Leituras de janeiro

 

leituras de janeiro

 

Aura – Carlos Fuentes

É uma novela curta, leitura de poucas horas. O escritor mexicano Carlos Fuentes publicou Aura em 1962, num período em que surgia o realismo mágico na literatura latino-americana. Felipe Montero, um jovem professor de história, lê uma oferta de emprego tentadora no jornal. Uma viúva procura alguém para organizar as memórias do falecido marido. A casa é antiga e decrépita, mas Felipe se apaixona pela sobrinha da patroa, Aura. O autor é hábil em criar um clima de mistério e também de terror, um belo exemplo da literatura latino-americana.

Blink – A decisão num piscar de olhos – Malcolm Gladwell

O jornalista Malcolm Gladwell é famoso por seus livros de não-ficção. Em Blink, ele analisa como a intuição pode nos ajudar a tomar decisões, mas também como decisões tomadas de maneira rápida, baseadas em preconceito, podem ter consequências sérias. Para Gladwell, todos têm a capacidade de “fatiar fino”, ou seja, observar padrões em segundos e agir com base na intuição. Mas essa capacidade de fatiar fino também pode nos levar a agir com base em preconceitos, como classe social, sexo, aparência, raça.

Uma das histórias mais impressionantes contadas por Gladwell é sobre a musicista Abbie Conant. Por ser mulher, ela nunca era chamada para audições, e só conseguiu entrar em uma orquestra após um teste cego (onde o músico permanece escondido do júri em uma “tenda” – na série Mozart in the jungle há um exemplo). Depois que este tipo de teste foi implantado, as mulheres e outras minorias começaram a ganhar espaço nas orquestras. Sem o julgamento da aparência do candidato, os juízes poderiam avaliar pelo que realmente importava: a música. O livro também traz outras pesquisas científicas sobre intuição que valem a pena ser conhecidas.

 

A teoria de tudo – Jane Hawking

O sucesso do físico Stephen Hawking não se deve apenas ao seu maravilhoso cérebro. Por trás de sua obra, havia também o apoio incondicional de sua primeira esposa, Jane Hawking. Os dois se conheceram muito jovens, enquanto ainda eram estudantes. Em A teoria de tudo, Jane escreve sobre o início do relacionamento com um dos gênios da ciência e as dificuldades causadas pela doença de Stephen (Esclerose Lateral Amiotrófica). No início da década de 60, os médicos acreditavam que Stephen não chegaria aos 30 anos. A família do físico também não acreditava que Jane aguentaria por muitos anos o casamento com Stephen. Enfim, o casamento durou 30 anos, e o casal teve três filhos.

Há também um filme baseado neste livro, que é mais centrado na relação amorosa dos dois, deixando de lado todos os problemas que Jane teve para gerenciar a família com a condição de Stephen. O livro é mais realista, mostrando as dificuldades de Jane para seguir uma carreira própria , e também como cuidar de uma pessoa com necessidades especiais.

 

Relações íntimas – Susan Isaacs

Ainda estou no começo deste livro, que é um romance que parece ser açucarado, mas tem muitas doses de ironia. É sobre uma mulher morando em Nova York; ela é judia e trabalha como redatora de discursos para políticos. Sua família é muito tradicional, e não aceita seu casamento com um não-judeu e sua posição de mulher independente. O livro foi publicado em 1980, mas parece que algumas coisas não mudaram.

 

7 maneiras de ser feliz – Luc Ferry

Pelo título, parece apenas outro livro de autoajuda. Mas o filósofo Luc Ferry faz uma crítica a nossa sociedade obcecada com a ideia de ser feliz a qualquer custo. O autor acaba com as nossas convicções de que buscar a felicidade é um fim em si mesmo. Para ele, há outros bens mais importantes, que estão acima de ser feliz, como a liberdade de pensamento.

Amós Oz e a coragem para 2019

 

amós oz coragem

Amós Oz, que faleceu no último dia 28, publicou 35 livros em sua longa carreira, também marcada pelo ativismo político (o autor defendia a criação de um estado palestino). Em 1988,o escritor publicou o livro A caixa-preta. Faz dez anos que li esse livro, não lembro da trama e nem de todos os personagens, porém foi uma obra marcante, que ficou na memória como um exemplo de escrita perfeita.

A narrativa de A caixa-preta é centrada nas correspondências trocadas entre um ex-casal sobre o casamento, e o filho, que mora num kibutz. O livro não é apenas sobre um relacionamento que não deu certo, é também sobre a complexa situação política de Israel e as implicações sobre a vida dos protagonistas. Livros estruturados na forma de cartas podem ser um pouco cansativos, mas Amós Oz conduz o leitor com ritmo e segurança.

Outra obra aclamada do escritor é De amor e trevas, um romance autobiográfico, que foi adaptado para o cinema pela atriz Natalie Portman em 2015. A vida de Amós Oz foi marcada pelo suicídio da mãe quando ele tinha apenas 13 anos. Depois do trágico episódio, ele mudou o sobrenome para “Oz”, que significa coragem em hebraico. E é isso que precisamos em 2019. Coragem para enfrentar os desafios e viver a vida sem medo.

 

“Toda a boa literatura nos transforma em homens e mulheres de outras culturas, de outros países, de diferentes religiões, diferentes tempos e nos faz sentir em casa em lugares muito distantes. É esse o milagre e a magia da literatura.”

Melhores leituras de 2018

melhores-leituras-2018

 

2018 foi um ano ruim para leituras, com muita procrastinação provocada por redes sociais, Youtube, Neflix e crise política. Comecei algumas leituras, abandonei outras, levei meses para ler certos livros. Também não sabia o que deveria fazer – um post no blog ou no Instagram. Decidi que 2019 vai ser o ano do blog! E com um foco mais nos escritores e escritoras.

Aqui vai uma listinha resumida dos livros que me marcaram em 2018.

Boas festas e muitos livros em 2019!

O castelo de vidro – Jeannette Walls

O castelo de vidro foi resenhado este ano no blog.  Neste livro de memórias, a jornalista Jeannette Walls recorda sua vida em uma família excêntrica e disfuncional. O que mais me marcou nesta leitura foi o retrato da miséria nos Estados Unidos, como vivem os pobres neste país que é considerado um modelo capitalista. A autora também escreve de maneira original, sem julgar os pais ou as circunstâncias, apenas registrando os fatos pela perspectiva de uma criança.

Apenas uma mulher – D.H.Lawrence

O título original em inglês deste conto do escritor D.H.Lawrence é The Fox – algo como A raposa ou O raposo numa tradução literal.  No finalzinho da Segunda Guerra, duas mulheres moram sozinhas em uma pequena fazenda no interior da Inglaterra. A rotina delas é interrompida com a chegada de um jovem soldado. Apenas uma mulher  é uma novela curta, mas um grande exemplo do talento literário do escritor D.H.Lawrence para envolver o leitor.

O anel do poder – Jean Shinoda Bolen

Jean Shinoda Bolen é uma psicanalista e psiquiatra americana. Em O anel do poder, Bolen se propõe a fazer uma análise psicanalítica da ópera “O anel dos nibelungos” de Richard Wagner. A obra de Wagner é complexa: são quatro óperas que basicamente giram em torno do “anel do nibelungo”, com uma trama que parece muito com o Senhor dos Anéis.

Para conseguir o poder do anel, os personagens tomam decisões questionáveis e destroem a vida das pessoas próximas. Jean Shinoda Bolen usa as quatro óperas para ilustrar como funciona uma sociedade patriarcal e autoritária, e como essa estrutura é reproduzida em escala menor nas famílias. Livro interessante para quem quer saber mais sobre psicologia e psicanálise junguiana.

 

Tudo o que eu sempre quis dizer mas só consegui escrevendo

tudo o que eu sempre quis dizer mas só consegui escrevendo

 

Maria Ribeiro é uma atriz (conhecida pelos filmes Tropa de Elite e Como nossos pais), escritora e cronista. Seus textos podem ser lidos no jornal O Globo, mas também em livros, como Tudo o que eu sempre quis dizer mas só consegui escrevendo. O livro é uma reunião de cartas que Maria escreveu para as pessoas mais próximas e queridas, como os pais, amigos, ex-namorados, colegas de trabalho. A autora escreve uma espécie de autobiografia por meio de cartas. Maria Ribeiro não tem medo de se expor e “discutir a relação” com os destinatários.

Reflexões sobre a vida se misturam com detalhes do dia a dia, como uma série, um livro legal, a relação com os filhos. As melhores cartas são as que foram escritas para os pais e os filhos. Há um tom de balanço da relação, mas também de perdão, de declaração de amor e amizade. A autora não tem medo de compartilhar seus pensamentos íntimos.

O que nos aproxima mais da escrita é que muitos dos destinatários são pessoas famosas, conhecidas pelo público, como os escritores Gregorio Duvivier e Xico Sá. Uma leitura leve e rápida. Recomendado!

A mulher na janela – A.J.Finn

a-mulher-na-janela-a.j.finn

 

Depois de anos trabalhando como crítico literário e editor, o americano A.J.Finn decidiu escrever um romance, sem imaginar que se tornaria best seller internacional em 41 países. A mulher na janela é um suspense, mas também um thriller psicológico onde o leitor entra no mundo interior da personagem Anna Fox.

Para escrever o seu primeiro livro, A.J.Finn baseou-se em sua própria experiência de vida. O autor luta desde os 21 anos contra a depressão. Apenas recentemente ele recebeu o diagnóstico de transtorno bipolar. O ajuste na medicação o ajudou a escrever A mulher na janela. Ele afirmou em entrevista que gostaria de contar a história de uma pessoa com doença mental, mostrar que precisam de cuidados e empatia.

A personagem Anna Fox é uma psiquiatra especializada no atendimento de crianças e adolescentes. Por algum motivo que o leitor não sabe (sem spoilers!), Anna tem depressão e agorafobia (medo de espaços abertos) e não consegue sair de casa. Sua principal ocupação é espionar a vida dos vizinhos e navegar na internet.

A trama do livro se desenvolve como um filme de suspense, não por acaso uma das principais influências do escritor. Quem viu o filme Janela Indiscreta irá identificar de imediato as semelhanças com a obra-prima do diretor Alfred Hitchcock. Uma pessoa que não pode sair de casa testemunha (ou pensa que viu) um crime.

Apesar da referência óbvia, Finn dá um toque moderno à trama, com uma personagem principal mulher e a exploração dos conflitos psicológicos. O autor consegue revitalizar o gênero suspense e policial, usando a estrutura dos filmes clássicos.

Aliás, os filmes antigos são a paixão do escritor e também da personagem Anna. A obra é tão cinematográfica que já está sendo adaptada para o cinema, com a atriz Amy Adams no papel principal.

Augusto – Christa Wolf

augusto christa wolf

 

A escritora alemã Christa Wolf (1929-2011) não é uma autora muito traduzida no Brasil, apesar de ser reconhecida como uma das grandes escritoras do idioma germânico. Após a Segunda Guerra Mundial, a cidade onde Wolf nasceu foi integrada à Polônia e a família teve que se mudar para a então Alemanha Oriental.

O socialismo, o comunismo, a polícia secreta e a espionagem compõem o ambiente de muitas de suas obras. Reflexões sobre Christa T., publicado em 1968, foi um dos livros mais criticados; é a história de uma mulher doente que reflete sobre suas convicções socialistas. Outras obras de maior destaque incluem Cassandra (1983) e Medea (1998).

Se a vida sob o socialismo serve como mote para muitas das obras de Wolf, Augusto é um livro que reflete sobre o pós-guerra. Augusto é uma criança internada num hospital improvisado em um castelo, logo após a Segunda Guerra. Órfão, ele desenvolve uma relação próxima com a enfermeira Lilo.

Augusto é uma novela curta (45 páginas), de leitura leve e rápida. Apesar do tema aparentemente triste, descobrimos que a vida de Augusto não foi apenas solidão e tristeza. Este clima de esperança em meio aos infortúnios talvez tenha relação com as circunstâncias com que a obra foi escrita. Augusto é o último livro escrito pela autora e um presente para o marido de Wolf.

A obra é narrada em terceira pessoa, mas sempre sob a perspectiva do olhar infantil, de uma criança fragilizada. Augusto tem uma certa semelhança com Macabéa, personagem criada por Clarice Lispector em A hora da estrela. Os dois personagens são ingênuos e viveram sofrimentos na infância. A única diferença é que Augusto foi poupado de algumas asperezas da vida e teve um final menos trágico.

Christa Wolf e Elena Ferrante

 

augusto christa wolf
Eu “conheci” Christa Wolf por “indicação” da escritora italiana Elena Ferrante. Em 2017, um jornal italiano apontou a tradutora Anita Raja como a pessoa por trás do pseudônimo Ferrante. As obras de Wolf foram traduzidas para o italiano por Anita Raja; há quem diga que há ecos da autora alemã nas obras da italiana. Se é verdade ou não, o que importa é ambas são uma ótima indicação de leitura.

Título: Augusto
Autora: Christa Wolf
Tradutor: Fernando Miranda
Editora: Jaguatirica

Orgulho e preconceito – Jane Austen

orgulho e preconceito jane austen

Elizabeth Bennet e Darcy, cena do filme “Orgulho e preconceito”, de 2005

 

Orgulho e preconceito é uma das obras mais conhecidas da escritora Jane Austen (1775-1817). Publicado em 1813, o romance entre Elizabeth Bennet e Sr. Darcy é um conto de fadas com toques de sarcasmo e humor, que nunca deixou de encantar leitores de diferentes épocas e países. É também uma das obras mais adaptadas para a TV e o cinema (a Rede Globo exibe atualmente a novela Orgulho e paixão, livremente inspirada no livro de Austen).

Orgulho e preconceito estabelece um dialogo íntimo com o leitor, como se estivéssemos com a própria Jane Austen em uma mesa de chá inglesa, contando histórias deliciosas do último baile ou fazendo alguma observação mordaz sobre os costumes da alta sociedade. Mas o que faz a obra de Jane Austen tão popular são os personagens Darcy e Elizabeth.

A família Bennet possui poucos rendimentos e cinco filhas que precisam “casar logo”. Na Inglaterra do século XIX, as mulheres não trabalhavam e não tinham direito à herança. Quem herdava os bens da família após a morte dos genitores eram os irmãos ou algum parente do sexo masculino. Portanto, o casamento era uma rota de fuga para que essas mulheres não tivessem que morar de favor em casa de parentes.

Logo no início de Orgulho e preconceito, a mãe de Elizabeth fica excitada ao saber que um jovem com rendas consideráveis alugou uma propriedade próxima. Ela diz ao senhor Bennet que este deve se apresentar ao novo vizinho, o jovem sr. Bingley, o mais rápido possível.

Durante um baile, o sr. Bingley conhece as irmãs Bennet e se encanta com a primogênita Jane. Bingley não vem desacompanhado e traz suas irmãs e um amigo, o sr. Darcy. Este logo chama a atenção do baile por sua postura e por possuir um rendimento de dez mil libras por ano. Mas a admiração inicial foi substituída por um desencanto, ele era um homem antipático e orgulhoso, que não se relacionava com ninguém.

 

 

É neste baile que ocorre o primeiro encontro entre Elizabeth e sr. Darcy. Ao contrário dos romances tradicionais, a química não é imediata. Quando sr. Bingley pergunta a Darcy por que ele não convida Elizabeth para dançar, este diz que ela não é bonita o suficiente. Elizabeth, que possui um grande senso de humor, faz piada com a situação, não deixando se abater pelo orgulhoso cavalheiro.

Logo as primeiras impressões entre os dois são desfeitas, e Elizabeth aprende a apreciar as qualidades de Darcy, que apesar da arrogância e frieza é um homem sensível e de bom coração. Darcy também aprende com o tempo a olhar Lizzy com mais carinho e a apreciar sua personalidade e  inteligência.

 

Darcy e Elizabeth

 

 

Elizabeth Bennet é uma das personagens mais bem construídas e cativantes da literatura. Todas as mulheres se identificam com Elizabeth e suas questões. Ela não é perfeita e sabe reconhecer seus erros. O tempo inteiro as tramas e ações dos personagens giram em torno de possíveis pretendentes, fofocas e festas. Porém, Austen sempre nos guia para o ponto de vista inteligente e sensível da heroína Lizzy.  Ela não é previsível, tem grande consciência das limitações e injustiças sofridas pelas mulheres, um grande senso de observação e justiça.

Mas o personagem mais polêmico é o arrogante Darcy. Muitos críticos apontaram que o personagem não era verossímil, que não era possível encontrar alguém assim na vida real. E a obra mais popular de todos os tempos foi atacada por que sua autora era “uma solteirona sem experiência de vida”. Nas inúmeras biografias sobre a escritora, como Jane Austen: uma vida revelada, vimos que a vida amorosa de Austen não foi tão morna como se pensa.

As obras de Austen são tão boas e tão populares justamente pelo seu olhar inteligente e arguto para as convenções sociais da sociedade inglesa da época e para criar personagens reais, com emoções e motivações humanas. Um talento que resiste através dos séculos.

A imaginária – Adalgisa Nery

a-imaginária-adalgisa-nery

Escritora, jornalista, deputada estadual no Rio de Janeiro, Adalgisa Nery (1905 – 1980) foi uma intelectual de destaque no Brasil. Seu livro A imaginária foi publicado pela primeira vez em 1959 e foi sucesso de público e crítica, com cinco edições publicadas na época. Apesar do grande sucesso literário, A imaginária só ganhou uma nova edição em 2015.

Escrito em primeira pessoa, o livro é um monólogo interior da personagem Berenice, que repassa em uma noite solitária os principais acontecimentos da sua vida. Mas também é uma autobiografia, uma forma que Adalgisa encontrou para escrever sobre o tumultuado casamento com o pintor Ismael Nery (1900-1934).

Assim como a personagem principal, Adalgisa perdeu a mãe muito jovem, aos oito anos de idade. A solidão marca a vida da personagem Berenice desde a infância. A garota já demonstrava uma grande sensibilidade e uma personalidade forte. Com o novo casamento do pai, entra em conflito com a madrasta, e é mandada para colégios internos. Mas o grande rompimento com a família acontece quando Berenice se apaixona pelo vizinho e casa ainda adolescente.

Adalgisa e Ismael Nery

Adalgisa casou com Ismael Nery em 1922, quando tinha apenas 17 anos. Ismael era um grande nome nos meios intelectuais e artísticos do Rio de Janeiro; e Adalgisa fez amizades e conheceu nomes como Manuel Bandeira e Murilo Mendes. Mas o casamento também foi extremamente opressor para a escritora, e o lado sombrio do casamento foi retratado em A imaginária.

O marido da personagem Berenice tem um comportamento condescendente: a considera muito jovem, sem criatividade e brilhantismo. Ele adoece e a maior preocupação é com a vida afetiva e sexual da mulher depois que morrer.  Todos os acontecimentos de sua vida a tornam uma mulher ansiosa pelo futuro, mas consciente que, por sua condição feminina, muitos outros acontecimentos ruins estão a sua espera.

“Há dias, começo a pressentir que novas camadas de acontecimentos imprevistos e cruéis serão colocados a minha alma. E já me falta o ar!”

 

a imaginária adalgisa nery

Adalgisa Nery, pintura de Ismael Nery

 

Adalgisa escreve de forma poética os sentimentos e angústias que passou durante o casamento, abordando como as estruturas da sociedade afetam a saúde mental da mulher. Não podemos esquecer que a época em que viveu Adalgisa ainda era de grandes restrições para as mulheres. Ela mesma não escreveu nada durante o casamento, reprimindo sua veia poética – seu primeiro livro de poemas foi publicado em 1937.

Após a morte de Ismael Nery, Adalgisa casou em 1940 com Lourival Fontes, chefe do Departamento de Imprensa e Propaganda no governo Getúlio Vargas. Adalgisa acompanhou Fontes em missões diplomáticas nos Estados Unidos e no Canadá enquanto continuava a escrever e publicar livros de poemas e ficção.

Em 1945, Fontes foi nomeado embaixador no México. Neste período, Adalgisa estabeleceu laços de amizade com os principais artistas mexicanos, como Frida Kahlo e Diego Rivera. Também foi homenageada pelo governo mexicano por suas conferências sobre artistas como a poetisa Juana Inés.

Além da carreira como escritora e jornalista, Adalgisa se aventurou na política. Foi eleita deputada estadual no Rio de Janeiro em 1960 pelo Partido Socialista Brasileiro. As colunas diárias que Adalgisa escrevia para o jornal Última Hora, a ajudaram a se eleger. Mesmo com o golpe de 1964, Adalgisa continuou os seus trabalhos como deputada. Porém, teve seus direitos políticos cassados em 1969.

Após a cassação do mandato, Adalgisa tornou-se reclusa e solitária. Internou-se em uma casa de repouso em 1976 e faleceu em 1980.

Título: A imaginária
Autora: Adalgisa Nery
Editora: José Olympio

Biografia: Jane Austen – uma vida revelada

As obras de Jane Austen são lidas por milhões de pessoas em todo o mundo. Ela foi uma das escritoras que melhor retratou os costumes da aristocracia inglesa do século 19.

O mundo em que a escritora viveu na infância e na vida adulta foi a inspiração para clássicos como Razão e sensibilidade e Orgulho e preconceito. Este mundo era uma Inglaterra conservadora, onde o valor social das mulheres era regido pelo casamento e o dote. Mesmo com a evolução das condições de vida das mulheres, os leitores modernos continuam a se encantar com as personagens de Austen.

Catherine Reef, em sua biografia Jane Austen – uma vida revelada, mostra como os livros – e a própria vida de Austen – giraram em torno do conflito entre o amor verdadeiro e casamentos arranjados, determinados pela classe social.

biografia -jane austen uma vida revelada

 

Jane Austen e a vida de escritora

Jane Austen começou a escrever ainda na infância. Seu pai, um clérigo do interior da Inglaterra, a incentivava a ler e a escrever, o que não era muito comum na época. As mulheres eram educadas para o casamento e não tinham direito à herança. Este fato influenciou a vida e os escritos de Austen, que só começou a fazer sucesso financeiro como escritora depois dos 30 anos. A maioria das obras de Austen foram publicadas sob pseudônimo. Quando ela estava começando a se tornar conhecida, morreu prematuramente aos 41 anos.

As mulheres da classe social de Jane Austen não trabalhavam. Havia uma série de regras sociais que a aristocracia e as classes mais abastadas tinham que seguir. Os casamentos eram arranjados, e a própria Jane recusou propostas por não amar os pretendentes (atitude incomum para época). A escritora foi hábil em transpor para os livros este universo em obras como Orgulho e preconceito.

Um livro indicado para todos os fãs de Jane Austen e para quem quer entender mais sobre a Inglaterra do século 19.


Título:
 Jane Austen – uma vida revelada
Autora: Catherine Reef
Tradutora: Kátia Hanna
Editora: Novo Século

Resenha: O castelo de vidro – Jeannette Walls

Resenha: O castelo de vidro – Jeannette Walls

O livro da jornalista Jeannette Walls foi adaptado para o cinema

 

Após uma infância difícil, a jornalista americana Jeannette Walls construiu um mundo seguro e confortável. Usava pérolas e morava em um apartamento na Park Avenue, um dos endereços mais sofisticados de Nova York. Em um final de tarde, presa no engarrafamento enquanto ia para uma festa, viu sua mãe revirando uma caçamba de lixo. A mãe de Jeannette, Rose Mary Walls, já havia recusado ajuda várias vezes e preferia continuar nas ruas.

A renomada jornalista, que assinava uma coluna na revista New York, se sentindo envergonhada, não conseguiu cumprimentar sua mãe. A visão de sua mãe catando comida no lixo a perturbara demais. Voltou para casa e, mais tarde, almoçou com Rose Mary Walls. Jeannette queria ajudar de alguma forma, mas ela apenas murmurou: “Seu pai e eu somos quem somos. Aceite isso”.

Jeannette havia construído uma carreira de sucesso no jornalismo, porém nunca havia contado a ninguém sobre seu passado. Em uma entrevista ao jornal The New York Times, Jeannette afirmou que tinha uma coluna de fofocas e era boa em revelar o segredo dos outros, mas ela mesma mantinha em segredo sua vida. O livro O castelo de vidro é uma tentativa de aceitação e também de fazer as pazes com o passado.

 

Vida nômade da família retratada no filme “O castelo de vidro”

Quando se mudou para Nova York ainda adolescente, Jeannette procurava uma vida totalmente diferente da que teve na infância e na adolescência. Seu pai, Rex Walls, fora militar da aeronáutica e fazia bicos como eletricista. Rose Mary Walls era uma professora que preferia o trabalho artístico: pintava e escrevia contos e romances.

A trajetória nômade da família Walls pelos Estados Unidos também virou filme, lançado em 2017. O casal não tinha endereço fixo e peregrinava pelos Estados Unidos de acordo com as oportunidades e a perseguição dos cobradores (que Rex dizia serem agentes do FBI).

Os três filhos do casal foram criados num ambiente de liberdade, mas também beirando a negligência. Rex era alcoólatra e sempre perdia empregos ou se metia em confusões por causa do vício. Rose vivia entre altos e baixos emocionais e tinha opiniões bem particulares sobre a vida e como as crianças deveriam ser educadas. Enquanto toda a família passava fome, Rose se recusava a trabalhar como professora. Nas poucas vezes em que arranjou trabalho, foi por insistência dos filhos, que até ajudavam a mãe a corrigir as lições.

As residências da família eram sempre improvisadas. Carros em estacionamentos, antigas estações de trem. Os Walls viveram momentos difíceis, mas as dificuldades também eram travestidas de lirismo. Como não havia dinheiro suficiente para os presentes de Natal, Rex pediu que cada filho escolhesse uma estrela no céu como presente.

Jeannette Walls escreveu um livro memorável. Os capítulos são bem encadeados e envolvem o leitor no mundo caótico da família. Apesar dos momentos difíceis, a autora torna o livro menos pesado ao usar uma linguagem bem humorada e adotar o ponto de vista ingênuo e simples de uma criança.