“Frantumaglia” reúne artigos e entrevistas da escritora Elena Ferrante

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A editora Intrínseca publicou nesta semana o livro “Frantumaglia: os caminhos de uma escritora”, livro que reúne cartas, entrevistas e artigos sobre o processo criativo da escritora Elena Ferrante. Esta autora italiana virou fenômeno global com a série napolitana, um conjunto de quatro livros narrados pela personagem Elena Greco, que recorda a conflituosa amizade com Lina, sua amiga de infância.

Não se sabe quem é a escritora que se esconde sob o pseudônimo de Elena Ferrante. Ela se recusa a dar entrevistas e a aparecer em público. Em 2016, o jornalista investigativo Claudio Gatti apontou a tradutora Anita Raja como o nome por trás do sucesso da tetralogia napolitana. Raja não se pronunciou sobre o assunto, nem Elena Ferrante.

A mãe de Raja é uma sobrevivente dos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, muito distante dos relatos de Ferrante. Para os fãs da escritora, ela é uma verdadeira napolitana criada nos subúrbios de Nápoles.

Em Frantumaglia, a escritora italiana divide com o leitor seu processo criativo e suas memórias afetivas. Frantumaglia é uma palavra italiana usada pela mãe de Ferrante para descrever pequenos pedaços de recordações, memórias e imagens que teimam em aparecer em nossas mentes. Como escreve a própria Elena Ferrante:

“A frantumaglia é uma paisagem instável, uma massa aérea ou aquática de destroços infinitos que se revelam ao eu, brutalmente, como sua verdadeira e única interioridade. A frantumaglia é o depósito do tempo sem a ordem de uma história, de uma narrativa. A frantumaglia é o efeito da noção de perda, quando temos certeza de que tudo o que nos parece estável logo se unirá a uma paisagem de detritos”

Resenha – “Faça acontecer” – Sheryl Sandberg

Resenha – Faça acontecer Sheryl Sandberg

Sheryl Sandberg escreveu o livro pensando nas mulheres que querem chegar ao topo de suas carreiras

A americana Sheryl Sandberg, de 47 anos, tem uma carreira dos sonhos: é chefe operacional do Facebook, bilionária e também já foi vice-presidente do Google. Sandberg ficou famosa não só por ocupar posições de destaque em empresas de tecnologia, mas também por defender os direitos das mulheres e uma maior participação feminina nas empresas.

Com o objetivo de melhorar a igualdade de gênero no ambiente corporativo, Sandberg escreveu o livro “Faça acontecer – mulheres, trabalho e a vontade de liderar”, publicado em 2013. Além de dar dicas de como as mulheres podem administrar suas carreiras, a autora também fala sobre como os homens podem ter atitudes menos sexistas no trabalho e criar um ambiente mais favorável para lideranças femininas.

Antes de comprar o livro li uma resenha que detonava Sandberg por querer dar conselhos profissionais a mulheres que não eram ricas, não tinha estudado em Harvard, não podiam pagar babás e nem andar em jatinhos privados. (Ela também contava com a ajuda de um marido compreensivo e companheiro – Dave Goldberg, que faleceu em 2015. Sandberg também escreveu um livro sobre a experiência do luto.)

 

“Minha geração lutou muito para dar escolha a todas vocês. Acreditamos em escolhas. Mas escolher sair do mercado de trabalho não era bem a escolha que achávamos que tantas de vocês fariam.”

Judith Rodin – presidente do Instituto Rockfeller.

 

Apesar de uma resistência inicial, me surpreendi muito com o livro e também me reconheci nas várias situações descritas. Muitos mais do que um livro feminista, Sandberg mostra a realidade de como as mulheres são vistas e tratadas no mundo corporativo. Ela aponta soluções práticas e como as mulheres podem contornar o sexismo ainda vigente no século XXI. Baseando-se em pesquisas acadêmicas e na sua própria experiência profissional, Sandberg faz algumas reflexões interessantes:

  • Apesar da revolução feminina, muitas mulheres ainda não conseguem conciliar a carreira profissional com a vida pessoal. As mulheres são menos estimuladas a continuarem no mercado de trabalho e a desenvolverem suas carreiras. Esse desestímulo vem da própria família, da falta de flexibilidade no trabalho e de companheiros que não dividem as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos.
  • A pior decisão que uma mulher pode tomar é basear suas escolhas levando em conta filhos e parceiros que ainda não existem, como mulheres que recusam uma promoção ou posição de liderança por que “podem engravidar”. O erro delas é acreditar que não conseguirão conciliar vida pessoal com a profissional.
  • As mulheres também são vistas com um olhar mais crítico no ambiente de trabalho – tanto por homens como por outras mulheres. Sandberg cita uma pesquisa realizada em 2003 para ilustrar seu ponto. Os pesquisadores escolheram o currículo de uma empresária bem-sucedida, Heidi, e mostraram-no para um grupo de estudantes, mas com o nome de um homem, Howard.Quando os estudantes viam o currículo de Howard, o consideravam um “cara simpático”. Quando o currículo estava no nome de Heidi, a profissional era vista como “egoísta” e alguém que não era tão legal como colega de trabalho.  Uma mulher bem-sucedida não é bem vista tanto por homens como por mulheres, um claro exemplo de como a nossa sociedade ainda discrimina mulheres que se destacam.

 

“Faça acontecer” é uma leitura rápida e agradável que traz muitos insights e questionamentos sobre como gerimos nossas carreiras e nos comportamos no ambiente de trabalho.

Livros que enrolei para ler…

Para uma leitora compulsiva é difícil deixar de gostar de algum livro. Geralmente, eu leio os livros até o final. Mas algumas leituras demoram a engrenar e eu só continuo a ler por que a trama é bem-feita, ou por mera curiosidade em saber o final…

O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares – Ransom Riggs

 

livros que enrolei para ler

“O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares” foi adaptado para o cinema pelo diretor Tim Burton em 2016

 

No começo me empolguei com a leitura, o livro é bem escrito e tem uma áurea de mistério.  O design do livro é uma graça: o autor, Ransom Riggs, selecionou várias fotos antigas, encontradas em feiras de antiguidades e de colecionadores para ilustrar a história.

Após a morte do avô, Jacob, um adolescente de 16 anos, começa a refletir sobre as histórias que ele contava sobre crianças peculiares que viviam em um orfanato durante a Segunda Guerra Mundial. Intrigado com as fotos que encontra nos pertences do avô, ele viaja com seu pai para uma ilha no País de Gales em busca de informações sobre o orfanato da Srta. Peregrine.

Comecei a me cansar da história perto do final do livro, mas li até o final apenas para saber como termina… Acho que não tenho mais idade para livros de adolescentes…

O amante de Lady Chatterley – D.H. Lawrence

Quando “O amante de Lady Chatterley” foi publicado, em 1928, o autor inglês David Herbert Lawrence (1885-1930) foi duramente criticado por sua escrita “pornográfica” e o livro foi censurado em diversos países. A primeira edição teve que ser publicada na França, pois Lawrence não conseguia um editor para sua obra na Inglaterra.

D.H. Lawrence fala abertamente da sexualidade feminina por meio da personagem Constance Chatterley. Ela estava recém-casada com o nobre Clifford Chatterley, quando ele foi mandado para a guerra. Depois de ser ferido em combate, Clifford ficou paraplégico.

A história gira em torno da vida conjugal do casal e da ausência de vida sexual entre os dois. Constance não consegue conter seu desejo por um dos funcionários da mansão onde mora, Oliver Mellors. Constance entra em contradição: deve preservar o casamento e as aparências, ou viver uma história de amor com Mellors?

A premissa do livro é interessante, mas o autor se perde em digressões sobre política e classes sociais e diálogos muito chatos. Há também um certo esnobismo aristocrático típico inglês. Virgínia Woolf também é um pouco esnobe, mas bem mais talentosa do que D.H. Lawrence.

O livro nem é tão chocante assim, mas para o público do início do século XX era tabu abordar temas como infidelidade feminina e relações entre pessoas de classes sociais diferentes. Apesar da leitura irregular, o livro mostra como a afirmação do desejo sexual da mulher na literatura pode causar polêmica.

Baudolino – Umberto Eco

O escritor italiano Umberto Eco (1932-2016) era conhecido pela extrema erudição e também por escrever “romances policiais para intelectuais”. O mais famoso e que o levou à fama foi a obra “O nome da rosa”, transformada em obra cinematográfica em 1986. Na obra “Baudolino”, Eco mostra toda sua erudição e a capacidade de conectar seus múltiplos conhecimentos para criar uma trama que se passa na Idade Média.

O livro começa bem, num tom divertido. Conhecemos o protagonista Baudolino, um jovem agricultor criado numa pequena cidade da Itália. Apesar de pouco letrado, o adolescente tem uma incrível facilidade para aprender idiomas. Enquanto vivia sua rotina pacata de camponês, Baudolino encontra o rei Frederico I, o Barba Ruiva, durante uma caçada. Encantado com a cara de pau e inteligência do menino, o rei o leva para sua corte.

Assim, Baudolino é educado em Paris e torna-se um cavalheiro do rei, utilizando sua esperteza e malandragem para garantir o poder de Frederico I. Em um desses estratagemas, parte com seus amigos em busca do Santo Graal no imaginário reino do Preste João.

Neste ponto, Umberto Eco mostra o esquema de fabricação das relíquias religiosas na Idade Média, como a invenção do achado do corpo dos três reis magos; no livro, obra de Baudolino.  Apesar de admirar a extrema erudição do autor, que fez um interessante compêndio sobre a Idade Média, a narrativa é arrastada. Há muito esforço em mostrar erudição, o que torna a leitura tediosa. O livro ainda está dormindo no meu ebook, talvez um dia termine…

 

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Resenha: Os lança-chamas – Rachel Kushner

resenha os lança-chamas rachel kushner

O livro “Os lança-chamas“, da escritora americana Rachel Kushner, foi publicado no Brasil em 2014, mas não lembro de ler resenhas na imprensa e nem de haver um burburinho sobre a autora ou o livro. “Os lança-chamas” foi um dos finalistas do National Book Award de 2013, uma das premiações literárias mais importantes dos Estados Unidos, assim como o livro de estreia de Kushner, “Telex from Cuba”, em 2008.

Uma obra que foi considerada pelo The New York Times uma das melhores de 2013 merecia mais publicidade. Mas também várias autoras brasileiras com livros maravilhosos são ignoradas pela grande mídia (ou não são objeto de tanta festa quanto os homens. Mas isso é assunto para outro post).

O livro é narrado em primeira pessoa por Reno, uma jovem recém-formada em artes plásticas que se muda para Nova York em busca de uma carreira como artista. Em Nova York ela entra em contato com os artista locais e com toda a vibe da década de 70, com uma arte experimental e conceitual. Reno conhece Sandro Valera, um italiano de origem abonada que se muda para os EUA com o objetivo de ser artista plástico.

A narrativa se divide entre o relato em primeira pessoa de Reno e as origens da família de Sandro Valera, cujo pai fundou uma próspera fábrica de motos, a Valera. Aliás, as motos são muito importantes em “Os lança-chamas”: Reno é motociclista e uma mulher audaciosa e cheia de personalidade.

Inspirações para “Os lança-chamas”

resenha os lança chamas rachel kushner

A escritora Rachel Kushner se inspirou numa série de imagens e obras de arte para escrever “Os lança-chamas”

Kushner também viveu na Itália e já foi crítica de arte e, assim como sua personagem Reno, gosta de dirigir motos. A escritora também se inspirou em imagens icônicas como obras e fotografias de artistas da época. Algumas dessas imagens podem ser vistas em uma reportagem da revista The Paris Review. 

O livro de Rachel Kushner é uma leitura deliciosa. A autora nos transporta para um entardecer em Alexandria ou a uma festa numa mansão na Itália, com uma grande capacidade descritiva e de escrever cenas memoráveis.

O leitor viaja por vários assuntos e lugares, como a cena da arte contemporânea nos EUA na década de 70, corridas de motos, as brigadas vermelhas na Itália. Com tantas tramas e temas, às vezes falta alguma concisão na obra, mas que é superado pelo talento narrativo da escritora. Uma leitura imperdível.

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Série “Minha luta”: A morte do pai – Karl Ove Knausgård

 

 

A série “Minha luta”, do escritor norueguês Karl Ove Knausgård, é um fenômeno internacional, com milhares de fãs esperando a publicação dos livros no mundo todo. No Brasil, cinco dos seis livros  já foram publicados. O primeiro livro, “A morte do pai”, foi publicado em 2013, mas só agora em 2017 comecei ler a série (atrasada).

Knausgård revolucionou o gênero autobiográfico ao contar detalhes de sua vida íntima e familiar em seis livros que tratam de temas como a morte do pai por alcoolismo, o casamento e a infância.

série minha luta a morte do pai karl ove knausgard

 

A principal polêmica envolvendo a série foi que o escritor não mudou o nome dos personagens: à medida que lemos o livro, sabemos que aquelas pessoas são todas de carne e osso, existem e estão em algum lugar na Noruega neste momento. Seu tio tentou processá-lo, e sua mulher não suportou a pressão da exposição intensa da família nas páginas dos livros.

Apesar das controvérsias, Karl Ove Knausgård escreveu um clássico, um livro de escrita primorosa e impactante. Ele consegue transformar o banal do cotidiano em alta literatura. A morte do pai, o cuidado com os filhos e as aventuras da adolescência são costuradas  com as reflexões de Knausgård sobre a vida e a literatura.

 

“Escrever é retirar da sombra a essência do que sabemos. É disso que a escrita se ocupa. Nada do que acontece aí, não das ações que se praticam aí, mas do em si. Aí, é esse o lugar e o propósito da escrita. Mas como chegar a ele?”

 

“E a morte, que eu sempre considerara a maior dimensão da vida, escura, imperiosa, não era mais que um cano que vaza, um galho que se quebra ao vento, um casaco que escorrega do cabide e cai no chão.”


Título:
A morte do pai
Autor:Karl Ove Knausgård
Tradutor: Leonardo Pinto Silva
Editora: Companhia das Letras

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História da menina perdida – Elena Ferrante

história da menina perdida elena ferrante série napolitana

Terminei de ler o quarto volume da série napolitana de Elena Ferrante há umas duas semanas, mas não consegui sentar e escrever imediatamente uma resenha. “História da menina perdida” fecha o ciclo das desventuras de Lenu e Lina de uma maneira aterradora.

É o melhor livro da tetralogia napolitana, o mais bem escrito e com capacidade de dizer muito em poucas linhas (leia também sobre os outros livros da série: A amiga genial, História do novo sobrenome, História de quem foge e de quem fica).

Neste último livro, ficam mais claras as obsessões que movem Lenu e Lina e a natureza da relação entre as duas. Elena sente culpa não só por ser bem-sucedida, mas por tudo o que não deu certo na vida de Lina, o que poderia ter sido e não foi. Lina ganhou muito dinheiro com sua empresa de programação, mas mesmo assim não conseguiu se libertar do passado. Continuava a pensar obsessivamente nos irmãos Solara e em acabar com a máfia no bairro.

O bairro em que Lenu e Lina cresceram, com suas violências e histórias, se tornou uma obsessão para as duas. Para Lila, continuar ali era uma oportunidade de remediar o passado e denunciar todos os crimes da máfia.

Já Lenu, mesmo tendo sucesso como escritora e jornalista, decide voltar para a vida em Nápoles, da qual ela tanto quis fugir. Lina, Nápoles e o bairro são quase uma neurose para Lenu. Depois da separação de Pietro, ela se muda para o apartamento em cima da casa de Lina, e isto acarreta várias consequências para a vida e o destino das duas amigas.

A menina perdida

A cada linha que avançamos na leitura, sabemos que algo irremediavelmente ruim irá acontecer e ficamos com a respiração suspensa durante toda a leitura. Vamos sentindo as dores dos personagens, mas também desenvolvendo uma relação de amor e ódio com eles (principalmente com Nino).

Tenho sentimentos ambíguos em relação às duas protagonistas. Lila era cruel, mas também não tinha muitos recursos psicológicos para lidar com todas as situações difíceis que passou.  Lenu às vezes pode ser muito egoísta, vendo apenas o seu lado e esquecendo as necessidades das filhas ou de outras pessoas, mas também era extremamente leal à Lila. As duas tinham amadurecido suas personalidades e amizades, ambas se apoiavam mutuamente,  e cuidavam dos filhos em conjunto.

Elena Ferrante escreveu um livro sobre a amizade, mas também sobre a maternidade, o feminismo, a relação dos escritores com a arte, as hipocrisias do mundo social e literário. Ao terminar essa série, queremos reler tudo novamente, não só para entender a vida das personagens, mas também a nossa própria vida.

P.s: interessante notar no livro uma certa obsessão da escritora com bonecas e mães que “abandonam” filhas. Essa obsessão também fica clara no livro A filha perdida.

3 livros para quem se perdeu no meio do caminho

 

3 livros para quem se perdeu no meio do caminho

 

Às vezes a vida nos puxa para uma direção inesperada. A sensação é que a gente se perdeu do caminho previamente traçado, do tão sonhado pote de ouro no fim do arco-íris. E os planos devem ser revistos. Mas se perder no meio do caminho não é tão ruim como se imagina. Você tem a chance de reconstruir sua vida, mudar de rumo, mudar a forma de pensar. Eu também tive que rever alguns conceitos e padrões de pensamento para escolher um novo caminho.

Para me guiar nesta mudança interna, alguns livros foram fundamentais. Abri os olhos para algumas características minhas que eu ignorava, e também defeitos. Esses livros apontaram saídas e um jeito mais leve de olhar a vida. Claro que é uma seleção muito pessoal, mas acho que sempre vale a pena ver a vida sob um novo ângulo.

O poder dos quietos – Susan Cain

Em um mundo que valoriza cada vez mais a extroversão, ser um introvertido pode ser um fardo. Mas Susan Cain nos alivia desse peso com pesquisas científicas e entrevistas com psicólogos que mostram as vantagens de ser introvertido, e como podemos usar essa característica a nosso favor.

A autora aponta que a grande crise financeira de 2008 nos Estados Unidos aconteceu por que muitas vezes as opiniões dos analistas mais introvertidos não eram levadas em conta. As atitudes mais agressivas dos extrovertidos eram mais valorizadas em Wall Street, o que levava a escolhas e decisões altamente arriscadas. Quem era mais cauteloso era ignorado. O que resultou numa enorme crise financeira.

Eu sempre achei que tinha que ser mais extrovertida, que tinha que sair mais, falar mais. Mas depois de ler este livro, percebi que ser introvertido não é nenhuma doença, apenas um traço de personalidade. Introvertidos sempre precisam de um tempo a mais sozinhos depois de irem a uma festa ou após longos períodos de interação social.

Os introvertidos também são mais criativos, pois a solidão é fundamental para o desenvolvimento de novas ideias. Muitos pensadores importantes foram introvertidos, como Charles Darwin e Marie Curie.

Título: O poder dos quietos
Autora: Susan Cain
Editora: Agir

Mulheres que correm com os lobos – Clarissa Pinkola Estés

Clarissa Pinkola Estés é uma psicóloga junguiana que nasceu nos Estados Unidos, mas é de origem latina. Foi criada por uma família de refugiados do Leste Europeu que tinham o hábito da contação de histórias.

Estés reuniu a sua paixão por contos e lendas com a psicanálise junguiana. Em Mulheres que correm com os lobos, a escritora tenta resgatar o arquétipo da “mulher selvagem”, que ajudaria a mulher moderna a lidar com as pressões e a resgatar “os processos da psique instintiva natural”. Ao longo dos séculos, a natureza instintiva da mulher foi reprimida e domesticada.

Os contos reunidos por Estés falam sobre diversos aspectos da personalidade e da vida das mulheres, como o relacionamento amoroso, resgate da intuição, amadurecimento da personalidade. Clarissa Pinkola Estés reuniu contos de diversas origens (russa, europeia, esquimó).

Cada conto é uma ponte para a autora abordar aspectos da personalidade feminina. O conto “Vasalisa, a sabida” aborda a importância da intuição; o conto “Barba azul” alerta sobre os perigos do predador interno e externo, que impedem a mulher de ter uma vida criativa. O “predador” também aparece quando a mulher vive uma vida certinha, abafando seus instintos para ter uma condição mais confortável e se adaptar à sociedade.

Nas palavras da autora:

“Quando a mulher renuncia aos seus instintos que lhe indicam a hora certa para dizer sim ou não, quando ela renuncia ao seu insight, sua intuição e outros traços de natureza selvagem, ela se encontra, então, em situações que prometem ouro mas que acabam gerando dor. Algumas mulheres desistem da sua arte em troca de um grotesco casamento por interesse, abandonam o sonho de uma vida para ser uma boa esposa, boa filha ou boa menina, ou renunciam à sua verdadeira vocação a fim de levar o que elas esperam que venha a ser uma vida, mais aceitável, mais plena e mais digna.”

Título: Mulheres que correm com os lobos 
Autora: Clarissa Pinkola Estés
Editora: Rocco

Nada de especial – vivendo Zen — Charlotte Joko Beck

Charlotte Joko Beck (1917-2011) foi uma mestre zen budista nascida nos Estados Unidos. Beck compara nossas vidas a rodamoinhos em um rio. No percurso de um rio, surgem os rodamoinhos, formações temporárias causadas por galhos, pedras, irregularidades no leito. Nós somos como rodamoinhos no rio da vida, formações meramente temporárias. Se entulharmos nosso rodamoinho com coisas inúteis, pensamentos, mágoas, a água não fluirá, a vida seguirá estagnada.

“O melhor que podemos fazer por nós e pela vida é manter a água de nosso rodamoinho fluindo e limpa para que apenas continue seu curso. Quando fica represada, criamos problemas mentais, físicos e espirituais.”

Enquanto nos enrolamos com problemas cotidianos e desejos frustrados, perdemos a conexão com o momento presente. Estamos sempre preocupados em lutar, sem deixar que o fluxo da vida corra e leve embora tudo o que está estagnado, para que algo novo possa surgir.

Título: Nada de Especial – Vivendo Zen
Autora: Charlotte Joko Beck
Editora: Saraiva

Quando ler é doloroso

Há livros com assuntos tão dolorosos que tornam a leitura difícil, pesada, lenta.

Acontecimentos históricos como a Ditadura Militar no Brasil, a Escravidão ou o Holocausto são temas de livros de história, documentários e reportagens. Mas apenas a literatura é capaz de transmitir as nuances dos acontecimentos e a repercussão dessas tragédias na vida de uma pessoa comum.

Um desses livros perturbadores é a graphic novel “Maus”, do ilustrador e cartunista Art Spiegelman. O livro é baseado nos relatos de seu pai Vladek Spiegelman, sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia. A grande inovação de “Maus” (ratos, em alemão) é narrar os acontecimentos do Holocausto com a linguagem dos quadrinhos. Os desenhos são todos em preto e branco, e os judeus são retratados como ratos, e os alemães, como gatos.

quando ler é doloroso

O ilustrador Art Spiegelman ganhou o Prêmio Pulitzer com o relato de seu pai sobre o Holocausto

Spiegelman não esconde as características menos nobres do pai, como a sovinice e a relação um tanto fria entre os dois. É difícil ler os trechos sobre o cotidiano dos campos de concentração e as consequências desta experiência para Vladek e Anja. Mas é impossível não se emocionar com a história de Vladek, sua luta pela sobrevivência e o amor que sentia pela esposa Anja.

 

Tudo o que tenho levo comigo

“Tudo o que tenho levo comigo” é um livro que não consegui terminar de ler até hoje. Escrito pela ganhadora do Nobel de Literatura Herta Müller, o livro é um relato do personagem Leo Auberg, que com apenas 17 anos é deportado para um campo de trabalhos forçados na Ucrânia, onde vive por cinco anos. A escritora teve como inspiração um fato pessoal para escrever este livro: sua própria mãe também foi enviada a um campo de trabalhos forçados na União Soviética.

Após a Segunda Guerra Mundial, em 1945, o general soviético Vinogradov solicitou ao governo da Romênia que os alemães que morassem no país deveriam contribuir para a reconstrução da União Soviética. Até a invasão pelo Exército Vermelho, a Romênia apoiava a Alemanha nazista durante a guerra. Assim, alemães entre 17 e 45 anos foram enviados a campos de trabalhos forçados soviéticos.

quando ler é doloroso

Herta Müller baseou sua obra no relato de sobreviventes de campos de trabalho forçados soviéticos

 

A mãe de Herta Müller passou cinco anos num campo de trabalhos forçados, mas pouco falou sobre o tema com a filha. O tema “deportação” era um tabu devido ao passado nazista da Romênia. Só se falava sobre os campos de maneira velada. Em 2001, Müller começou a colher relatos de sobreviventes, entre eles Oskar Pastior, que se tornou sua principal fonte sobre os campos. Eles pretendiam escrever um livro juntos, porém Pastior morreu em 2006.

Herta Müller reconstitui com sensibilidade os pequenos detalhes do cotidiano do campo. As pás de coração para o carregamento de carvão. A beleza incomum de um lenço branco bordado à mão, tão deslocado na realidade fria do campo.

Segue um trecho do livro:

Sobre o anjo da fome

A fome está sempre ali.

Como está ali, ela vem quando e como quer.

O princípio de causalidade é o trabalho ignóbil do Anjo da Fome.

Quando ele chega, ele chega com força.

É claríssimo:

1 movimento completo com a pá = 1 grama de pão.

Título: Tudo o que tenho levo comigo
Autora: Herta Müller
Tradução: Carola Saavedra
Editora: Companhia da Letras

Título: Maus
Autor: Art Spiegelman
Tradução: Antonio de Macedo Soares
Editora: Companhia da Letras

A onda das garotas na literatura

“A garota no trem”

“Garota exemplar”

“A garota do calendário”

Quantos livros com garota no título você consegue se lembrar?

Os livros com “garotas” se tornaram bastante populares nos últimos anos. Mas o que está por trás desses títulos? Pura estratégia de marketing?

a onda das garotas na literatura

 

A escritora canadense Emily St. John Mandel (que escreveu o ótimo “Estação Onze” – resenha aqui) fez uma análise  baseada nos dados da rede social Goodreads sobre o fenômeno, além de conversar com pessoas que trabalham no mercado editorial. A análise da escritora foi publicada na revista americana FiveThirtyEight em outubro de 2016.

Febre Millenium

De acordo com as fontes ouvidas por Mandel, a onda dos livros com “garota” na capa talvez tenha começado com a série Millenium, do escritor sueco Stieg Larsson. Em inglês, os livros de Larsson ganharam títulos  com a palavra girl “The Girl With the Dragon Tattoo”, “The Girl Who Played With Fire”, “The Girl Who Kicked the Hornet’s Nest”. Em português do Brasil o girl é substituído muitas vezes por “menina” – (A menina que brincava com fogo).

Um dos achados de Mandel é que na maioria das vezes a garota do livro já é uma mulher. Muitas vezes não é decisão do escritor o título final da obra, portanto os editores escolhem o título que terá mais chances de atrair a atenção do público. E para isso, nada melhor do que entrar na onda das garotas.

a onda das garotas na literatura

Até o Mia Couto entrou na onda

Dos 810 mais populares livros com garota na capa, 79% são mulheres. Outro achado interessante da escritora é que a probabilidade da garota morrer na trama é maior se o escritor for homem. Na verdade, a porcentagem é de 17% para livros de escritores e de 5% de garotas mortas durante a trama para escritoras mulheres. Como Mandel mesmo sublinha, isso não significa que personagens mulheres têm mais chance de serem mortas se o autor for homem, mas apenas se no título houver a palavra “garota”. As mulheres também tendem a escolher mais protagonistas femininas, e seria uma escolha muito incomum matar a personagem principal.

Talvez os editores tenham razão.”A garota no trem”, de Paula Hawkins, e “A história da menina perdida”, Elena Ferrante, estão entre os mais vendidos na categoria ficção no Brasil.

“Estação onze” – um livro sobre memórias afetivas e o poder da arte

estação onze livro emily st. john mandel

Conheci por acaso o livro “Estação onze“, da escritora canadense Emily St. John Mandel. E que livro! Minha tia comprou numa promoção nas lojas Americanas e minha mãe pegou emprestado. A obra foi publicada em 2014 nos Estados Unidos e teve uma boa repercussão entre os críticos (tem até elogio da New Yorker na contracapa).

Em “Estação onze“, depois de uma pandemia de gripe, a civilização se desintegra, e o que resta são pequenos povoados estabelecidos pelos sobreviventes. Não há mais governos, polícia, fronteiras. Nem remédios, internet e celulares. No ano 20 após a tragédia, a companhia teatral Sinfonia Itinerante percorre esses pequenos povoados entre o Canadá e os Estados Unidos, apresentando peças de Shakespeare e concertos de música clássica.

A autora Emily St. John Mandel entrelaça a história da atriz da Sinfonia Kirsten Raymonde com a do famoso ator hollywoodiano Arthur Leander. Kirsten tinha apenas oito anos quando seus pais morreram na epidemia de gripe. No dia em que a epidemia se alastrou, Kirsten estava no palco representando uma das filhas de Rei Lear, em uma montagem estrelada por Arthur. O ator morreu no palco nesta mesma noite.

Estação Onze emily st. john mandel

No mundo pós-apocalíptico de “Estação Onze” não há cafeterias, nem máquinas de café expresso

O único elo que Kirsten tem com o passado são as misteriosas revistas em quadrinhos do “Dr. Onze”, um presente de Arthur. Enquanto viaja com a Sinfonia Itinerante representando e sobrevivendo, ela tenta reconstruir este passado com revistas de celebridades cheias de fofocas sobre o ator.

Estação Onze – uma ficção científica diferente

As revistas em quadrinhos do “Dr. Onze” foram escritas pela primeira mulher de Arthur, Miranda, e nunca foram publicadas antes da epidemia. Miranda desenhava as revistas com perfeccionismo: elas nunca estavam prontas o suficiente para serem publicadas. A desenhista nunca teve fama ou reconhecimento profissional pela sua arte. Mas agora elas são lidas e fazem a diferença na vida de outras pessoas, mesmo que a artista não veja o resultado final. O que resta é a obra.

Em “Estação Onze“, Emily St. John Mandel  reflete sobre a importância da arte em momentos difíceis e quando tudo parece desmoronar. A autora não reflete sobre as causas da pandemia de gripe, ou se uma cura será descoberta. O que importa são as relações pessoais e familiares e como a arte é tudo o que resta quando todas as tecnologias falham.

“Não havia mais mergulhos em piscinas de água clorada com luzes verdes por baixo. Não havia mais jogos de bola sob holofotes. Não havia mais luzes nas varandas circundadas por mariposas nas noites de verão. Não havia mais trens correndo sob as cidades com a força alucinante do terceiro trilho condutor de eletricidade. Não havia mais cidades. Não havia mais filmes, exceto raramente, exceto quando um gerador de energia estava ligado e abafava metade do diálogo, e mesmo isso só por algum tempo, até que o combustível para os geradores acabou, porque a gasolina dos automóveis estragou depois de dois ou três anos. O combustível dos aviões durava mais tempo, porém era difícil conseguir.”

Curiosidades: no livro, as pessoas não usam carros, aviões, etc., para se deslocarem. Parece que a gasolina estraga após um tempo. Como vou assistir The Walking Dead após essa informação?