Poemas de Alberto Caeiro – heterônimo de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa teve diversos heterônimos – personagens criados pelo poeta e que possuem obra, biografia e estilo próprios. Os heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro nasceram no dia 8 de março de 1914, “um dia triunfal”, nas palavras do próprio Pessoa.

Alberto Caeiro

O próprio Fernando Pessoa deixou-nos uma descrição de Alberto Caeiro:

“Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Caeiro era de estatura média e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil como era.Cara rapada todos – o Caeiro louro, sem cor, olhos azuis. Caeiro escrevia mal o português…”

Caeiro é o “mestre” dos heterônimos. Ele é um poeta que louva a natureza e a simplicidade, e que rejeita todo o misticismo e a filosofia.

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

poemas-alberto-caeiro-fernando-pessoa

O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.

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