Cinco livros escritos por mulheres para ler no fim de semana

 

Cinco livros escritos por mulheres para ler no fim de semana

 

O fim de semana é sempre um bom momento para colocar a leitura em dia. Esta é uma seleção com oito livros curtos, menos de duzentas páginas, para ler em um fim de semana, feriado prolongado ou nas férias (ou quando você quiser). Todos os livros são escritos por mulheres, mostrando um ponto de vista feminino, muitas vezes negligenciado pela literatura.

Contos do esconderijo – Anne Frank

Anne Frank é mais conhecida pelo seu diário, mas ela também escreveu contos e ensaios. Em “Contos do esconderijo” vemos o talento em gestação de uma escritora precoce, mas que infelizmente não pode viver tempo suficiente para maturar seu dom. A jovem escritora mostra uma grande sensibilidade para captar detalhes da vida cotidiana. Estes textos foram excluídos da versão original do “Diário de Anne Frank”.

Quarto de despejo – Carolina Maria de Jesus

É por isso que eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, pobres, somos os trastes velhos.” Esta frase é do diário de Carolina Maria de Jesus, que se transformou no livro “Quarto de despejo”. Carolina Maria de Jesus vivia na favela do Canindé em São Paulo, onde tentava sobreviver como catadora de papel para sustentar os filhos.

Vivendo este duro cotidiano, Carolina relatava suas frustrações e rotina em um diário. Sua sorte mudou quando o jornalista Audálio Dantas a conheceu enquanto fazia uma reportagem e ficou impressionado com a qualidade do texto de Carolina. “Quarto de despejo” foi publicado e alcançou grande sucesso: foi traduzido e em diversos países.

A hora da estrela – Clarice Lispector

“A hora da estrela” foi o último livro escrito por Clarice Lispector. É um dos melhores livros de Clarice e um clássico da literatura brasileira que merece ser lido. O livro narra a história de Macabéa, uma alagoana que migra para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida. Com poucos recursos, Macabéa luta para se adaptar à cidade grande.

A redoma de vidro – Sylvia Plath

“A redoma de vidro” foi o único romance escrito pela poetisa americana Sylvia Plath. Na década de 50, Plath morou um mês em Nova York para trabalhar como editora na revista Mademoiselle. A experiência foi tão marcante que serviu como inspiração para o único romance de Plath.

No livro, a estudante universitária Esther Greenwood é selecionada para estagiar durante um mês em uma revista de Nova York. É a sua primeira vez em uma cidade grande, e ela tem que lidar com uma súbita liberdade e a decepção com o trabalho na revista. A ausência de sentido de sua experiência a joga num episódio de depressão.

A chave de casa – Tatiana Salem Levy

Este é o romance de estreia de Tatiana Salem Levy, uma das melhores escritoras da cena contemporânea brasileira. A autora se inspirou na história de sua família para criar uma personagem descendente de judeus-turcos. Ela recebe uma chave do avô, uma chave para a casa da família em Esmirna, na Turquia.

A procura das raízes familiares se mistura com os seus problemas de relacionamento e o passado da família durante a ditadura militar. O livro ganhou o prêmio São Paulo de Literatura – melhor livro de autor estreante – 2008.

 

 

 

 

As memórias de Olga Borelli em “Clarice Lispector – esboço para um possível retrato”

Muitas biografias sobre a escritora Clarice Lispector (1920-1977) foram feitas, como a mais recente e famosa, “Clarice,” do americano Benjamin Moser; e a biografia escrita pela pesquisadora Nádia Gotlib, “Clarice uma vida que se conta“.

Mas há uma obra pouco conhecida sobre Clarice, escrita por Olga Borelli, amiga íntima e presente em seus últimos  anos de vida. Em “Clarice Lispector – esboço para um possível retrato“, Borelli une suas memórias a textos inéditos da autora. É um livro imperdível para os fãs da escritora. Sempre há um mistério por revelar em Clarice, e neste livro entramos um pouquinho mais neste mistério.

A obra foi publicada em 1981 e não houve mais reedições. O livro pode ser comprado por um preço bem salgado em sebos ou pode ser encontrado em bibliotecas públicas (peguei emprestado na biblioteca da Universidade Federal de Santa Catarina).

 

As memórias de Olga Borelli em Clarice Lispector esboço para um possível retrato

O livro de Olga Borelli sobre Clarice não está mais disponível nas livrarias, mas pode ser encontrado em bibliotecas públicas. (Este exemplar da UFSC está um pouco surrado)

 

A vida íntima de Clarice

Os detalhes da vida cotidiana e a seleção de textos e cartas feita por Olga Borelli fazem com que o leitor sinta o pensamento de Clarice e tenha uma compreensão íntima da escritora.  Em suas memórias, Borelli reconstituiu os mínimos detalhes da vida da amiga: a cor do batom (rubro forte), a hora de acordar (entre três e cinco da manhã), o significado de Deus (Deus significa o apuramento do sonho, significa a capacidade de uma pessoa de se livrar do peso do si-mesmo).

Nos últimos anos de vida da escritora, era Borelli quem ajudava a editar os livros e a organizar os fragmentos de texto que Clarice anotava em talões de cheques, guardanapos e lenços. Foi Borelli que ajudou Clarice na estruturação do livro “Água viva“. A escritora anotou palavras e frases por três anos, mas apenas quando conheceu Olga conseguiu estruturar o livro, que é um jorro de pensamentos e sensações, sem a estrutura tradicional de enredo e trama. A própria Clarice não considerava o livro bom, e acreditava que nenhuma editora se interessaria por ele (observação: o livro é ótimo!).

 

as memórias de olga borelli em clarice lispector esboço para um possível retrato

Clarice Lispector e Olga Borelli em viagem a Buenos Aires

 

De acordo com Olga Borelli, o método de trabalho para editar uma das maiores escritoras brasileiras era “respirar junto“. E é respirando junto com Clarice e Olga que lemos “Clarice Lispector – esboço para um possível retrato“:

“Quantas vezes vi, maravilhada, o nascimento de um texto a partir da simples anotação de uma palavra! Mas também quantas vezes fui testemunha impotente de seus momentos de desespero diante do desafio do papel em branco.”

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio. Que é que eu posso escrever. Como posso anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma ideia. Cada palavra materializa o espírito. Quantas mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.

“Sua solidão foi consequência da liberdade maior a que sempre aspirou. Fazia o que queria quando queria. Não era um ser fechado, amargurado, como se divulgou. Dava declarações, quando as sabia indispensáveis, e se deixava fotografar.”

Minha própria liberdade não é livre: corre sobre trilhos invisíveis. Nem a loucura é livre. Mas também é verdade que liberdade sem uma diretiva seria uma borboleta voando no ar.

Estou no reino da fala. Escrever é lidar com a absoluta desconfiança. Escrevo como se somam 3 algarismos. A matemática da existência. O que escrevo é simples como um vôo. Um vôo vertiginoso. Êxtase?”

 

Biografia de Clarice Lispector ganha nova edição

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Em 2009, a  editora Cosac Naify lançou uma badalada biografia da escritora Clarice Lispector, feita pelo americano Benjamin Moser. O livro foi sucesso de vendas e ajudou a divulgar a escritora no exterior. Com o fim da Cosac Naify, o livro ficou um tempo esgotado mas já pode ser encontrado nas livrarias em uma reedição pela Companhia das Letras.

Moser fez uma ampla pesquisa sobre a vida de Clarice, viajando até a Ucrânia para conhecer a cidade de Tchechelnick, onde a escritora nasceu em 10 de dezembro de 1920. Os pais de Clarice, Mania e Pinkhas, e as duas irmãs mais velhas, Elisa e Tania, imigraram para o Brasil em 1922, fugindo da guerra civil na Ucrânia e da perseguição aos judeus. Durante a guerra, a família teve que se deslocar por várias cidades do interior para fugir dos pogroms, ataques de extrema violência contra os judeus de uma comunidade, com o estupro de mulheres, assassinatos de crianças e de adultos e saques.

Num desses deslocamentos, a família Lispector se instalou na cidade de Haysyn, que também foi atacada. A mãe de Clarice, Mania Lispector, foi atacada em um pogrom e sofreu consequências que causaram sua morte prematura aos 42 anos. De acordo com Benjamin Moser, Elisa Lispector escreveu em suas memórias não publicadas: “Foi o trauma decorrente de um daqueles fatídicos pogroms que invalidou minha mãe”.

Na biografia de Moser, é abordada pela primeira vez o que teria causado a doença que causou tanto sofrimento a Mania. Para o autor, Mania foi estuprada por soldados soviéticos e contraiu sífilis, e não teve o tratamento adequado. A própria Clarice teria confidenciado a uma amiga íntima os horrores que a mãe teria passado durante o pogrom. Não há nenhum registro das três irmãs falando sobre o incidente, porém a família da escritora nunca contestou as informações da biografia.

Outra teoria que Moser lança é a de que Clarice foi concebida para “curar a mãe”. No interior da Ucrânia, a população acreditava que forças sobrenaturais eram causadoras de doenças, além da crença que uma gravidez pode curar um enfermidade. Clarice escreveu sobre isso:

“Fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. [..] Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe”.

Benjamin Moser fez uma restituição cuidadosa das agruras da família Lispector até chegar ao Brasil. Sabemos que após o nascimento de Clarice a doença de Mania começou a se agravar, e Pinkhas ficou acamado com febre tifoide. Assim que o pai ficou curado, a família fugiu para a Romênia, com Pinkhas “carregando a bagagem da família e a pequena Clarice amarrada a seu peito”. Elisa não tinha sapatos, e improvisava com caçarolas. A família conseguiu chegar em segurança ao Brasil em 1922.

Os Lispector se instalaram primeiro em Maceió, mas depois de três anos migraram para Recife. O pai trabalhava como mascate e a saúde de Mania só piorava. Clarice inventava histórias para entreter a mãe, que sempre tinham um final mágico que a curavam. A última mudança foi para o Rio de Janeiro, quando Clarice tinha 15 anos. Pinkhas, que adotou no Brasil o nome de Pedro, morreu aos 55 anos, após complicações de uma cirurgia de vesícula. Os pais de Clarice não viveram o suficiente para ver a consagração da filha como escritora.

Clarice e a literatura

O interesse por literatura começou cedo na vida da escritora, que escreveu um conto que não conseguiu terminar aos 13 anos. Já inventava histórias desde criança, e as leituras na adolescência a influenciaram, como “O lobo da estepe”, de Herman Hesse, e “Crime e Castigo” de Dostoievski. O primeiro conto publicado foi em 25 de maio de 1940, “Triunfo”, na Revista Pan, com apenas 19 anos.

Na biografia, Benjamin Moser aborda as influências de Clarice na hora de escrever.O tema do exílio, de se sentir estrangeiro e estranho, além dos danos psicológicos causados pelo pogrom, que resultaram numa depressão e dificuldade de se relacionar com outras pessoas, mesmo que Clarice não tenha presenciado um.

Como pode ser visto em muitas protagonistas dos livros de Clarice, há uma busca pela liberdade, uma inadequação, principalmente à vida de dona de casa (e no caso de Clarice, à vida de mulher de diplomata).

O judaísmo e uma busca por Deus, ou o sentido da vida, também são presentes na obra de Clarice. Em “A hora da estrela”, a personagem Macabéa tem seu nome inspirado nos macabeus, cuja história bíblica é celebrada no Chanucá.  “A hora da estrela” foi o último livro publicado pela escritora, em outubro de 1977. Alguns dias depois, foi internada com câncer no ovário. Morreu no dia 9 de dezembro daquele mesmo ano.

A obra de Clarice Lispector, muitas vezes tida como “hermética”, foi se popularizando ao longo dos anos. É um dos escritores brasileiros mais traduzidos no exterior. O que não fez com que o mistério Clarice fosse resolvido ao longo dos anos. Seu jeito reservado e tímido, os muitos anos morando no exterior com o marido e a relutância em falar sobre sua origem russa fizeram com que muitos mitos fosse criados em torno da escritora. Ela sempre reiterou sua brasilidade, apesar de muitos insistirem que era estrangeira, por causa de seu estranho sotaque (nordestino com um leve problema de dicção) e de suas roupas.

Nos últimos anos, temos visto um crescente número de obras sobre Clarice, coletâneas de cartas que ela trocava com amigos e irmãos, crônicas de jornal e artigos para o público feminino sob o pseudônimo de Helen Palmer. Mesmo com a publicação de inúmeras biografias, como a de Benjamin Moser, a sensação que temos ao ler essa minuciosa biografia é de que a alma atormentada de Clarice Lispector nunca poderá ser desnudada por completo.

Outras biografias sobre Clarice Lispector

A obra de Benjamin Moser não é a única biografia sobre a escritora. Há o livro da amiga íntima dos últimos anos, Olga Borelli (Esboço para um possível retrato – Clarice Lispector, Ed. Nova Fronteira, 1981). Há também a obra de Nádia Gotlib,  “Clarice: uma vida que se conta” (Edusp, 2009), e a tese de doutorado da canadense Claire Varin, “Línguas de fogo” (Ed. Limiar, 2002). “Eu sou uma pergunta. Uma biografia de Clarice Lispector” (Rocco, 1999), foi escrita por Teresa Montero.

Para conhecer mais sobre a escritora, também há a única entrevista que Clarice gravou para a televisão, em 1977.

O processo de criação de três personagens incríveis da literatura

O processo de criação de uma obra literária é complexo. Muitas vezes, a faísca criativa vem num sonho ou  até mesmo escrevendo uma outra história. Abaixo, o relato de como três grandes escritores criaram a suas obras-primas.

 

1. Anna Karenina 

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A atriz Keira Knightley interpreta Anna Karenina, a icônica personagem de Tolstói, em filme homônimo de 2012

O escritor russo Leon Tolstói estava quase adormecendo no sofá de sua casa quando teve uma visão: um cotovelo nu de mulher. Tolstói começou a imaginar a figura da mulher em torno deste cotovelo, usando um vestido de baile e com um rosto triste. Ele imaginou na hora que gostaria de escrever sobre esta mulher.

Apesar da visão de Tolstói, acredita-se que ele usou dois modelos femininos reais para compor a personagem Anna Karenina. Uma delas seria a filha do poeta Alexander Pushkin, Maria Hartung, que Tolstói conheceu num jantar. Outra mulher que teria inspirado o escritor foi a amante de um vizinho que se jogou na frente de um trem, em 1872, após descobrir que havia sido trocada por outra.

O fato é que Tolstói começou a escrever “Anna Karenina” em 1873, estimulado pela leitura de um livro de  Alexander Pushkin. O escritor achava que ninguém se interessaria por uma história de adultério, mas “Anna Karenina” continua na imaginação dos leitores atuais.

2. Macabéa

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Macabéa é a personagem principal do livro “A hora da estrela”, de Clarice Lispector. O filme baseado no livro e dirigido por Suzana Amaral ganhou vários prêmios internacionais

Macabéa é uma alagoana que migra para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida. Estudou apenas até o terceiro ano primário, mas aprendeu a datilografar. A própria Clarice Lispector explica no livro “A hora da estrela” como foi a gênese de Macabéa:  “É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina. Sem falar que eu em menino me criei no Nordeste.”

Na biografia de Clarice escrita por Benjamin Moser, temos várias pistas de como a escritora concebeu “A hora da estrela”. Lispector ia com frequência à Feira de São Cristóvão no Rio de Janeiro com sua amiga Olga Borelli. Muitos migrantes nordestinos iam neste local; e foi assim, observando as pessoas da feira, que a escritora criou o personagem José Olímpico, namorado de Macabéa. De acordo com Borelli, Clarice escreveu na feira mesmo um esboço do personagem.

Além das lembranças da infância vivida no Nordeste, Clarice Lispector usou referências judaicas no livro. O nome Macabéa deriva de Judas Macabeus, herói bíblico da “revolta dos macabeus”, celebrada pelos judeus durante o  Chanucá.

3. Alice

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“Alice no país das maravilhas” teve como inspiração as histórias que Lewis Carrol contava para a pequena Alice Liddell

 

Lewis Carroll trabalhava na universidade de Oxford quando Henry Liddell foi eleito reitor de Christ Church, em 1856. A família Liddell se mudou para Oxford com suas três filhas pequenas e Carroll logo estabeleceu um forte vínculo com a família. A relação  de Carroll com as crianças sempre foi motivo de controvérsia, como você pode ler aqui.

Num dia de verão, Carroll estava passeando de barco pelo rio Tâmisa com a pequena Alice Liddell, 1o anos, que pediu para que ele contasse uma história. Carroll começou a inventar um enredo em que a própria Alice era a protagonista. Carroll registrou a história por escrito a pedido da criança. Depois de um ano, em outubro de 1863, entregou o manuscrito à editora Macmillan. “Alice no país das maravilhas” foi publicado em novembro de 1865.

Referências:

501 grandes escritores. Ed. Sextante: 2009.

A hora da estrela. Clarice Lispector. Ed. Rocco, 1998.

Clarice,. Benjamin Moser. Ed. Cosac Naify: 2001.

Conversando com Mrs. Dalloway. Celia Blue Johnson. Ed.Casa da Palavra: 2013.