Biografia: Jane Austen – uma vida revelada

As obras de Jane Austen são lidas por milhões de pessoas em todo o mundo. Ela foi uma das escritoras que melhor retratou os costumes da aristocracia inglesa do século 19.

O mundo em que a escritora viveu na infância e na vida adulta foi a inspiração para clássicos como Razão e sensibilidade e Orgulho e preconceito. Este mundo era uma Inglaterra conservadora, onde o valor social das mulheres era regido pelo casamento e o dote. Mesmo com a evolução das condições de vida das mulheres, os leitores modernos continuam a se encantar com as personagens de Austen.

Catherine Reef, em sua biografia Jane Austen – uma vida revelada, mostra como os livros – e a própria vida de Austen – giraram em torno do conflito entre o amor verdadeiro e casamentos arranjados, determinados pela classe social.

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Jane Austen e a vida de escritora

Jane Austen começou a escrever ainda na infância. Seu pai, um clérigo do interior da Inglaterra, a incentivava a ler e a escrever, o que não era muito comum na época. As mulheres eram educadas para o casamento e não tinham direito à herança. Este fato influenciou a vida e os escritos de Austen, que só começou a fazer sucesso financeiro como escritora depois dos 30 anos. A maioria das obras de Austen foram publicadas sob pseudônimo. Quando ela estava começando a se tornar conhecida, morreu prematuramente aos 41 anos.

As mulheres da classe social de Jane Austen não trabalhavam. Havia uma série de regras sociais que a aristocracia e as classes mais abastadas tinham que seguir. Os casamentos eram arranjados, e a própria Jane recusou propostas por não amar os pretendentes (atitude incomum para época). A escritora foi hábil em transpor para os livros este universo em obras como Orgulho e preconceito.

Um livro indicado para todos os fãs de Jane Austen e para quem quer entender mais sobre a Inglaterra do século 19.


Título:
 Jane Austen – uma vida revelada
Autora: Catherine Reef
Tradutora: Kátia Hanna
Editora: Novo Século

Resenha: O castelo de vidro – Jeannette Walls

Resenha: O castelo de vidro – Jeannette Walls

O livro da jornalista Jeannette Walls foi adaptado para o cinema

 

Após uma infância difícil, a jornalista americana Jeannette Walls construiu um mundo seguro e confortável. Usava pérolas e morava em um apartamento na Park Avenue, um dos endereços mais sofisticados de Nova York. Em um final de tarde, presa no engarrafamento enquanto ia para uma festa, viu sua mãe revirando uma caçamba de lixo. A mãe de Jeannette, Rose Mary Walls, já havia recusado ajuda várias vezes e preferia continuar nas ruas.

A renomada jornalista, que assinava uma coluna na revista New York, se sentindo envergonhada, não conseguiu cumprimentar sua mãe. A visão de sua mãe catando comida no lixo a perturbara demais. Voltou para casa e, mais tarde, almoçou com Rose Mary Walls. Jeannette queria ajudar de alguma forma, mas ela apenas murmurou: “Seu pai e eu somos quem somos. Aceite isso”.

Jeannette havia construído uma carreira de sucesso no jornalismo, porém nunca havia contado a ninguém sobre seu passado. Em uma entrevista ao jornal The New York Times, Jeannette afirmou que tinha uma coluna de fofocas e era boa em revelar o segredo dos outros, mas ela mesma mantinha em segredo sua vida. O livro O castelo de vidro é uma tentativa de aceitação e também de fazer as pazes com o passado.

 

Vida nômade da família retratada no filme “O castelo de vidro”

Quando se mudou para Nova York ainda adolescente, Jeannette procurava uma vida totalmente diferente da que teve na infância e na adolescência. Seu pai, Rex Walls, fora militar da aeronáutica e fazia bicos como eletricista. Rose Mary Walls era uma professora que preferia o trabalho artístico: pintava e escrevia contos e romances.

A trajetória nômade da família Walls pelos Estados Unidos também virou filme, lançado em 2017. O casal não tinha endereço fixo e peregrinava pelos Estados Unidos de acordo com as oportunidades e a perseguição dos cobradores (que Rex dizia serem agentes do FBI).

Os três filhos do casal foram criados num ambiente de liberdade, mas também beirando a negligência. Rex era alcoólatra e sempre perdia empregos ou se metia em confusões por causa do vício. Rose vivia entre altos e baixos emocionais e tinha opiniões bem particulares sobre a vida e como as crianças deveriam ser educadas. Enquanto toda a família passava fome, Rose se recusava a trabalhar como professora. Nas poucas vezes em que arranjou trabalho, foi por insistência dos filhos, que até ajudavam a mãe a corrigir as lições.

As residências da família eram sempre improvisadas. Carros em estacionamentos, antigas estações de trem. Os Walls viveram momentos difíceis, mas as dificuldades também eram travestidas de lirismo. Como não havia dinheiro suficiente para os presentes de Natal, Rex pediu que cada filho escolhesse uma estrela no céu como presente.

Jeannette Walls escreveu um livro memorável. Os capítulos são bem encadeados e envolvem o leitor no mundo caótico da família. Apesar dos momentos difíceis, a autora torna o livro menos pesado ao usar uma linguagem bem humorada e adotar o ponto de vista ingênuo e simples de uma criança.

Ubu editora publica biografia da poetisa Juana Inés

biografia da poetisa Juana Inés

Capa do livro “Sor Juana Inés de la Cruz ou As armadilhas da fé”, escrito pelo Nobel de literatura Octavio Paz

 

A editora Ubu relança no mercado brasileiro um ensaio sobre a poetisa barroca espanhola Juana Inés – “Sor Juana Inés de la Cruz ou As armadilhas da fé”. O livro, que foi escrito pelo Nobel de literatura Octavio Paz, mistura história, crítica literária e biografia para resgatar a história da primeira escritora de língua espanhola na América.

Inés foi uma das grandes poetisas do período barroco espanhol e era conhecida pela grande inteligência e virtuosismo com as palavras.

Juana Inés nasceu Juana Ramírez de Asbaje em San Miguel de Nepantha, no México.  Era filha bastarda de Pedro Manuel de Asbaje y Vargas Machuca com a criolla Isabel Ramírez de Santillana. Seu pai abandonou a família e a mãe se casou novamente.

Precoce e com grande curiosidade intelectual, educou-se na biblioteca do avô. Leu os clássicos gregos e romanos, filosofia e teologia. Também estudou astrologia e matemática. Infelizmente, na época em que Juana Inés viveu, as mulheres não tinham acesso aos estudos formais. Ela chegou a considerar se vestir de homem para entrar na universidade. Teve aulas de latim e também aprendeu a falar o idioma indígena nahuatl, o que era causa de grande escândalo.

Além da obra de Octavio Paz, podemos saber mais sobre a vida da poetisa na série “Juana Inés, disponível na Netflix.

As memórias de Olga Borelli em “Clarice Lispector – esboço para um possível retrato”

Muitas biografias sobre a escritora Clarice Lispector (1920-1977) foram feitas, como a mais recente e famosa, “Clarice,” do americano Benjamin Moser; e a biografia escrita pela pesquisadora Nádia Gotlib, “Clarice uma vida que se conta“.

Mas há uma obra pouco conhecida sobre Clarice, escrita por Olga Borelli, amiga íntima e presente em seus últimos  anos de vida. Em “Clarice Lispector – esboço para um possível retrato“, Borelli une suas memórias a textos inéditos da autora. É um livro imperdível para os fãs da escritora. Sempre há um mistério por revelar em Clarice, e neste livro entramos um pouquinho mais neste mistério.

A obra foi publicada em 1981 e não houve mais reedições. O livro pode ser comprado por um preço bem salgado em sebos ou pode ser encontrado em bibliotecas públicas (peguei emprestado na biblioteca da Universidade Federal de Santa Catarina).

 

As memórias de Olga Borelli em Clarice Lispector esboço para um possível retrato

O livro de Olga Borelli sobre Clarice não está mais disponível nas livrarias, mas pode ser encontrado em bibliotecas públicas. (Este exemplar da UFSC está um pouco surrado)

 

A vida íntima de Clarice

Os detalhes da vida cotidiana e a seleção de textos e cartas feita por Olga Borelli fazem com que o leitor sinta o pensamento de Clarice e tenha uma compreensão íntima da escritora.  Em suas memórias, Borelli reconstituiu os mínimos detalhes da vida da amiga: a cor do batom (rubro forte), a hora de acordar (entre três e cinco da manhã), o significado de Deus (Deus significa o apuramento do sonho, significa a capacidade de uma pessoa de se livrar do peso do si-mesmo).

Nos últimos anos de vida da escritora, era Borelli quem ajudava a editar os livros e a organizar os fragmentos de texto que Clarice anotava em talões de cheques, guardanapos e lenços. Foi Borelli que ajudou Clarice na estruturação do livro “Água viva“. A escritora anotou palavras e frases por três anos, mas apenas quando conheceu Olga conseguiu estruturar o livro, que é um jorro de pensamentos e sensações, sem a estrutura tradicional de enredo e trama. A própria Clarice não considerava o livro bom, e acreditava que nenhuma editora se interessaria por ele (observação: o livro é ótimo!).

 

as memórias de olga borelli em clarice lispector esboço para um possível retrato

Clarice Lispector e Olga Borelli em viagem a Buenos Aires

 

De acordo com Olga Borelli, o método de trabalho para editar uma das maiores escritoras brasileiras era “respirar junto“. E é respirando junto com Clarice e Olga que lemos “Clarice Lispector – esboço para um possível retrato“:

“Quantas vezes vi, maravilhada, o nascimento de um texto a partir da simples anotação de uma palavra! Mas também quantas vezes fui testemunha impotente de seus momentos de desespero diante do desafio do papel em branco.”

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio. Que é que eu posso escrever. Como posso anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma ideia. Cada palavra materializa o espírito. Quantas mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.

“Sua solidão foi consequência da liberdade maior a que sempre aspirou. Fazia o que queria quando queria. Não era um ser fechado, amargurado, como se divulgou. Dava declarações, quando as sabia indispensáveis, e se deixava fotografar.”

Minha própria liberdade não é livre: corre sobre trilhos invisíveis. Nem a loucura é livre. Mas também é verdade que liberdade sem uma diretiva seria uma borboleta voando no ar.

Estou no reino da fala. Escrever é lidar com a absoluta desconfiança. Escrevo como se somam 3 algarismos. A matemática da existência. O que escrevo é simples como um vôo. Um vôo vertiginoso. Êxtase?”

 

Biografia de Clarice Lispector ganha nova edição

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Em 2009, a  editora Cosac Naify lançou uma badalada biografia da escritora Clarice Lispector, feita pelo americano Benjamin Moser. O livro foi sucesso de vendas e ajudou a divulgar a escritora no exterior. Com o fim da Cosac Naify, o livro ficou um tempo esgotado mas já pode ser encontrado nas livrarias em uma reedição pela Companhia das Letras.

Moser fez uma ampla pesquisa sobre a vida de Clarice, viajando até a Ucrânia para conhecer a cidade de Tchechelnick, onde a escritora nasceu em 10 de dezembro de 1920. Os pais de Clarice, Mania e Pinkhas, e as duas irmãs mais velhas, Elisa e Tania, imigraram para o Brasil em 1922, fugindo da guerra civil na Ucrânia e da perseguição aos judeus. Durante a guerra, a família teve que se deslocar por várias cidades do interior para fugir dos pogroms, ataques de extrema violência contra os judeus de uma comunidade, com o estupro de mulheres, assassinatos de crianças e de adultos e saques.

Num desses deslocamentos, a família Lispector se instalou na cidade de Haysyn, que também foi atacada. A mãe de Clarice, Mania Lispector, foi atacada em um pogrom e sofreu consequências que causaram sua morte prematura aos 42 anos. De acordo com Benjamin Moser, Elisa Lispector escreveu em suas memórias não publicadas: “Foi o trauma decorrente de um daqueles fatídicos pogroms que invalidou minha mãe”.

Na biografia de Moser, é abordada pela primeira vez o que teria causado a doença que causou tanto sofrimento a Mania. Para o autor, Mania foi estuprada por soldados soviéticos e contraiu sífilis, e não teve o tratamento adequado. A própria Clarice teria confidenciado a uma amiga íntima os horrores que a mãe teria passado durante o pogrom. Não há nenhum registro das três irmãs falando sobre o incidente, porém a família da escritora nunca contestou as informações da biografia.

Outra teoria que Moser lança é a de que Clarice foi concebida para “curar a mãe”. No interior da Ucrânia, a população acreditava que forças sobrenaturais eram causadoras de doenças, além da crença que uma gravidez pode curar um enfermidade. Clarice escreveu sobre isso:

“Fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. [..] Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe”.

Benjamin Moser fez uma restituição cuidadosa das agruras da família Lispector até chegar ao Brasil. Sabemos que após o nascimento de Clarice a doença de Mania começou a se agravar, e Pinkhas ficou acamado com febre tifoide. Assim que o pai ficou curado, a família fugiu para a Romênia, com Pinkhas “carregando a bagagem da família e a pequena Clarice amarrada a seu peito”. Elisa não tinha sapatos, e improvisava com caçarolas. A família conseguiu chegar em segurança ao Brasil em 1922.

Os Lispector se instalaram primeiro em Maceió, mas depois de três anos migraram para Recife. O pai trabalhava como mascate e a saúde de Mania só piorava. Clarice inventava histórias para entreter a mãe, que sempre tinham um final mágico que a curavam. A última mudança foi para o Rio de Janeiro, quando Clarice tinha 15 anos. Pinkhas, que adotou no Brasil o nome de Pedro, morreu aos 55 anos, após complicações de uma cirurgia de vesícula. Os pais de Clarice não viveram o suficiente para ver a consagração da filha como escritora.

Clarice e a literatura

O interesse por literatura começou cedo na vida da escritora, que escreveu um conto que não conseguiu terminar aos 13 anos. Já inventava histórias desde criança, e as leituras na adolescência a influenciaram, como “O lobo da estepe”, de Herman Hesse, e “Crime e Castigo” de Dostoievski. O primeiro conto publicado foi em 25 de maio de 1940, “Triunfo”, na Revista Pan, com apenas 19 anos.

Na biografia, Benjamin Moser aborda as influências de Clarice na hora de escrever.O tema do exílio, de se sentir estrangeiro e estranho, além dos danos psicológicos causados pelo pogrom, que resultaram numa depressão e dificuldade de se relacionar com outras pessoas, mesmo que Clarice não tenha presenciado um.

Como pode ser visto em muitas protagonistas dos livros de Clarice, há uma busca pela liberdade, uma inadequação, principalmente à vida de dona de casa (e no caso de Clarice, à vida de mulher de diplomata).

O judaísmo e uma busca por Deus, ou o sentido da vida, também são presentes na obra de Clarice. Em “A hora da estrela”, a personagem Macabéa tem seu nome inspirado nos macabeus, cuja história bíblica é celebrada no Chanucá.  “A hora da estrela” foi o último livro publicado pela escritora, em outubro de 1977. Alguns dias depois, foi internada com câncer no ovário. Morreu no dia 9 de dezembro daquele mesmo ano.

A obra de Clarice Lispector, muitas vezes tida como “hermética”, foi se popularizando ao longo dos anos. É um dos escritores brasileiros mais traduzidos no exterior. O que não fez com que o mistério Clarice fosse resolvido ao longo dos anos. Seu jeito reservado e tímido, os muitos anos morando no exterior com o marido e a relutância em falar sobre sua origem russa fizeram com que muitos mitos fosse criados em torno da escritora. Ela sempre reiterou sua brasilidade, apesar de muitos insistirem que era estrangeira, por causa de seu estranho sotaque (nordestino com um leve problema de dicção) e de suas roupas.

Nos últimos anos, temos visto um crescente número de obras sobre Clarice, coletâneas de cartas que ela trocava com amigos e irmãos, crônicas de jornal e artigos para o público feminino sob o pseudônimo de Helen Palmer. Mesmo com a publicação de inúmeras biografias, como a de Benjamin Moser, a sensação que temos ao ler essa minuciosa biografia é de que a alma atormentada de Clarice Lispector nunca poderá ser desnudada por completo.

Outras biografias sobre Clarice Lispector

A obra de Benjamin Moser não é a única biografia sobre a escritora. Há o livro da amiga íntima dos últimos anos, Olga Borelli (Esboço para um possível retrato – Clarice Lispector, Ed. Nova Fronteira, 1981). Há também a obra de Nádia Gotlib,  “Clarice: uma vida que se conta” (Edusp, 2009), e a tese de doutorado da canadense Claire Varin, “Línguas de fogo” (Ed. Limiar, 2002). “Eu sou uma pergunta. Uma biografia de Clarice Lispector” (Rocco, 1999), foi escrita por Teresa Montero.

Para conhecer mais sobre a escritora, também há a única entrevista que Clarice gravou para a televisão, em 1977.

Henry & June: o diário de um amor livre

“Um rosto surpreendentemente branco, olhos ardentes. June Mansfield, a esposa de Henry. Quando ela veio em minha direção da escuridão do meu jardim até a luz da entrada, vi pela primeira vez a mulher mais linda da Terra.

Anos atrás, quando tentei imaginar uma verdadeira beleza, criara uma imagem em minha mente exatamente de tal mulher. Até imaginara que ela seria judia. Já conhecia há muito tempo a cor de sua pele, seu perfil, seus dentes.

A beleza dela sobrepujou-me. Quando me sentei à sua frente, senti que faria qualquer loucura por ela, qualquer coisa que ela me pedisse. Henry esvaneceu-se. Ela era cor, brilho, estranheza.”

Henry & June: diários não expurgados de Anaïs Nin. Anaïs Nin. Porto Alegre, RS: Ed.L&PM, 2014.

Essa foi a primeira impressão que a escritora Anaïs Nin teve de June, esposa do escritor americano Henry Miller, quando a conheceu em dezembro de 1931. Naquele mesmo ano, Anaïs Nin e Miller iniciaram um relacionamento amoroso nada convencional.

Anaïs Nin nasceu em 21 de fevereiro de 1903, na França. Seu pai era cubano e a mãe dinamarquesa. Viveu durante a infância na Europa e depois nos Estados Unidos. Em 1923, Nin se casou com o banqueiro Hugh Guiler e voltou a Paris. Ela e Hugh viviam um casamento aberto numa época em que isso era considerado tabu.

No período em que conheceu Miller, Anaïs Nin estava começando sua carreira como escritora de ficção. A atração entre ambos foi intensa e logo começaram um romance. O encontro com Henry Miller influenciou a escrita e a vida de Nin, como ela mesma afirma: “Erotismo e sensualidade agora tinham um grande significado para mim”. O encontro também foi significativo para Miller, que escreveu o clássico “Trópico de câncer” durante o seu período em Paris.

Tudo ia bem entre os dois até a chegada de June. Anaïs Nin sentiu uma atração imediata e desenvolveu uma obsessão por June. Apesar do ambiente liberal, Henry sentia ciúmes da intimidade entre as duas mulheres, e Nin, do amor de Miller por June.

“Mas que jogo soberbo nós três estamos jogando. Quem é o demônio? Quem é o mentiroso? Quem é o ser humano? Quem é o mais inteligente? Quem é o mais forte? Quem ama mais? Somos três egos imensos lutando por dominação ou por amor, ou estas coisas estão misturadas?”

Henry & June: diários não expurgados de Anaïs Nin. Anaïs Nin. Porto Alegre, RS: Ed.L&PM, 2014.

“Henry & June” e os diários de Anaïs Nin

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O livro foi adaptado para o cinema em 1990 pelo diretor Philip Kaufman

O relacionamento com Henry e June foi contado em detalhes nos diários de Anaïs Nin. Porém, a autora excluiu esse período quando os diários começaram a ser publicados, a partir de 1969, para preservar o marido. “Henry & June” foi publicado na década de 1980, após a morte de Nin. Os eventos narrados no livro vão de outubro de 1931 a outubro de 1932. Além do triângulo amoroso, Nin escreve sobre suas experiências com a psicanálise, ainda incipiente, e as crises no casamento com Hugh.

Apesar de ter se aventurado na ficção, com obras eróticas como “Uma espiã na casa do amor”, a maior obra de Anaïs Nin foram os diários. Neles, a autora relata sem pudores suas descobertas sexuais e os altos e baixos do casamento com o banqueiro Hugh Guiler. Nin reflete sobre a condição da mulher, o amor e o desejo sexual, aprofundados pela psicanálise (Nin inclusive tornou-se psicanalista). A escritora falou sobre os diários nesta entrevista.

O livro Henry & June  é um extrato dos diários editados para contar o caso com os Miller. Como os demais diários da autora, entramos no mundo íntimo desses “personagens”, nos dilemas  de Nin à medida que se entrega a Henry. Vemos o processo de criação dos dois escritores, as trocas intelectuais. E o efeito desagregador que June provoca nos dois.

A escrita de Anaïs Nin é concisa, sem sentimentalismos. Os diários tem um ritmo de ficção, o leitor se envolve com as descobertas da escritora e a honestidade em analisar os próprios sentimentos. As descrições da vida em Paris na década de 30 também são interessantes.

O livro de Anaïs Nin foi adaptado para o cinema em 1990 pelo diretor Philip Kaufman. No filme, a atriz Uma Thurman interpreta June, e a atriz portuguesa Maria de Medeiros, Anaïs Nin.