Resenha: Objetos cortantes – Gillian Flynn

A escritora americana Gillian Flynn ganhou fama internacional com o livro Garota Exemplar, lido por milhões de pessoas e adaptado para o cinema pelo diretor David Fincher. Porém, antes de criar a sombria Amy Dunne, Gillian Flynn estreou no mundo dos livros com o policial “Objetos Cortantes”, obra muito mais interessante do que “Garota Exemplar”.

Depois de um período em uma instituição psiquiátrica, a repórter Camille Preaker volta à pequena cidade onde passou a infância para investigar o desaparecimento de uma garota de 10 anos. Porém, o retorno ao trabalho e à cidade onde nasceu a fazem relembrar dos problemas da infância, da morte da irmã e do relacionamento turbulento com a mãe.

 

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A princípio relutante, a jornalista se envolve com o caso da garota desaparecida e permanece em Wind Gap na casa da mãe, Adora. O convívio familiar e com antigos colegas de escola disparam os gatilhos da memória de Camille. Foi durante a adolescência que ela começou a escrever palavras no próprio corpo. Usava facas, pinças, qualquer objeto cortante para se ferir.

As mulheres más de Gillian Flynn

A escritora Gillian Flynn tem um talento especial para criar personagens femininas controversas e sombrias. São mulheres que encontramos na vida real: com problemas psiquiátricos, mães tóxicas para os filhos, adolescentes sem caráter. Nada de heroínas ou mocinhas de novela.

Gillian Flynn vai traçando um panorama da pacata cidade do interior, sem crimes, aparentemente segura, mas cheia de segredos e pequenas maldades entre os habitantes. O machismo é tão naturalizado que crimes como estupro são considerados corriqueiros, inclusive pelas vítimas. O bullying e a competição entre os adolescentes são incentivados e vistos como algo normal. Há algo podre e todos fingem não ver

O livro tem um bom ritmo e personagens e tramas mais bem amarrados que o mega sucesso “Garota Exemplar”. O crime é solucionado, mas não há redenção para a protagonista. A perturbação causada pela leitura de  “Objetos cortantes” permanece com o leitor após o fim. Assim como outras obras da escritora, o livro será adaptado para a TV pela HBO, com a atriz Amy Adams no papel principal (leia a notícia aqui).

Indicados ao Oscar 2017: A chegada

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Amy Adams interpreta uma linguista que tem como missão entrar em contato com extraterrestres

“La La Land” tem tudo para ser o grande campeão do Oscar 2017, com 14 indicações, alcançando o feito de “Titanic”. Mas outra película que foi indicada para a categoria de “Melhor Filme” e que merece atenção é “A chegada”, um filme que vai ser discutido por muito tempo, graças à complexidade da trama e a quantidade de temas que evoca.

O filme foi baseado no conto “História da sua vida“, do escritor americano Ted Chiang e dirigido pelo diretor Dennis Villeneuve (que já dirigiu os filmes “Sicário” e “Os Suspeitos”.  O livro com o conto de Ted Chiang foi lançado ano passado no Brasil pela editora Intrínseca.

A chegada

“A chegada” é sobre como a linguagem é importante para a construção das relações sociais e para o entendimento entre culturas diferentes. É a linguagem que nos permite comunicar o que sentimos e pensamos, é através dela que materializamos ideias e projetos no mundo real.

É por meio da linguagem também que nos comunicamos com outras sociedades e povos. Na maioria das vezes, essa língua é uma outra, como o inglês ou o francês. E esta comunicação muitas vezes truncada e de difícil tradução pode causar problemas, como conflitos e, nos piores casos, a guerra.

No filme, a Terra recebe a visita de 12 naves alienígenas que se posicionam em pontos estratégicos do planeta (claro, uma delas pousa nos Estados Unidos). Os militares americanos iniciam um processo para entrar em contato com esses alienígenas e descobrir quais são suas intenções.

A linguista Louise Banks (interpretada por Amy Adams) é chamada pelo Exército para estabelecer uma comunicação com esses seres. A nave é aberta por algumas horas durante o dia e, neste período, a equipe liderada pela Dr. Louise Banks e pelo Dr. Iam (Jeremy Renner) entra na nave para tentar descobrir o que esses seres querem na Terra. À medida que os encontros acontecem, a linguista consegue estabelecer parâmetros para traduzir a língua dos heptapodes.

Eles conseguem criar um dicionário para os termos da língua dos heptapodes, mas o grande impasse chega quando finalmente a pergunta fatal é feita: qual o objetivo deles na Terra? Sem entregar os detalhes da trama, a resposta à esta pergunta exige não apenas as habilidades profissionais da Dra. Louise Banks, mas também serenidade dos líderes políticos e a capacidade de agir sem preconceitos.

O filme não tem uma estrutura linear, o que lembra muito o idioma dos heptapodes. O espectador demora um pouco para se situar e acompanhar todos os passos do pensamento da Dra. Louise. A chegada é um filme de ficção científica diferente, sem grandes efeitos especiais, futurismos e batalhas. Mas consegue fazer com que pensemos na nossa condição humana e como nos relacionamos com o outro, com culturas diferentes.

Amy Adams fez uma boa interpretação, com uma boa mistura de racionalidade e emoção. A atriz era uma das grandes apostas dos críticos para o Oscar de melhor atriz, mas infelizmente ficou de fora. O diretor Dennis Villeneuve ficou revoltado com o fato de Amy Adams, que interpreta a protagonista do filme, ter sido esnobada pelo Oscar 2017.