Nicanor Parra – poeta chileno ainda desconhecido no Brasil

Nicanor Parra poeta chileno

 

O poeta Nicanor Parra, um dos últimos grandes poetas do Chile, morreu na madrugada de 23 de janeiro, aos 103 anos. Parra ganhou destaque na cena literária chilena ao criar o movimento antipoesia, que tinha como meta retirar o caráter sacro da poesia e aproximá-la das massas.

Infelizmente, Parra ainda não foi publicado no Brasil. A Editora 34 irá publicar em 2018 uma coletânea de poemas do autor.

Nicanor Parra nasceu em setembro de 1914 em Las Cruces, cidade do litoral do Chile, onde passou seus últimos anos de vida. Além da carreira literária, Parra estudou matemática e física. A família Parra teve uma destacada presença na vida cultural chilena. A irmã de Parra, Violeta, foi uma destacada cantora e compositora.

Nicanor Parra e a antipoesia

O movimento antipoesia foi uma resposta ao formalismo da poesia chilena, que tinha como expoente máximo Pablo Neruda. Ao criar o movimento, Parra queria demolir as estruturas da forma poética e remover a aura sagrada da literatura e das coisas. O poeta recebeu muitos prêmios e homenagens, como o Prêmio Miguel de Cervantes.

 

Hay que pavimentar la cordillera
pero no con cemento ni con sangre
como supuse en 1970
hay que pavimentarla con violetas
hay que plantar violetas
hay que cubrirlo todo con violetas
humildad
igualdad
fraternidad
hay que llenar el mundo de violetas

Ubu editora publica biografia da poetisa Juana Inés

biografia da poetisa Juana Inés

Capa do livro “Sor Juana Inés de la Cruz ou As armadilhas da fé”, escrito pelo Nobel de literatura Octavio Paz

 

A editora Ubu relança no mercado brasileiro um ensaio sobre a poetisa barroca espanhola Juana Inés – “Sor Juana Inés de la Cruz ou As armadilhas da fé”. O livro, que foi escrito pelo Nobel de literatura Octavio Paz, mistura história, crítica literária e biografia para resgatar a história da primeira escritora de língua espanhola na América.

Inés foi uma das grandes poetisas do período barroco espanhol e era conhecida pela grande inteligência e virtuosismo com as palavras.

Juana Inés nasceu Juana Ramírez de Asbaje em San Miguel de Nepantha, no México.  Era filha bastarda de Pedro Manuel de Asbaje y Vargas Machuca com a criolla Isabel Ramírez de Santillana. Seu pai abandonou a família e a mãe se casou novamente.

Precoce e com grande curiosidade intelectual, educou-se na biblioteca do avô. Leu os clássicos gregos e romanos, filosofia e teologia. Também estudou astrologia e matemática. Infelizmente, na época em que Juana Inés viveu, as mulheres não tinham acesso aos estudos formais. Ela chegou a considerar se vestir de homem para entrar na universidade. Teve aulas de latim e também aprendeu a falar o idioma indígena nahuatl, o que era causa de grande escândalo.

Além da obra de Octavio Paz, podemos saber mais sobre a vida da poetisa na série “Juana Inés, disponível na Netflix.

Ilustrações raras de George Barbier para o clássico “As ligações perigosas”

as ligações perigosas ilustrada por george barbier

 

Em 1782, o escritor francês Choderlos de Laclos publicou o clássico “As ligações perigosas“. O romance gira em torno das cartas trocadas entre um grupo de aristocratas libertino, empenhados na arte da sedução. Um dos passatempos do Visconde de Valmont é seduzir jovens inexperientes. Valmont conta com a ajuda da Marquesa de Merteuil para conquistar Cecile, jovem recém-saída do convento e prometida em casamento.

Porém, em 1934 a obra ganhou uma versão refinada com ilustrações do artista francês George Barbier (1882-1932). O livro hoje é uma raridade. Ah, se eu pudesse comprar…

as ligações perigosas ilustrações por george barbier

as ligações perigosas george barbier

As memórias de Olga Borelli em “Clarice Lispector – esboço para um possível retrato”

Muitas biografias sobre a escritora Clarice Lispector (1920-1977) foram feitas, como a mais recente e famosa, “Clarice,” do americano Benjamin Moser; e a biografia escrita pela pesquisadora Nádia Gotlib, “Clarice uma vida que se conta“.

Mas há uma obra pouco conhecida sobre Clarice, escrita por Olga Borelli, amiga íntima e presente em seus últimos  anos de vida. Em “Clarice Lispector – esboço para um possível retrato“, Borelli une suas memórias a textos inéditos da autora. É um livro imperdível para os fãs da escritora. Sempre há um mistério por revelar em Clarice, e neste livro entramos um pouquinho mais neste mistério.

A obra foi publicada em 1981 e não houve mais reedições. O livro pode ser comprado por um preço bem salgado em sebos ou pode ser encontrado em bibliotecas públicas (peguei emprestado na biblioteca da Universidade Federal de Santa Catarina).

 

As memórias de Olga Borelli em Clarice Lispector esboço para um possível retrato

O livro de Olga Borelli sobre Clarice não está mais disponível nas livrarias, mas pode ser encontrado em bibliotecas públicas. (Este exemplar da UFSC está um pouco surrado)

 

A vida íntima de Clarice

Os detalhes da vida cotidiana e a seleção de textos e cartas feita por Olga Borelli fazem com que o leitor sinta o pensamento de Clarice e tenha uma compreensão íntima da escritora.  Em suas memórias, Borelli reconstituiu os mínimos detalhes da vida da amiga: a cor do batom (rubro forte), a hora de acordar (entre três e cinco da manhã), o significado de Deus (Deus significa o apuramento do sonho, significa a capacidade de uma pessoa de se livrar do peso do si-mesmo).

Nos últimos anos de vida da escritora, era Borelli quem ajudava a editar os livros e a organizar os fragmentos de texto que Clarice anotava em talões de cheques, guardanapos e lenços. Foi Borelli que ajudou Clarice na estruturação do livro “Água viva“. A escritora anotou palavras e frases por três anos, mas apenas quando conheceu Olga conseguiu estruturar o livro, que é um jorro de pensamentos e sensações, sem a estrutura tradicional de enredo e trama. A própria Clarice não considerava o livro bom, e acreditava que nenhuma editora se interessaria por ele (observação: o livro é ótimo!).

 

as memórias de olga borelli em clarice lispector esboço para um possível retrato

Clarice Lispector e Olga Borelli em viagem a Buenos Aires

 

De acordo com Olga Borelli, o método de trabalho para editar uma das maiores escritoras brasileiras era “respirar junto“. E é respirando junto com Clarice e Olga que lemos “Clarice Lispector – esboço para um possível retrato“:

“Quantas vezes vi, maravilhada, o nascimento de um texto a partir da simples anotação de uma palavra! Mas também quantas vezes fui testemunha impotente de seus momentos de desespero diante do desafio do papel em branco.”

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio. Que é que eu posso escrever. Como posso anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma ideia. Cada palavra materializa o espírito. Quantas mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.

“Sua solidão foi consequência da liberdade maior a que sempre aspirou. Fazia o que queria quando queria. Não era um ser fechado, amargurado, como se divulgou. Dava declarações, quando as sabia indispensáveis, e se deixava fotografar.”

Minha própria liberdade não é livre: corre sobre trilhos invisíveis. Nem a loucura é livre. Mas também é verdade que liberdade sem uma diretiva seria uma borboleta voando no ar.

Estou no reino da fala. Escrever é lidar com a absoluta desconfiança. Escrevo como se somam 3 algarismos. A matemática da existência. O que escrevo é simples como um vôo. Um vôo vertiginoso. Êxtase?”

 

“Manual da faxineira”, da escritora Lucia Berlin, é publicado no Brasil

 

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Conheci a escritora americana Lucia Berlin (1936-2004) lendo um artigo da revista literária The Paris Review  e me apaixonei pela escrita irônica, o modo de contar uma história sem frescuras e indo direto ao ponto. O conto “B.F. and Me” é delicioso; Berlin disserta sobre a profissão de telefonista e sobre as vozes humanas e suas personalidades. Fiquei louca para ler um livro dela, mas não havia nenhum traduzido para o português. Até agora. A Companhia das Letras irá lançar no próximo dia 13 o livro “Manual da Faxineira”, que reúne contos da escritora.

Lucia Berlin teve uma vida tumultuada e cheia de experiências que serviram de inspiração para sua obra. Aos 32 anos, já havia casado três vezes e vivido em vários lugares do mundo. Durante a infância e a adolescência, viveu no Chile e no México, onde casou e frequentou a universidade. Depois de ser abandonada pelo marido, casou novamente e mudou-se para Nova York. O último casamento foi com Buddy Berlin.  Exerceu várias profissões para sustentar os quatros filhos: professora, telefonista, faxineira e enfermeira. Nos últimos anos de vida, foi professora de escrita criativa na Universidade do Colorado.

“Manual da Faxineira” na lista dos melhores livros do New York Times

Suas experiências profissionais e os problemas com drogas e álcool foram a base de diversos contos. Ela começou a publicar textos esporádicos em algumas revistas literárias na década de 60, mas apenas nos anos 70 publicou um livro. Chamou a atenção de escritores como Lydia Davis e Saul Bellow, mas foi pouco reconhecida em vida, tanto pelo público como pela crítica.

A grande virada, infelizmente, veio depois da sua morte. Em 2015, os contos de Berlin foram reunidos no livro Manual da Faxineira, que foi indicado pelo The New York Times como um dos “10 melhores livro do ano”.

 

Vida da poetisa Juana Inés é inspiração para série da Netflix

Desde janeiro está disponível na Netflix a série “Juana Inés” sobre a poetisa, escritora, dramaturga e religiosa Irmã Juana Inés de la Cruz (1651-1695). Ela foi uma das grandes poetisas do período barroco espanhol e era conhecida pela grande inteligência e virtuosismo com as palavras. A série mostra a dificuldade das mulheres de terem acesso ao mundo cultural e intelectual da época, e as poucas oportunidades que tinham fora do casamento, principalmente quando eram filhas bastardas.

Juana Inés nasceu Juana Ramírez de Asbaje em San Miguel de Nepantha, no México. De acordo com a série, era filha bastarda de Pedro Manuel de Asbaje y Vargas Machuca com a criolla Isabel Ramírez de Santillana. Seu pai abandonou a família e a mãe se casou novamente.

Precoce e com grande curiosidade intelectual, educou-se na biblioteca do avô. Leu os clássicos gregos e romanos, filosofia e teologia. Também estudou astrologia e matemática. Infelizmente, na época em que Juana Inés viveu, as mulheres não tinham acesso aos estudos formais. Ela chegou a considerar se vestir de homem para entrar na universidade. Teve aulas de latim e também aprendeu a falar o idioma indígena nahuatl, o que era causa de grande escândalo.

 

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Juana Inés aos quinze anos de idade

Com 14 anos, ingressou na Corte Virreinal do México e logo caiu nas graças da realeza pela sua erudição, mas principalmente por causa de seus versos. Foi dama de companhia da Marquesa de Mancera, Leonor Carreto, para quem escreveu versos. A “Fênix da América” escreveu poemas sagrados e profanos. Alguns deles podem ser lidos aqui.

 

DOCE TORMENTO

 O mal que venho sofrendo
E que em meu peito se lê,
Sei que o sinto, mas porque
O sinto é que não entendo.

Sinto uma grave agonia
No sonhar em que me vejo:
Sonho que nasce em desejo
E acaba em melancolia.

Quando com maior fraqueza
O meu estado deploro,
Sei que estou bem triste, e ignoro
A causa de tal tristeza.

Sinto um desejo nefasto
Pelo objeto ao qual aspiro;
Mas quando de perto o miro,
Eu mesma é que a mão afasto.

Penso mal do mesmo bem
Com receoso temor
E às vezes o mesmo amor
Me obriga a mostrar desdém.

Com pouca causa ofendida,
Costumo, com meio amor,
Negar um leve favor
A quem eu daria a vida.

Já paciente, já irritada,
Vacilo em penar agudo:
Por ele sofrerei tudo,
Tudo; mas com ele, nada.

Ao que pelo objeto amado
Meu coração não se atreve?
Por ele, o pesado é leve;
Sem ele, o leve é pesado.

Quando o desengano toco,
Luto com o mesmo quebranto
De ver que padeço tanto,
Padecendo por tão pouco.

No tormento em que me vejo,
Levada de meu engano,
Busco sempre o desengano,
E não acha-lo desejo.

Se a alguém meu queixume exalo,
Mais a dizê-lo me obriga
Para que mo contradiga
Do que para reforçá-lo.

Pois e, com minha paixão,
Daquele que amo maldigo,
É meu maior inimigo
Quem nisso me dá razão.

Se acaso me contradigo
Neste meu arrazoado,
Vós que tiverdes amado
Entendereis o que digo.

Sucesso literário e conflitos com a Igreja

Como filha bastardada, sem dote, a única opção que restava era ser dama de companhia na corte ou freira. Aos 16 anos entrou para a Ordem das Carmelitas Descalças, mas não se adaptou à rigidez do convento. Em 1668, ingressa na Ordem das Jerônimas, onde permanecerá por toda a vida.

A sugestão para entrar no convento veio do padre Núñez de Miranda, confessor dos vice-reis. Na série da Netflix, ele é um vilão que atormenta Juana Inés – ele foi confessor da poetisa na ficção e na vida real, além de ser membro do Tribunal do Santo Ofício. O padre Núñez de Miranda ficcional é cheio de inveja e admiração pelo talento de Juana Inés. Na vida real, o comportamento da escritora era reprovado por seu confessor. Com a ajuda de María Luisa Gonzaga Manrique de Lara, a condessa de Paredes, Juana Inés consegue se afastar da esfera de influência de Miranda.

 

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Retrato de Juana Inés por Miguel Cabrera

Muitos estudiosos especularam sobre a relação de Juana Inés com a condessa. Maria Luísa incentivava a carreira da monja e ambas eram muito próximas. A escritora escreveu inúmeros poemas para a condessa, quase 50, que foram compilados recentemente na coletânea “Un amar ardiente”.

Juana Inés não escreveu apenas poemas sobre o amor e Deus, mas também aproveitou sua pluma para criticar os homens e o machismo da sociedade, como no poema “Homens néscios que acusais”:

 

HOMENS NÉSCIOS QUE ACUSAIS

Homens néscios que acusais
a mulher sem razão,
sem ver que sois a causa
do mesmo que culpais:

se com ânsia sem igual
solicitais seu desdém,
por que quereis que procedam bem
se as incitais ao mal?

Combateis sua resistência
e logo, com gravidade,
dizeis que é leviandade
o que fez a diligência.

Assemelhar-se quer a ousadia
de vosso parecer louco,
ao menino que faz uma mostro
e logo lhe tem medo.

Quereis, com presunção néscia,
encontrar à que procurais,
para prometida, Thais,
e para possuir, Lucrecia.

Que humor pode ser mais estranho
que aquele que, sem conselho,
ele próprio embaça o espelho,
e reclama que não está claro?

Com o favor e o desdém,
estás em igual condição,
queixando-se, se lhes tratam mal,
zombando, se lhes querem bem.

Opinião, nenhuma ganha,
pois a que mais se recata,
se não vos admite, é ingrata,
e se vos admite, é leviana.

Sempre tão néscios andais
que, com desigual cota,
a uma culpais por cruel
e a outra por fácil culpais.

Pois como há de ser moderada
a que vosso amor pretende,
se a que é ingrata, ofende,
e a que é fácil, entedia?

Mas, entre o tédio e a aflição
que vosso gosto insinua,
bem haja a que não vos queira
e lamentai vos em hora idônea.

Dão vossas queridas tristezas,
a suas liberdades asas,
e depois de torná-las más
quereis achá-las virtuosas.

Qual maior culpa tem tido
em uma paixão errada:
a que cai pelos rogos
ou quem roga por caído?

Ou quem tem maior culpa,
independente do mal que faça:
a que peca por salário,
ou quem para pecar paga?

Pois, para que vos espantais
da culpa que tens?
quereis elas como as fazeis
ou fazei elas como as procurais.

Deixe de solicitar,
e depois, com mais razão,
acusareis a afeição
da que vos for a suplicar.

Bem com muitas armas fundo
que luta vossa arrogância,
pois em promessa e instancia
juntais diabo, carne e mundo.

 

A Igreja Católica não via com bons olhos a independência e o talento da monja, que parecia não se importar com as consequências dos seus escritos. Os conflitos se tornaram mais agudos à medida que Juana Inés ganhava fama literária. O estopim foram os comentários críticos ao “Sermão do Mandato”, do padre Antonio Vieira, que Juana Inés fez em carta privada ao bispo Don Manuel Fernandes.  O religioso publicou o manuscrito sem a autorização da autora, com o nome de “Carta Atenagórica”, e assinou o prefácio sob o pseudônimo Sóror Filotea de la Cruz.

Em resposta, Juana Inés publicou “Respuesta a Sóror Filotea de la Cruz“, carta na qual defende a liberdade intelectual da mulher. Após a publicação da carta, aumenta a pressão do clero sobre Juana Inés. Ela se reaproxima do padre Núñez de Miranda, que a aconselha a abandonar os estudos para fugir da tirania da Inquisição. Assim, ela renunciou aos seus bens, doando livros e instrumentos musicais. Escreve com o próprio sangue um auto de fé, em que se arrepende de ter escrito obras profanas. Em 1695, pouco anos depois de ter abandonado sua carreira como escritora, morre aos 43 anos durante uma epidemia de peste.

Para saber mais: 

El amor sin tabúes entre sor Juana Inés de la Cruz y la virreina de México

Obras de Juana Inés – Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes

Resenha: “Dicionário de nomes próprios” – Amélie Nothomb

“Para um escritor, não há maior tentação que a de escrever a biografia de seu assassino.”

O recado de Amélie Nothomb na contracapa do livro “Dicionário de nomes próprios” é quase um spoiler para o leitor. Porém, ter algumas informações em mãos ajudam a entender um pouco das nuances do livro e as escolhas da autora. Amélie escreveu o livro inspirada na cantora francesa Robert, de carne e osso e amiga da escritora. Robert canta a música Ange et démon, que foi usada em um famoso comercial de perfume.

“Dicionário de nomes próprios” inicia com a adolescente Lucette, de 19 anos, que está na “oitava hora de insônia” por causa dos soluços do bebê em seu útero. Ela sente uma paixão instantânea por Fabien, e logo casa com o jovem, apesar da pouca idade. Lucette é intensa e quer ter uma vida fora do comum, original. Procurava nomes para o bebê em enciclopédias antigas e anotava nomes exóticos, como “Eleutério”.

Durante a gestação, Lucette percebe que Fabien não é a pessoa excitante que ela havia imaginado, era apenas um homem comum. Com medo que o futuro filho (ou filha) tenha um destino medícore, Lucette toma uma decisão que irá moldar o futuro da filha Plectrude.

Amélie vai tecendo a história de Plectrude com elegância e erudição. A sua escrita é concisa e cheia de comentários irônicos. Porém, ao lermos a história, fica a impressão de uma certa ingenuidade, um enredo quase adolescente.

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Amélie Nothomb escreveu uma “biografia” de sua amiga e cantora Robert

O problema principal do livro é o final. Fica claro que ela não conseguiu desenvolver a história e terminar o livro de maneira satisfatória. A personagem dentro de Amélie a deixou sem reação, sem saber o que fazer. Ela trouxe o leitor para o dilema do escritor, quando a história chega a uma bifurcação, onde tudo pode se perder. Era para ser uma história boba de adolescentes, mas se transformou numa metáfora do processo literário.

Amélie Nothomb

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Amélie Nothomb publicou o primeiro livro “Higiene do assassino” aos 25 anos

A belga Amélie Nothomb é uma escritora pouca conhecida no Brasil. Talvez seja por que suas obras não tenham repercutido entre a crítica, ou não tenha sido devidamente divulgada. Ela é muito popular na Europa, onde vende muitos livros e tem fãs ávidos.

Filha de um diplomata belga, Amélie Nothomb nasceu em Kobe, no Japão, onde seu pai estava de serviço em 1967. Passou a infância vivendo entre países da Ásia e da América. Mesmo retornando à Bélgica, Amélie continuou ligada emocionalmente ao Japão (a escritora fala japonês fluentemente). Aos 21 anos, ela retornou ao país de nascimento para trabalhar numa grande empresa. A experiência foi desastrosa. A futura escritora não conseguiu se adaptar à rigidez da hierarquia no local do trabalho e voltou à França, onde publicou seu primeiro livro, “Higiene do assassino”, em 1992.

Em seu livro de estreia, com apenas 25 anos, Amélie conseguiu sucesso de público e crítica. Li  “Higiene do assassino”, durante a faculdade e me impressionei com a criatividade da trama e o estilo ácido da escritora. No livro, Prétextat Tach, escritor fictício vencedor do prêmio Nobel, tem apenas dois meses de vida. Jornalistas do mundo inteiro tentam entrevistá-lo, mas apenas uma repórter consegue. Amélie também escreveu um livro sobre sua experiência no Japão, “Medo e submissão”.

 

 

Os livros raros de Sigrid Undset

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As obras da escritora norueguesa Sigrid Undset tratam da emancipação da mulher

Em janeiro, a revista americana Slate indicou a escritora norueguesa Sigrid Undset como a próxima “Elena Ferrante”. Mas enquanto Ferrante é uma escritora contemporânea com milhões de livros vendidos, Sigrid Undset foi a vencedora do Prêmio Nobel de 1928. O que levaria a revista a comparar essas duas escritoras de períodos tão diferentes?

Assim como Ferrante, a escritora norueguesa escreveu uma série de livros com uma personagem feminina principal, Kristin Lavransdatter. A trilogia relata a vida de Kristin do nascimento até a morte durante a Idade Média, reconstituindo a vida deste período e a condição feminina.

O livro é um sucesso até hoje na Noruega, e a casa de Undset transformou-se em um museu. A série também foi adaptada para o cinema em 1995 pela diretora Liv Ullmann  – em português o filme ganhou o título de “Kristin – Amor e Perdição”.

Apesar de ser vencedora do Nobel, a obra de Sigrid Undset não é amplamente divulgada e conhecida pelo público. Quando li a reportagem, fiquei com muita vontade de ler a trilogia, mas é mais fácil achar os livros em inglês. Infelizmente não há traduções recentes da escritora no Brasil, mas é possível encontrar exemplares em bibliotecas públicas e sebos.

Biografia

Sigrid Undset nasceu em 1882, na Dinamarca. Quando tinha dois anos de idade, a família mudou-se para a Noruega. Publicou o primeiro livro, “Fru Marte Oulie”, aos 25 anos. Nesta época, trabalhava durante o dia num escritório e escrevia à noite.

Depois de divorciar-se do marido, com quem teve três filhos, Undset se converteu ao catolicismo. Inclusive, a escritora tem muitos fãs católicos e tem entre suas obras uma biografia de Santa Catarina de Siena.

Mas a obra que lhe garantiu o Prêmio Nobel com apenas 46 anos foi Kristin Lavransdatter. A escritora tinha um grande conhecimento sobre a Idade Média e conseguiu transmitir todos os detalhes da vida nesta época, fato reconhecido pela Academia Sueca. Mas a vida depois do Nobel não foi fácil. Durante a Segunda Guerra Mundial, Sigrid exilou-se nos Estados Unidos e fez parte da resistência contra a ocupação nazista da Noruega. Depois da guerra, mudou-se para a cidade norueguesa de Lillehammer, onde morreu, em 1949.

O poeta dinamarquês

Sigrid Undset foi personagem do curta metragem “O poeta dinamarquês”, lançado em 2006 e que ganhou o Oscar de melhor curta-metragem de animação. O filme é muito bonitinho e tem um ótimo roteiro, vale a pena ver.