3 livros clássicos de Virginia Woolf

3 livros clássicos de virginia woolf

A autora britânica Virginia Woolf (1882 -1941) escreveu grandes clássicos da literatura e  romances que são considerados obras-primas: Mrs. Dalloway, Entre os atos, Orlando, Ao farol e As ondas. Além de ser uma escritora genial, ela também contribuiu enormemente para a vida cultural e literária europeia, Junto com o marido, fundou a editora Hogarth Press, que publicou obras de escritores como Katherine Mansfield e T.S. Eliot.

Woolf nasceu em Londres em 1882. Era filha do escritor Leslie Stephen, e desde criança teve contato com o mundo dos livros. Ela e a irmã, a pintora Vanessa Bell, participaram do Grupo de Bloomsbury, formado por intelectuais e artistas. Entre os membros estavam o economista J. Maynard Keynes e Leonard Woolf, futuro marido da escritora.

Umas das grandes marcas de Virginia Woolf era o domínio do fluxo de consciência. Woolf era exímia em simular o processo caótico da mente reproduzindo os pensamentos, as sensações e a percepção do mundo do personagem, como fez em Mrs. Dalloway.

“Uma mulher, se quiser escrever literatura, precisa ter dinheiro e um quarto só seu”. A frase resume o feminismo de Virginia e também a sua visão da literatura e das mulheres.

Orlando

É um dos livros mais interessantes de Virginia Woolf, e talvez o mais acessível para quem esteja iniciando no mundo da autora. Orlando é o sexto romance da autora e foi publicado em 1928. A obra foi um sucesso comercial na época e também foi adaptada para o cinema em 1992.

Orlando é um jovem de 16 anos que vive no século XVI, mas que terá uma longa vida por três séculos de história. Orlando muda de país, pensamento, e também de sexo. Ele nasce como homem, mas em algum momento da história se transforma em mulher, sem maiores traumas. A androginia é o principal tema do livro, assim como as mudanças da sociedade que ocorreram através dos séculos, como a criação das lojas de departamento e o uso de aliança. (Quando retorna para a Inglaterra no século XIX, Orlando observa que pessoas de diversas classes sociais usam anéis nos dedos para indicar compromisso).

As características de Orlando foram emprestadas da escritora Victoria Sackville-West. Vita foi amante de Virginia, e as duas permaneceram amigas até a morte. De fato, o castelo onde Orlando morava é o castelo dos Sackville.

 

Entre os atos

Entre os atos foi o último livro escrito por Virginia Woolf. A autora tinha o hábito de escrever dois livros ao mesmo tempo para “descansar” do trabalho principal. Em abril de 1938, a obra principal de Virginia era a biografia de Roger Fry, crítico de arte e pintor. Enquanto descansava da biografia, ela começou a trabalhar no livro Entre os atos.

Em uma pequena cidade do interior da Inglaterra, é tradição que todos os anos a trupe de teatro local faça uma montagem sobre a história inglesa. Todos os moradores se engajam no espetáculo, tanto na plateia como atores. Virginia escreveu a obra durante a Segunda Guerra Mundial, e essa experiência é refletida no livro.


Mrs. Dalloway

É a obra mais conhecida de Virginia, e retrata um dia na vida da socialite Clarissa Dalloway. O modelo para a construção de Clarissa foi a socialite Kitty Maxse, amiga da família. Além de Kitty,Woolf se inspirou em outras pessoas do seu convívio para criar os personagens de Mrs. Dalloway. A bailarina russa Lydia Lopokova, que integrava o Grupo de Bloomsbury, foi a inspiração para Lucrezia Warren Smith. Num lapso, a própria Virginia chegou a chamar Lydia de Rezia. No livro, Lucrezia é casada com Septimus Warren Smith, um veterano da Primeira Guerra Mundial.

 

Ilustrações raras de George Barbier para o clássico “As ligações perigosas”

as ligações perigosas ilustrada por george barbier

 

Em 1782, o escritor francês Choderlos de Laclos publicou o clássico “As ligações perigosas“. O romance gira em torno das cartas trocadas entre um grupo de aristocratas libertino, empenhados na arte da sedução. Um dos passatempos do Visconde de Valmont é seduzir jovens inexperientes. Valmont conta com a ajuda da Marquesa de Merteuil para conquistar Cecile, jovem recém-saída do convento e prometida em casamento.

Porém, em 1934 a obra ganhou uma versão refinada com ilustrações do artista francês George Barbier (1882-1932). O livro hoje é uma raridade. Ah, se eu pudesse comprar…

as ligações perigosas ilustrações por george barbier

as ligações perigosas george barbier

Quando ler é doloroso

Há livros com assuntos tão dolorosos que tornam a leitura difícil, pesada, lenta.

Acontecimentos históricos como a Ditadura Militar no Brasil, a Escravidão ou o Holocausto são temas de livros de história, documentários e reportagens. Mas apenas a literatura é capaz de transmitir as nuances dos acontecimentos e a repercussão dessas tragédias na vida de uma pessoa comum.

Um desses livros perturbadores é a graphic novel “Maus”, do ilustrador e cartunista Art Spiegelman. O livro é baseado nos relatos de seu pai Vladek Spiegelman, sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia. A grande inovação de “Maus” (ratos, em alemão) é narrar os acontecimentos do Holocausto com a linguagem dos quadrinhos. Os desenhos são todos em preto e branco, e os judeus são retratados como ratos, e os alemães, como gatos.

quando ler é doloroso

O ilustrador Art Spiegelman ganhou o Prêmio Pulitzer com o relato de seu pai sobre o Holocausto

Spiegelman não esconde as características menos nobres do pai, como a sovinice e a relação um tanto fria entre os dois. É difícil ler os trechos sobre o cotidiano dos campos de concentração e as consequências desta experiência para Vladek e Anja. Mas é impossível não se emocionar com a história de Vladek, sua luta pela sobrevivência e o amor que sentia pela esposa Anja.

 

Tudo o que tenho levo comigo

“Tudo o que tenho levo comigo” é um livro que não consegui terminar de ler até hoje. Escrito pela ganhadora do Nobel de Literatura Herta Müller, o livro é um relato do personagem Leo Auberg, que com apenas 17 anos é deportado para um campo de trabalhos forçados na Ucrânia, onde vive por cinco anos. A escritora teve como inspiração um fato pessoal para escrever este livro: sua própria mãe também foi enviada a um campo de trabalhos forçados na União Soviética.

Após a Segunda Guerra Mundial, em 1945, o general soviético Vinogradov solicitou ao governo da Romênia que os alemães que morassem no país deveriam contribuir para a reconstrução da União Soviética. Até a invasão pelo Exército Vermelho, a Romênia apoiava a Alemanha nazista durante a guerra. Assim, alemães entre 17 e 45 anos foram enviados a campos de trabalhos forçados soviéticos.

quando ler é doloroso

Herta Müller baseou sua obra no relato de sobreviventes de campos de trabalho forçados soviéticos

 

A mãe de Herta Müller passou cinco anos num campo de trabalhos forçados, mas pouco falou sobre o tema com a filha. O tema “deportação” era um tabu devido ao passado nazista da Romênia. Só se falava sobre os campos de maneira velada. Em 2001, Müller começou a colher relatos de sobreviventes, entre eles Oskar Pastior, que se tornou sua principal fonte sobre os campos. Eles pretendiam escrever um livro juntos, porém Pastior morreu em 2006.

Herta Müller reconstitui com sensibilidade os pequenos detalhes do cotidiano do campo. As pás de coração para o carregamento de carvão. A beleza incomum de um lenço branco bordado à mão, tão deslocado na realidade fria do campo.

Segue um trecho do livro:

Sobre o anjo da fome

A fome está sempre ali.

Como está ali, ela vem quando e como quer.

O princípio de causalidade é o trabalho ignóbil do Anjo da Fome.

Quando ele chega, ele chega com força.

É claríssimo:

1 movimento completo com a pá = 1 grama de pão.

Título: Tudo o que tenho levo comigo
Autora: Herta Müller
Tradução: Carola Saavedra
Editora: Companhia da Letras

Título: Maus
Autor: Art Spiegelman
Tradução: Antonio de Macedo Soares
Editora: Companhia da Letras

É Carnaval, e estão as ruas cheias – poema de Álvaro de Campos

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É Carnaval, e estão as ruas cheias
De gente que conserva a sensação,
Tenho intenções, pensamento, ideias,
Mas não posso ter máscara nem pão.

Esta gente é igual, eu sou diverso —
Mesmo entre os poetas não me aceitariam.
Às vezes nem sequer ponho isto em verso —
E o que digo, eles nunca assim diriam.

Que pouca gente a muita gente aqui!
Estou cansado, com cérebro e cansaço.
Vejo isto, e fico, extremamente aqui
Sozinho com o tempo e com o espaço.

Detrás de máscaras nosso ser espreita,
Detrás de bocas um mistério acode
Que meus versos anódinos enjeita.

Sou maior ou menor? Com mãos e pés
E boca falo e mexo-me no mundo.
Hoje, que todos são máscaras, és
Um ser máscara-gestos, em tão fundo…

* Álvaro de Campos é um dos heterônimos do poeta português Fernando Pessoa. 

O processo de criação de três personagens incríveis da literatura

O processo de criação de uma obra literária é complexo. Muitas vezes, a faísca criativa vem num sonho ou  até mesmo escrevendo uma outra história. Abaixo, o relato de como três grandes escritores criaram a suas obras-primas.

 

1. Anna Karenina 

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A atriz Keira Knightley interpreta Anna Karenina, a icônica personagem de Tolstói, em filme homônimo de 2012

O escritor russo Leon Tolstói estava quase adormecendo no sofá de sua casa quando teve uma visão: um cotovelo nu de mulher. Tolstói começou a imaginar a figura da mulher em torno deste cotovelo, usando um vestido de baile e com um rosto triste. Ele imaginou na hora que gostaria de escrever sobre esta mulher.

Apesar da visão de Tolstói, acredita-se que ele usou dois modelos femininos reais para compor a personagem Anna Karenina. Uma delas seria a filha do poeta Alexander Pushkin, Maria Hartung, que Tolstói conheceu num jantar. Outra mulher que teria inspirado o escritor foi a amante de um vizinho que se jogou na frente de um trem, em 1872, após descobrir que havia sido trocada por outra.

O fato é que Tolstói começou a escrever “Anna Karenina” em 1873, estimulado pela leitura de um livro de  Alexander Pushkin. O escritor achava que ninguém se interessaria por uma história de adultério, mas “Anna Karenina” continua na imaginação dos leitores atuais.

2. Macabéa

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Macabéa é a personagem principal do livro “A hora da estrela”, de Clarice Lispector. O filme baseado no livro e dirigido por Suzana Amaral ganhou vários prêmios internacionais

Macabéa é uma alagoana que migra para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida. Estudou apenas até o terceiro ano primário, mas aprendeu a datilografar. A própria Clarice Lispector explica no livro “A hora da estrela” como foi a gênese de Macabéa:  “É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina. Sem falar que eu em menino me criei no Nordeste.”

Na biografia de Clarice escrita por Benjamin Moser, temos várias pistas de como a escritora concebeu “A hora da estrela”. Lispector ia com frequência à Feira de São Cristóvão no Rio de Janeiro com sua amiga Olga Borelli. Muitos migrantes nordestinos iam neste local; e foi assim, observando as pessoas da feira, que a escritora criou o personagem José Olímpico, namorado de Macabéa. De acordo com Borelli, Clarice escreveu na feira mesmo um esboço do personagem.

Além das lembranças da infância vivida no Nordeste, Clarice Lispector usou referências judaicas no livro. O nome Macabéa deriva de Judas Macabeus, herói bíblico da “revolta dos macabeus”, celebrada pelos judeus durante o  Chanucá.

3. Alice

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“Alice no país das maravilhas” teve como inspiração as histórias que Lewis Carrol contava para a pequena Alice Liddell

 

Lewis Carroll trabalhava na universidade de Oxford quando Henry Liddell foi eleito reitor de Christ Church, em 1856. A família Liddell se mudou para Oxford com suas três filhas pequenas e Carroll logo estabeleceu um forte vínculo com a família. A relação  de Carroll com as crianças sempre foi motivo de controvérsia, como você pode ler aqui.

Num dia de verão, Carroll estava passeando de barco pelo rio Tâmisa com a pequena Alice Liddell, 1o anos, que pediu para que ele contasse uma história. Carroll começou a inventar um enredo em que a própria Alice era a protagonista. Carroll registrou a história por escrito a pedido da criança. Depois de um ano, em outubro de 1863, entregou o manuscrito à editora Macmillan. “Alice no país das maravilhas” foi publicado em novembro de 1865.

Referências:

501 grandes escritores. Ed. Sextante: 2009.

A hora da estrela. Clarice Lispector. Ed. Rocco, 1998.

Clarice,. Benjamin Moser. Ed. Cosac Naify: 2001.

Conversando com Mrs. Dalloway. Celia Blue Johnson. Ed.Casa da Palavra: 2013.

 

 

 

1984, clássico de George Orwell, está na lista dos mais vendidos

1984 clássico de george orwell entre os livros mais vendidos

George Orwell foi autor de clássicos como “1984” e “A revolução dos bichos”

 

O site Publishnews divulga semanalmente a lista dos livros mais vendidos no Brasil. Na categoria ficção, me surpreendi com a presença do livro “1984”, do escritor George Orwell (1903-1950), publicado em 1949. Li este livro faz muitos anos, um exemplar emprestado da Biblioteca Pública de Santa Catarina. A obra-prima de George Orwell vendeu milhões de cópias no mundo todo.

Em 1984, um estado totalitário governa o continente fictício da Oceânia. A figura central deste governo é o “Grande Irmão” – o Big Brother (será que a proximidade do BBB 17 fez as vendas aumentarem?). O grande ditador foi baseado na figura de Joseph Stalin, líder da União Soviética.

Para que o governo do Grande Irmão possa se perpetuar no poder, o governo reescreve a história para que todos os acontecimentos estejam de acordo com a linha do partido. O personagem principal, Winston Smith, trabalha no Ministério da Verdade, reescrevendo documentos históricos e notícias de jornal. Todos os cidadãos são monitorados o tempo todo por meio das teletelas, câmeras instaladas nas casas e lugares públicos.

Relacionamentos amorosos são proibidos, mas Winston burla a regra ao se relacionar com Julia. Influenciado pela namorada, Winston tenta se rebelar contra o governo totalitário, mas é pego e brutalmente torturado.

O mundo orwelliano

A influência de “1984” foi tamanha que vários conceitos do livro se popularizaram, como o duplipensar  – a capacidade de manter duas ideias contraditórias na mente ao mesmo tempo, mas continuar acreditando em ambas. A novilíngua é um idioma fictício deste estado totalitário, criado para diminuir a capacidade de raciocínio, modificando as palavras já existentes.

Vivemos hoje na realidade de 1984. As câmeras de vigilância nos seguem a todo momento, junto com as câmeras de celulares e computadores. Nós mesmos alimentamos a vigilância com postagens nas redes sociais. O termo orwelliano começou a ser usado para designar ações totalitárias. E o Grande Irmão ganhou sobrevida com os reality shows.

Outros livros de George Orwell que valem a pena ler são “A revolução dos bichos”, uma sátira à forma de governo stalinista; e “Na pior em Paris e Londres”, um relato sobre os anos em que Orwell trabalhou em subempregos em Paris e Londres.

P.S 1: George Orweel escreveu uma carta em 1944 em que fala sobre governos autoritários e a possibilidade de existirem nos Estados Unidos e na Inglaterra.