A imaginária – Adalgisa Nery

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Escritora, jornalista, deputada estadual no Rio de Janeiro, Adalgisa Nery (1905 – 1980) foi uma intelectual de destaque no Brasil. Seu livro A imaginária foi publicado pela primeira vez em 1959 e foi sucesso de público e crítica, com cinco edições publicadas na época. Apesar do grande sucesso literário, A imaginária só ganhou uma nova edição em 2015.

Escrito em primeira pessoa, o livro é um monólogo interior da personagem Berenice, que repassa em uma noite solitária os principais acontecimentos da sua vida. Mas também é uma autobiografia, uma forma que Adalgisa encontrou para escrever sobre o tumultuado casamento com o pintor Ismael Nery (1900-1934).

Assim como a personagem principal, Adalgisa perdeu a mãe muito jovem, aos oito anos de idade. A solidão marca a vida da personagem Berenice desde a infância. A garota já demonstrava uma grande sensibilidade e uma personalidade forte. Com o novo casamento do pai, entra em conflito com a madrasta, e é mandada para colégios internos. Mas o grande rompimento com a família acontece quando Berenice se apaixona pelo vizinho e casa ainda adolescente.

Adalgisa e Ismael Nery

Adalgisa casou com Ismael Nery em 1922, quando tinha apenas 17 anos. Ismael era um grande nome nos meios intelectuais e artísticos do Rio de Janeiro; e Adalgisa fez amizades e conheceu nomes como Manuel Bandeira e Murilo Mendes. Mas o casamento também foi extremamente opressor para a escritora, e o lado sombrio do casamento foi retratado em A imaginária.

O marido da personagem Berenice tem um comportamento condescendente: a considera muito jovem, sem criatividade e brilhantismo. Ele adoece e a maior preocupação é com a vida afetiva e sexual da mulher depois que morrer.  Todos os acontecimentos de sua vida a tornam uma mulher ansiosa pelo futuro, mas consciente que, por sua condição feminina, muitos outros acontecimentos ruins estão a sua espera.

“Há dias, começo a pressentir que novas camadas de acontecimentos imprevistos e cruéis serão colocados a minha alma. E já me falta o ar!”

 

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Adalgisa Nery, pintura de Ismael Nery

 

Adalgisa escreve de forma poética os sentimentos e angústias que passou durante o casamento, abordando como as estruturas da sociedade afetam a saúde mental da mulher. Não podemos esquecer que a época em que viveu Adalgisa ainda era de grandes restrições para as mulheres. Ela mesma não escreveu nada durante o casamento, reprimindo sua veia poética – seu primeiro livro de poemas foi publicado em 1937.

Após a morte de Ismael Nery, Adalgisa casou em 1940 com Lourival Fontes, chefe do Departamento de Imprensa e Propaganda no governo Getúlio Vargas. Adalgisa acompanhou Fontes em missões diplomáticas nos Estados Unidos e no Canadá enquanto continuava a escrever e publicar livros de poemas e ficção.

Em 1945, Fontes foi nomeado embaixador no México. Neste período, Adalgisa estabeleceu laços de amizade com os principais artistas mexicanos, como Frida Kahlo e Diego Rivera. Também foi homenageada pelo governo mexicano por suas conferências sobre artistas como a poetisa Juana Inés.

Além da carreira como escritora e jornalista, Adalgisa se aventurou na política. Foi eleita deputada estadual no Rio de Janeiro em 1960 pelo Partido Socialista Brasileiro. As colunas diárias que Adalgisa escrevia para o jornal Última Hora, a ajudaram a se eleger. Mesmo com o golpe de 1964, Adalgisa continuou os seus trabalhos como deputada. Porém, teve seus direitos políticos cassados em 1969.

Após a cassação do mandato, Adalgisa tornou-se reclusa e solitária. Internou-se em uma casa de repouso em 1976 e faleceu em 1980.

Título: A imaginária
Autora: Adalgisa Nery
Editora: José Olympio

Biografia: Jane Austen – uma vida revelada

As obras de Jane Austen são lidas por milhões de pessoas em todo o mundo. Ela foi uma das escritoras que melhor retratou os costumes da aristocracia inglesa do século 19.

O mundo em que a escritora viveu na infância e na vida adulta foi a inspiração para clássicos como Razão e sensibilidade e Orgulho e preconceito. Este mundo era uma Inglaterra conservadora, onde o valor social das mulheres era regido pelo casamento e o dote. Mesmo com a evolução das condições de vida das mulheres, os leitores modernos continuam a se encantar com as personagens de Austen.

Catherine Reef, em sua biografia Jane Austen – uma vida revelada, mostra como os livros – e a própria vida de Austen – giraram em torno do conflito entre o amor verdadeiro e casamentos arranjados, determinados pela classe social.

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Jane Austen e a vida de escritora

Jane Austen começou a escrever ainda na infância. Seu pai, um clérigo do interior da Inglaterra, a incentivava a ler e a escrever, o que não era muito comum na época. As mulheres eram educadas para o casamento e não tinham direito à herança. Este fato influenciou a vida e os escritos de Austen, que só começou a fazer sucesso financeiro como escritora depois dos 30 anos. A maioria das obras de Austen foram publicadas sob pseudônimo. Quando ela estava começando a se tornar conhecida, morreu prematuramente aos 41 anos.

As mulheres da classe social de Jane Austen não trabalhavam. Havia uma série de regras sociais que a aristocracia e as classes mais abastadas tinham que seguir. Os casamentos eram arranjados, e a própria Jane recusou propostas por não amar os pretendentes (atitude incomum para época). A escritora foi hábil em transpor para os livros este universo em obras como Orgulho e preconceito.

Um livro indicado para todos os fãs de Jane Austen e para quem quer entender mais sobre a Inglaterra do século 19.


Título:
 Jane Austen – uma vida revelada
Autora: Catherine Reef
Tradutora: Kátia Hanna
Editora: Novo Século

Resenha: O castelo de vidro – Jeannette Walls

Resenha: O castelo de vidro – Jeannette Walls

O livro da jornalista Jeannette Walls foi adaptado para o cinema

 

Após uma infância difícil, a jornalista americana Jeannette Walls construiu um mundo seguro e confortável. Usava pérolas e morava em um apartamento na Park Avenue, um dos endereços mais sofisticados de Nova York. Em um final de tarde, presa no engarrafamento enquanto ia para uma festa, viu sua mãe revirando uma caçamba de lixo. A mãe de Jeannette, Rose Mary Walls, já havia recusado ajuda várias vezes e preferia continuar nas ruas.

A renomada jornalista, que assinava uma coluna na revista New York, se sentindo envergonhada, não conseguiu cumprimentar sua mãe. A visão de sua mãe catando comida no lixo a perturbara demais. Voltou para casa e, mais tarde, almoçou com Rose Mary Walls. Jeannette queria ajudar de alguma forma, mas ela apenas murmurou: “Seu pai e eu somos quem somos. Aceite isso”.

Jeannette havia construído uma carreira de sucesso no jornalismo, porém nunca havia contado a ninguém sobre seu passado. Em uma entrevista ao jornal The New York Times, Jeannette afirmou que tinha uma coluna de fofocas e era boa em revelar o segredo dos outros, mas ela mesma mantinha em segredo sua vida. O livro O castelo de vidro é uma tentativa de aceitação e também de fazer as pazes com o passado.

 

Vida nômade da família retratada no filme “O castelo de vidro”

Quando se mudou para Nova York ainda adolescente, Jeannette procurava uma vida totalmente diferente da que teve na infância e na adolescência. Seu pai, Rex Walls, fora militar da aeronáutica e fazia bicos como eletricista. Rose Mary Walls era uma professora que preferia o trabalho artístico: pintava e escrevia contos e romances.

A trajetória nômade da família Walls pelos Estados Unidos também virou filme, lançado em 2017. O casal não tinha endereço fixo e peregrinava pelos Estados Unidos de acordo com as oportunidades e a perseguição dos cobradores (que Rex dizia serem agentes do FBI).

Os três filhos do casal foram criados num ambiente de liberdade, mas também beirando a negligência. Rex era alcoólatra e sempre perdia empregos ou se metia em confusões por causa do vício. Rose vivia entre altos e baixos emocionais e tinha opiniões bem particulares sobre a vida e como as crianças deveriam ser educadas. Enquanto toda a família passava fome, Rose se recusava a trabalhar como professora. Nas poucas vezes em que arranjou trabalho, foi por insistência dos filhos, que até ajudavam a mãe a corrigir as lições.

As residências da família eram sempre improvisadas. Carros em estacionamentos, antigas estações de trem. Os Walls viveram momentos difíceis, mas as dificuldades também eram travestidas de lirismo. Como não havia dinheiro suficiente para os presentes de Natal, Rex pediu que cada filho escolhesse uma estrela no céu como presente.

Jeannette Walls escreveu um livro memorável. Os capítulos são bem encadeados e envolvem o leitor no mundo caótico da família. Apesar dos momentos difíceis, a autora torna o livro menos pesado ao usar uma linguagem bem humorada e adotar o ponto de vista ingênuo e simples de uma criança.

Romance moderno: uma investigação sobre relacionamentos na era digital

Romance Moderno: uma investigação sobre relacionamentos na era digital

Os sites de namoro já existiam antes dos smartphones, mas ganharam uma nova dimensão com aplicativos como Tinder e Happn. As novas tecnologias mudaram a forma como encaramos os relacionamentos amorosos.

Neste mundo de matches e deslizadas de tela, encontrar um par se tornou banal. Em segundos descobrimos que existem centenas de solteiros (e outros que mentem o estado civil) a apenas poucos metros de distância. Mas isto não significa que é mais fácil encontrar um parceiro amoroso.

Diante deste cenário, o comediante Aziz Ansari (da série Master of None, da Netflix) decidiu investigar o que mudou na vida amorosa no início deste século. Ele se juntou ao sociólogo Eric Klinenberg e escreveu o livro “Romance moderno: uma investigação sobre relacionamentos na era digital”.

O livro traz uma retrospectiva de como eram os relacionamentos na década de 60, onde não havia muitas opções de lazer e de vida, até o nosso mundo recheado de opções.
Até metade do século XX, as expectativas de relacionamento eram mais baixas. Os casamentos aconteciam entre pessoas que viviam próximas, frequentavam o mesmo bairro, as mesmas escolas. O mais provável é que você se casasse com alguém de sua vizinhança. As mulheres não estudavam ou trabalhavam, e nem era esperado que elas fizessem isso, o que reduzia as chances de encontrar um parceiro diferente.

Hoje, o esperado de um jovem é que ele conheça a vida, viaje, namore e construa uma carreira antes de se comprometer em um casamento ou relacionamento mais sério. Ao mesmo tempo que isso permite uma maior liberdade de relacionamento, também prejudica a criação de laços. O amor da sua vida deve ser alguém que o complete totalmente, alguém com quem você tenha uma conexão profunda. E sempre há a tentação: será que eu conheço alguém mais interessante?

Se relacionar com pessoas de outras cidades e até países ficou mais fácil com a internet. A única vantagem é que, quando o namoro vinga, pode ser uma relação realmente significativa na vida da pessoa.

Algoritmos do amor

Nesta era digital, somos julgados pelos algoritmos e pelos julgamentos inconscientes (nossos e dos pretendentes). As fotos, o texto de descrição dos aplicativos de namoro, a velocidade com que você responde a uma mensagem, isso tudo conta na hora de ser bem sucedido na paquera virtual.

Há alguns achados interessantes na pesquisa feita pelos autores: homens que não sorriem e que não olham para a câmera se dão melhor nos matches. Para as mulheres, as fotos que geram mais sucesso são a “selfie frontal tirada de cima, com uma expressão levemente coquete”. Já fotos em que as mulheres aparecem bebendo ou com um animal não são muito favoráveis.

O mundo virtual traz nuances que são difíceis de interpretar. Não é à toa que as pessoas se sentem tão perdidas. Há muitas variáveis e nem sabemos por que atraímos (ou afastamos) pretendentes na internet.

Aziz Ansari e Eric Klinenberg também viajaram para cidades como Buenos Aires, Paris e Tóquio para refletir sobre as diferenças culturais na hora da paquera. Enfim,”Romance moderno” é um livro para quem quer entender (e sobreviver) nesses tempos modernos.

Título: Romance moderno
Autores: Aziz Ansari e Eric Klinenberg
Tradução: Christian Schwartz
Ano de publicação: 2016
Editora: Paralela

Melhores leituras de 2017

Li menos do que planejei em 2017, mas também acho que não fiz feio considerando o tempo que as rede sociais sugam (e Netflix, Youtube…). Algumas leituras foram memoráveis e merecem ser compartilhadas com vocês!

 História de quem foge e de quem fica elena ferrante

História de quem foge e de quem fica – Elena Ferrante

Este é o terceiro volume da série napolitana, escrito pela misteriosa escritora italiana Elena Ferrante e sucesso no mundo inteiro. A personagem Elena Greco começa a narrar a história de sua amizade desde a infância com Raffaella Cerullo – Lila.

Em “História de quem foge e de quem fica“, as amigas Lenu e Lila encontram-se agora em importantes momentos da vida adulta. Elena não consegue se dedicar à carreira literária com o casamento e as filhas. Lila tenta reconstruir sua vida no bairro da infância. Uma leitura que me fez refletir sobre a situação da mulheres e sobre as relações de amizade.


História da menina perdida – Elena Ferrante

O último livro da série é a melhor leitura da tetralogia napolitana. É o mais bem escrito e com capacidade de dizer muito em poucas linhas. A cada linha que avançamos na leitura, sabemos que algo irremediavelmente ruim irá acontecer e ficamos com a respiração suspensa durante toda a leitura. Vamos sentindo as dores dos personagens, mas também desenvolvendo uma relação de amor e ódio com eles (principalmente com Nino).

 

melhores livros 2017


Clarice Lispector – esboço para um possível retrato – Olga Borelli

Este livro de memórias escrito por Olga Borelli, amiga íntima de Clarice Lispector, foi publicado em 1981 e está fora do mercado. Olga Borelli conviveu de perto com a escritora nos seus últimos anos de vida e ajudou a editar várias de suas obras.

Os detalhes da vida cotidiana e a seleção de textos e cartas feita por Olga Borelli fazem com que o leitor sinta o pensamento de Clarice e tenha uma compreensão íntima da escritora. Borelli selecionou escritos inéditos e também cartas da escritora. Uma leitura imperdível para os fãs de Clarice.

melhores livros 2017

O escritor norueguês Karl Ove Knausgård


A morte do pai – Karl Ove Knausgård

O escritor norueguês Karl Ove Knausgård sempre quis escrever sobre a morte do seu pai após anos de alcoolismo. Depois de ter publicado dois livros de ficção, Knausgård decidiu escrever sobre a própria vida, como em um diário. Ele escreve sobre os filhos, a morte do pai e detalhes banais do cotidiano, mas numa escrita muito sensível que envolve o leitor em seu universo.

“A morte do pai” é o primeiro livro da série Minha Luta, que é sucesso de público e crítica em diversos países.


Um outro amor – Karl Ove Knausgård

“Um outro amor” é o segundo livro da série de Knausgård e uma leitura supreendente. No segundo livro sobre sua vida, o escritor aborda agora as suas relações amorosas, o casamento com a mulher Linda, os filhos, problemas conjugais e relações com os amigos.

O grande segredo de Knausgård é transformar o banal do dia a dia em literatura da mais alta qualidade. Trocas de fraldas, brigas com os vizinhos, o simples ato de colocar o lixo no depósito, tudo prende o leitor, que quer ler mais e entrar mais na vida do autor. Acho que este é o grande segredo, nos sentimos próximos do escritor, entrando em seus pensamentos e cotidiano.

Knausgård não esconde o que pensa dos amigos, da mulher e parentes, o que às vezes nos faz sentir raiva, às vezes compreensão. Esta sinceridade trouxe problemas ao autor, que perdeu amigos e enfrentou problemas no casamento. Também houve críticas à exposição dos filhos e da família.

Apesar das polêmicas, foi uma das melhores leituras que fiz nos últimos anos. E o final dos dois livros são perfeitos, muito bem escritos.

Um verão em Siena – Esther Freud

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Piazza del Campo, em Siena


Esther Freud
é uma escritora britânica, apontada pela revista literária Granta em 1993 entre os melhores jovens escritores com menos de 40. Ela já publicou seis livros e, por incrível que pareça, suas obras ainda não foram traduzidas no Brasil. Digo incrível considerando que, além de ser uma excelente escritora, a autora é bisneta do pai da psicanálise, Sigmund Freud, e filha do pintor Lucian Freud. Comprei o e-book na Amazon por dez reais.

Em suas obras, Freud sempre usa elementos pessoais para construir tramas e personagens. Em “Um verão em Siena” (tradução portuguesa) ela refle sobre a relação com o pai, o pintor Lucian Freud, por meio da personagem Lara, uma jovem de 17 anos.

Lara irá passar um verão em Siena com o pai, o famoso historiador Lambert Gold. Os dois nunca tiveram uma relação próxima; Lara sempre fora criada pela mãe. Durante a viagem de trem até a Itália, ela começa a se aproximar do pai, que até aquele momento era apenas uma imagem, um continente a ser explorado.

Freud se inspirou na própria relação com o pai para criar Lambert. Assim como Lara, ela só se aproximou do pai no final da adolescência, como afirmou em uma entrevista para o jornal Telegraph. A escritora demorou um tempo para conseguir lidar com a ausência de Lucian Freud e conseguir escrever sobre o tema.

Assim como Lucian Freud, Lambert é um judeu refugiado em Londres durante a Segunda Guerra Mundial, que consegue criar uma exitosa carreira longe de sua terra natal.

Freud escreve sobre sexualidade e tabus

Em Siena, pai e filha ficam hospedados na casa de Caroline, uma grande amiga de Lambert. Há também Ginny, a cozinheira inglesa que os acompanha e está ansiosa pelo casamento entre a princesa Diana e o príncipe Charles (o livro se passa em 1981). Perto da casa de Caroline, moram os Willoughbys, família aristocrata inglesa que comprou uma vila inteira para morar: a vila de Ceccomoro.

Lara logo socializa com os Willoughbys e fica fascinada por Kip, o filho mais novo da família. Andrew, o patriarca, mora na Itália com a amante Pâmela, uma atriz de cinema, enquanto a mulher mora na Inglaterra. Entre banhos de piscina e passeios por Siena, Lara começa a se envolver com Kip e a descobrir a própria sexualidade.

A escrita de Esther Freud é leve, condizente com o clima de verão e férias na Toscana. Parece que entramos naquele mundo de brisa fresca à beira da piscina, sem deveres, nem obrigações. Freud nunca aponta os momentos de tensão com palavras e descrições desnecessárias. A sexualidade e assuntos tabus como assédio sexual e estupro são tratados de maneira sutil, mas nunca suavizados ao leitor.

A narração é em terceira pessoa, mas entramos no ponto de vista de uma garota de 17 anos. Freud cria um fluxo de consciência diferente, sem passagens do presente para as lembranças de Lara quando era criança e viajou com a mãe para o Nepal.Enfim, são muitos os temas tratados por Freud em sua obra, como as relações sociais, questões familiares mal resolvidas, a adolescência. Uma leitura que nos faz refletir.

Título: Um verão em Siena
Autora: Esther Freud
Editora: Asa
País: Portugal
Ano de publicação: 2007

Resenha: Em busca de um final feliz – Katherine Boo

 

Abdul, um jovem de 16 anos, vive em Annawadi, uma favela localizada próximo ao Aeroporto Internacional de Mumbai. Ele trabalha como catador de papel desde os seis anos e, agora, deve tomar uma decisão importante: foi acusado de um crime que não cometeu.  Fátima, uma das moradoras de Annawadi, ateou fogo a si mesma e agora acusa Abdul.

É a partir da história de Abdul e de sua família que a jornalista Katherine Boo relata o cotidiano de uma favela indiana no livro “Em busca de um final feliz”. Durante três anos, a autora conviveu com os moradores de Annawadi para escrever seu livro reportagem. “Eu sentira falta de livros de não-ficção sobre a Índia: histórias contadas com profundidade mostrando como as pessoas das classes mais baixas – especialmente mulheres e crianças –  estavam negociando na era dos mercados globais”, escreve Katherine Boo no posfácio.

A favela de Annawadi foi criada em 1991 por um grupo de trabalhadores que haviam sido contratados para consertar uma pista do Aeroporto Sahar. O terreno próximo ao aeroporto era úmido, encharcado e cheio de cobras. Mas os trabalhadores limparam o terreno e estabeleceram suas casas de bambu. A Índia vivia o início da liberalização econômica, e a proximidade com o aeroporto e os diversos hotéis de luxo da região prometia empregos e ascensão econômica.

“Na verdade, apenas seis dos três mil moradores da favela tinham emprego com carteira assinada. (O resto, assim como os 85% dos trabalhadores indianos, faziam parte da economia informal). É certo que alguns poucos residentes ainda catavam ratos e sapos e os fritavam para jantar. Alguns comiam grama baixa na beirada do lago de esgoto. E estes indivíduos, estas almas miseráveis, de certo modo deram uma contribuição inestimável aos seus vizinhos. Eles propiciaram aos favelados que não fritavam ratos e não comiam mato, como Abdul, uma sensação real de mobilidade e ascensão social. “

O processo de apuração da jornalista foi extremamente detalhista: muitas horas de gravação em vídeo e áudio, fotos, anotações. Cada detalhe era checado três, quatro vezes. A autora também consultou mais de três mil registros públicos.

O livro se concentra sobre os desdobramentos da acusação de Abdul, mas também sobre outros personagens, como Asha, professora do jardim de infância e cheias de conexões políticas que a fazem almejar o cargo de líder comunitária da favela. O intrincado sistema de castas indiano e as burocracias do sistema judiciário são retratados com precisão, mostrando toda a crueldade das pequenas corrupções e da miséria.

A pesquisa detalhada sobre o cotidiano da favela transforma o livro de Katherine Boo em uma sofisticada obra realista. Infelizmente, uma realidade que existe, que nos faz pensar como estão agora Abdul e todos os moradores de Annawadi.

Cinco livros escritos por mulheres para ler no fim de semana

 

Cinco livros escritos por mulheres para ler no fim de semana

 

O fim de semana é sempre um bom momento para colocar a leitura em dia. Esta é uma seleção com oito livros curtos, menos de duzentas páginas, para ler em um fim de semana, feriado prolongado ou nas férias (ou quando você quiser). Todos os livros são escritos por mulheres, mostrando um ponto de vista feminino, muitas vezes negligenciado pela literatura.

Contos do esconderijo – Anne Frank

Anne Frank é mais conhecida pelo seu diário, mas ela também escreveu contos e ensaios. Em “Contos do esconderijo” vemos o talento em gestação de uma escritora precoce, mas que infelizmente não pode viver tempo suficiente para maturar seu dom. A jovem escritora mostra uma grande sensibilidade para captar detalhes da vida cotidiana. Estes textos foram excluídos da versão original do “Diário de Anne Frank”.

Quarto de despejo – Carolina Maria de Jesus

“É por isso que eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, pobres, somos os trastes velhos.” Esta frase é do diário de Carolina Maria de Jesus, que se transformou no livro “Quarto de despejo”. Carolina Maria de Jesus vivia na favela do Canindé em São Paulo, onde tentava sobreviver como catadora de papel para sustentar os filhos.

Vivendo este duro cotidiano, Carolina relatava suas frustrações e rotina em um diário. Sua sorte mudou quando o jornalista Audálio Dantas a conheceu enquanto fazia uma reportagem. Dantas ficou impressionado com a qualidade do texto de Carolina. “Quarto de despejo” alcançou grande sucesso e foi traduzido em diversos países.

A hora da estrela – Clarice Lispector

“A hora da estrela” foi o último livro escrito por Clarice Lispector. É um dos melhores livros de Clarice e um clássico da literatura brasileira que merece ser lido. O livro narra a história de Macabéa, uma alagoana que migra para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida. Com poucos recursos, Macabéa luta para se adaptar à cidade grande.

A redoma de vidro – Sylvia Plath

“A redoma de vidro” foi o único romance escrito pela poetisa americana Sylvia Plath. Na década de 50, Plath morou um mês em Nova York para trabalhar como editora na revista Mademoiselle. A experiência foi tão marcante que serviu como inspiração para o único romance de Plath.

No livro, a estudante universitária Esther Greenwood é selecionada para estagiar durante um mês em uma revista de Nova York. É a sua primeira vez em uma cidade grande e ela tem que lidar com uma súbita liberdade e a decepção com o trabalho na revista. A ausência de sentido de sua experiência a joga num episódio de depressão.

A chave de casa – Tatiana Salem Levy

Este é o romance de estreia de Tatiana Salem Levy, uma das melhores escritoras da cena contemporânea brasileira. A autora se inspirou na história de sua família para criar uma personagem descendente de judeus-turcos. Ela recebe uma chave do avô, uma chave para a casa da família em Esmirna, na Turquia.

A procura das raízes familiares se mistura com os seus problemas de relacionamento e o passado da família durante a ditadura militar. O livro ganhou o prêmio São Paulo de Literatura – melhor livro de autor estreante – 2008.

 

 

 

 

“Boneco de Neve”, filme baseado no policial de Jo Nesbo, estreia dia 23/11

estreia filme boneco de neve

O escritor norueguês Jo Nesbo criou uma série de livros policiais sobre o detetive Harry Hole

 

O filme “Boneco de neve“, baseado no romance de Jo Nesbo que já vendeu mais de 20 milhões de cópias no mundo, estreia no próximo dia 23 de novembro. No livro, o detetive Harry Hole investiga uma série de assassinatos macabros que acontecem sempre durante o gelado inverno da Noruega.

O alvo principal dos assassinatos são mulheres casadas e mães. À medida que Harry Hole desvenda o quebra-cabeça deixado pelo assassino, ele se convence cada vez mais que, pela primeira vez, há um serial killer em sua área.

O sinal característico do serial killer é um boneco de neve – o anúncio de uma nova vítima. Inicialmente, o detetive Harry Hole enfrenta uma resistência do departamento de polícia, que desacredita a teoria de Hole: “Não há serial killers na Noruega”.

Harry Hole é um detetive brilhante e inteligente, mas com um impulso para a autodestruição. É viciado em álcool; vive como um abstêmio sempre à beira de uma recaída. Tem um relacionamento complicado com a ex-namorada e se envolve com a colega de trabalho Katrine Bratt. No filme, Hole é interpretado pelo ator Michael Fassbender, uma escolha que combina com o charme do personagem. 

O escritor Jo Nesbo já publicou diversos livros sobre o detetive Harry Hole. A série já possui onze livros e ainda não terminou. “Boneco de neve” é o primeiro livro adaptado para o cinema.

Ubu editora publica biografia da poetisa Juana Inés

biografia da poetisa Juana Inés

Capa do livro “Sor Juana Inés de la Cruz ou As armadilhas da fé”, escrito pelo Nobel de literatura Octavio Paz

 

A editora Ubu relança no mercado brasileiro um ensaio sobre a poetisa barroca espanhola Juana Inés – “Sor Juana Inés de la Cruz ou As armadilhas da fé”. O livro, que foi escrito pelo Nobel de literatura Octavio Paz, mistura história, crítica literária e biografia para resgatar a história da primeira escritora de língua espanhola na América.

Inés foi uma das grandes poetisas do período barroco espanhol e era conhecida pela grande inteligência e virtuosismo com as palavras.

Juana Inés nasceu Juana Ramírez de Asbaje em San Miguel de Nepantha, no México.  Era filha bastarda de Pedro Manuel de Asbaje y Vargas Machuca com a criolla Isabel Ramírez de Santillana. Seu pai abandonou a família e a mãe se casou novamente.

Precoce e com grande curiosidade intelectual, educou-se na biblioteca do avô. Leu os clássicos gregos e romanos, filosofia e teologia. Também estudou astrologia e matemática. Infelizmente, na época em que Juana Inés viveu, as mulheres não tinham acesso aos estudos formais. Ela chegou a considerar se vestir de homem para entrar na universidade. Teve aulas de latim e também aprendeu a falar o idioma indígena nahuatl, o que era causa de grande escândalo.

Além da obra de Octavio Paz, podemos saber mais sobre a vida da poetisa na série “Juana Inés, disponível na Netflix.