Um soneto de Camões

poesia camões

Tanto de meu estado me acho incerto,
que em vivo ardor tremendo estou de frio;
sem causa, juntamente choro e rio,
o mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto, um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando,
num’hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar um’ hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora

Um poema de Camões

Luís Vaz de Camões Que dias há que na alma me tem posto Um não sei quê, que nasce não sei onde,  Vem não sei como, e dói não sei porquê

 

Busque Amor novas artes, novo engenho
Para matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Pois mal me tirara o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Pois não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.

*Soneto publicado do livro  Sonetos para amar o amor, com poesias de Luís Vaz de Camões, selecionadas pelo escritor Sergio Faraco.

Título: Sonetos para amar o amor
Autor: Luís Vaz de Camões – seleção, organização e notas de Sergio Faraco.
Editora: L&PM
Ano: 2010

Poesias de Bilac e Camões na música pop

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Para curtir o feriado, selecionei alguns poemas que serviram de inspiração para bandas de rock/pop. Ouvir os poemas entre as notas musicais é uma forma diferente de sentir, ouvir e ler poesia.

Amor é um fogo que arde sem se ver

Renato Russo, vocalista da banda Legião Urbana, usou trechos da carta de Paulo aos Coríntios, do Novo Testamento, e de um poema do poeta português Luís Vaz de Camões para compor a letra de “Monte Castelo“. A música é uma homenagem aos soldados brasileiro que lutaram na Segunda Guerra na batalha de Monte Castello, na Itália. A canção faz parte do álbum “Quatro estações”, de 1989.

 

 

Monte Castelo – Legião Urbana

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor, eu nada seria

É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece

O amor é o fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor, eu nada seria

É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É um não contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder

É um estar-se preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É um ter com quem nos mata a lealdade
Tão contrário a si é o mesmo amor

Estou acordado e todos dormem
Todos dormem, todos dormem
Agora vejo em parte
Mas então veremos face a face

É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor, eu nada seria

Ouvir Estrelas – Olavo Bilac

Em 1998, a cantora Paula Toller, vocalista do Kid Abelha, adaptou o poema Ouvir Estrelas, do poeta parnasiano Olavo Bilac (1865-1918). A música faz parte do disco “Autolove”.

 

 

Ouvir Estrelas – Olavo Bilac

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite,
enquanto a Via-Láctea, como um pátio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo? ”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e e de entender estrelas”.