfermeira. Nos últimos anos de vida, foi professora de escrita criativa na Universidade do Colorado.

“Manual da Faxineira” na lista dos melhores livros do New York Times

Suas experiências profissionais e os problemas com drogas e álcool foram a base de diversos contos. Ela começou a publicar textos esporádicos em algumas revistas literárias na década de 60, mas apenas nos anos 70 publicou um livro. Chamou a atenção de escritores como Lydia Davis e Saul Bellow, mas foi pouco reconhecida em vida, tanto pelo público como pela crítica.

A grande virada, infelizmente, veio depois da sua morte. Em 2015, os contos de Berlin foram reunidos no livro Manual da Faxineira, que foi indicado pelo The New York Times como um dos “10 melhores livro do ano”.

 

“Alguma coisa urgentemente” – conto de João Gilberto Noll

O escritor gaúcho João Gilberto Noll morreu na última quarta-feira, 29 de março, em Porto Alegre. Vencedor de cinco prêmios Jabuti, Noll escreveu 18 livros e teve algumas obras adaptadas para o cinema, como “Harmada” e “Hotel Atlântico”. De acordo com análise do escritor Ricardo Lísias, a obra do autor já previa as dificuldades que o Brasil teria para superar a estrutura autoritária da ditadura.

Essa análise social é vista no conto “Alguma coisa urgentemente“, de 1980.  A relação de um adolescente com o pai, preso político, mostra as dificuldades dos filhos de pais que lutaram contra a ditadura e a fragilidade dessas relações num ambiente autoritário.

O conto é um dos mais aclamados do escritor e da literatura brasileira e foi publicado no livro “O cego e a dançarina“, que ganhou o prêmio Jabuti. O filme também foi adaptado para o cinema pelo diretor Murilo Salles com o título “Nunca fomos tão felizes”.

Os primeiros anos de vida suscitaram em mim o gosto da aventura. O meu pai dizia não saber bem o porquê da existência e vivia mudando de trabalho, de mulher e de cidade. A característica mais marcante do meu pai era a sua rotatividade. Dizia-se filósofo sem livros, com uma única fortuna: o pensamento. Eu, no começo, achava meu pai tão-só um homem amargurado por ter sido abandonado por minha mãe quando eu era de colo. Morávamos então no alto da Rua Ramiro Barcelos, em Porto Alegre, meu pai me levava a passear todas manhãs na Praça Júlio de Castilhos e me ensinava os nomes das árvores, eu não gostava de ficar só nos nomes, gostava de saber as características de cada vegetal, a região de origem. Ele me dizia que o mundo não era só aquelas plantas, era também as pessoas que passavam e as que ficavam e que cada um tem o seu drama. Eu lhe pedia colo. Ele me dava e assobiava uma canção medieval que afirmava ser a sua preferida. No colo dele eu balbuciava uns pensamentos perigosos:

— Quando é que você vai morrer?

— Não vou te deixar sozinho, filho!

O resto do conto pode ser lido no site Releituras.

Pena que a obra de João Gilberto Noll é tão pouco conhecida do público e que ele tenha morrido em um período tão conturbado da história do país.