Um soneto de Camões

poesia camões

Tanto de meu estado me acho incerto,
que em vivo ardor tremendo estou de frio;
sem causa, juntamente choro e rio,
o mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto, um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando,
num’hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar um’ hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora

“Frantumaglia” reúne artigos e entrevistas da escritora Elena Ferrante

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A editora Intrínseca publicou nesta semana o livro “Frantumaglia: os caminhos de uma escritora”, livro que reúne cartas, entrevistas e artigos sobre o processo criativo da escritora Elena Ferrante. Esta autora italiana virou fenômeno global com a série napolitana, um conjunto de quatro livros narrados pela personagem Elena Greco, que recorda a conflituosa amizade com Lina, sua amiga de infância.

Não se sabe quem é a escritora que se esconde sob o pseudônimo de Elena Ferrante. Ela se recusa a dar entrevistas e a aparecer em público. Em 2016, o jornalista investigativo Claudio Gatti apontou a tradutora Anita Raja como o nome por trás do sucesso da tetralogia napolitana. Raja não se pronunciou sobre o assunto, nem Elena Ferrante.

A mãe de Raja é uma sobrevivente dos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, muito distante dos relatos de Ferrante. Para os fãs da escritora, ela é uma verdadeira napolitana criada nos subúrbios de Nápoles.

Em Frantumaglia, a escritora italiana divide com o leitor seu processo criativo e suas memórias afetivas. Frantumaglia é uma palavra italiana usada pela mãe de Ferrante para descrever pequenos pedaços de recordações, memórias e imagens que teimam em aparecer em nossas mentes. Como escreve a própria Elena Ferrante:

“A frantumaglia é uma paisagem instável, uma massa aérea ou aquática de destroços infinitos que se revelam ao eu, brutalmente, como sua verdadeira e única interioridade. A frantumaglia é o depósito do tempo sem a ordem de uma história, de uma narrativa. A frantumaglia é o efeito da noção de perda, quando temos certeza de que tudo o que nos parece estável logo se unirá a uma paisagem de detritos”

O amor de Carlos Drummond de Andrade

o amor de Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade, poeta que deixou vários versos marcantes e populares na literatura brasileira, tinha uma visão irônica e melancólica do amor. O poema “Quadrilha” é um exemplo da visão realista de Drummond …(João amava Teresa que amava Raimundo…).

“Carlos, sossegue, o amor/é isso que você está vendo: hoje beija, amanhã não beija…”

É um bom conselho para os desiludidos

O poeta morreu 12 dias depois que sua única filha faleceu. Maria Julieta Drummond de Andrade faleceu no dia 5 de agosto de 1987.

“À beira do negro poço
debruço-me; e nele vejo,
agora que não sou moço,
um passarinho e um desejo.”

Universidade da Pensilvânia oferece curso gratuito sobre poesia americana

Universidade da Pensilvânia oferece curso gratuito sobre poesia americana

A poeta americana Emily Dickinson

 

Quem deseja conhecer mais sobre a poesia americana moderna e contemporânea, pode acessar as aulas gratuitas da Universidade da Pensilvânia na plataforma Coursera. O aluno acessa o curso quando quiser, mas para conseguir o certificado deve participar dos fóruns. As aulas começam oficialmente no dia 9 de setembro, mas quem quiser conhecer mais poetas como Walt Whitman e Emily Dickinson já pode acessar o curso. As aulas e o material do curso estão em inglês.

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Um poema de Camões

Luís Vaz de Camões Que dias há que na alma me tem posto Um não sei quê, que nasce não sei onde,  Vem não sei como, e dói não sei porquê

 

Busque Amor novas artes, novo engenho
Para matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Pois mal me tirara o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Pois não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.

*Soneto publicado do livro  Sonetos para amar o amor, com poesias de Luís Vaz de Camões, selecionadas pelo escritor Sergio Faraco.

Título: Sonetos para amar o amor
Autor: Luís Vaz de Camões – seleção, organização e notas de Sergio Faraco.
Editora: L&PM
Ano: 2010

Ricardo Reis e a passagem do tempo

Fernando Pessoa teve diversos heterônimos – personagens criados pelo poeta e que possuem obra, biografia e estilo próprios. Os heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro nasceram no dia 8 de março de 1914, “um dia triunfal”, nas palavras do próprio Pessoa.

Ricardo Reis

Ricardo Reis nasceu em 1887, é médico e vive no Brasil. Estudou num colégio de jesuítas e faz uma poesia clássica, pagã, preocupada com a passagem do tempo.

Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.

heterônimos Fernando Pessoa ricardo reis

 

QUER POUCO: terás tudo.
Quer nada: serás livre.
O mesmo amor que tenham
Por nós, quer-nos, oprime-nos.

Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos.
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

A onda das garotas na literatura

“A garota no trem”

“Garota exemplar”

“A garota do calendário”

Quantos livros com garota no título você consegue se lembrar?

Os livros com “garotas” se tornaram bastante populares nos últimos anos. Mas o que está por trás desses títulos? Pura estratégia de marketing?

a onda das garotas na literatura

 

A escritora canadense Emily St. John Mandel (que escreveu o ótimo “Estação Onze” – resenha aqui) fez uma análise  baseada nos dados da rede social Goodreads sobre o fenômeno, além de conversar com pessoas que trabalham no mercado editorial. A análise da escritora foi publicada na revista americana FiveThirtyEight em outubro de 2016.

Febre Millenium

De acordo com as fontes ouvidas por Mandel, a onda dos livros com “garota” na capa talvez tenha começado com a série Millenium, do escritor sueco Stieg Larsson. Em inglês, os livros de Larsson ganharam títulos  com a palavra girl “The Girl With the Dragon Tattoo”, “The Girl Who Played With Fire”, “The Girl Who Kicked the Hornet’s Nest”. Em português do Brasil o girl é substituído muitas vezes por “menina” – (A menina que brincava com fogo).

Um dos achados de Mandel é que na maioria das vezes a garota do livro já é uma mulher. Muitas vezes não é decisão do escritor o título final da obra, portanto os editores escolhem o título que terá mais chances de atrair a atenção do público. E para isso, nada melhor do que entrar na onda das garotas.

a onda das garotas na literatura

Até o Mia Couto entrou na onda

Dos 810 mais populares livros com garota na capa, 79% são mulheres. Outro achado interessante da escritora é que a probabilidade da garota morrer na trama é maior se o escritor for homem. Na verdade, a porcentagem é de 17% para livros de escritores e de 5% de garotas mortas durante a trama para escritoras mulheres. Como Mandel mesmo sublinha, isso não significa que personagens mulheres têm mais chance de serem mortas se o autor for homem, mas apenas se no título houver a palavra “garota”. As mulheres também tendem a escolher mais protagonistas femininas, e seria uma escolha muito incomum matar a personagem principal.

Talvez os editores tenham razão.”A garota no trem”, de Paula Hawkins, e “A história da menina perdida”, Elena Ferrante, estão entre os mais vendidos na categoria ficção no Brasil.

Quarto livro da série napolitana é publicado no Brasil

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O último livro da série napolitana, da misteriosa escritora Elena Ferrante, estará disponível nas livrarias amanhã, dia 27 (leia a resenha do livro). “História da menina perdida” é o último capítulo da história de Lenu e Lina, duas amigas que sobreviveram a uma infância difícil em Nápoles e que agora devem superar os desafios da vida adulta e da condição feminina.

História da menina perdida” é a continuação do penúltimo livro  da série, “História de quem foge e de quem fica” (resenha aqui).  No final do terceiro livro, o casamento de Lenu está por um fio, e Lina parece ter se acomodado no antigo bairro da infância e no novo emprego como programadora. O quarto livro aborda a transição de Lenu e Lina da vida adulta para a velhice

Estou ansiosa para saber como a história termina. Como Lenu resolverá o conflito amoroso entre Nino e Pietro? E Lina, vai continuar se resignando aos problemas do bairro? Mais 480 páginas que serão devoradas rapidamente!

História da menina perdida – Elena Ferrante
Tradução: Maurício Santana Dias
Páginas: 480
Data de lançamento: 27/04/2017
Preço: R$ 49,90
Editora: Biblioteca Azul – Globo Livros

Álvaro de Campos – heterônimo de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa teve diversos heterônimos – personagens criados pelo poeta e que possuem obra, biografia e estilo próprios. Os heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro nasceram no dia 8 de março de 1914, “um dia triunfal”, nas palavras do próprio Pessoa.

Álvaro de Campos

O mais histericamente histérico dos personagens de Fernando Pessoa (segundo ele mesmo). Álvaro de Campos estudou engenharia naval na Escócia, é alto, algo entre branco e moreno e com cabelos lisos. Em carta a Adolfo Casais Monteiro, Pessoa detalhou a criação dos heterônimos e das características de Álvaro de Campos:

“Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1.30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inactividade. Álvaro de Campos é alto (1,75 m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos — o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma — só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.”

 

 

 

poemas de álvaro de campos heterônimo de fernando pessoa

Lisbon Revisited

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!