Resenha: “Dicionário de nomes próprios” – Amélie Nothomb

“Para um escritor, não há maior tentação que a de escrever a biografia de seu assassino.”

O recado de Amélie Nothomb na contracapa do livro “Dicionário de nomes próprios” é quase um spoiler para o leitor. Porém, ter algumas informações em mãos ajudam a entender um pouco das nuances do livro e as escolhas da autora. Amélie escreveu o livro inspirada na cantora francesa Robert, de carne e osso e amiga da escritora. Robert canta a música Ange et démon, que foi usada em um famoso comercial de perfume.

“Dicionário de nomes próprios” inicia com a adolescente Lucette, de 19 anos, que está na “oitava hora de insônia” por causa dos soluços do bebê em seu útero. Ela sente uma paixão instantânea por Fabien, e logo casa com o jovem, apesar da pouca idade. Lucette é intensa e quer ter uma vida fora do comum, original. Procurava nomes para o bebê em enciclopédias antigas e anotava nomes exóticos, como “Eleutério”.

Durante a gestação, Lucette percebe que Fabien não é a pessoa excitante que ela havia imaginado, era apenas um homem comum. Com medo que o futuro filho (ou filha) tenha um destino medícore, Lucette toma uma decisão que irá moldar o futuro da filha Plectrude.

Amélie vai tecendo a história de Plectrude com elegância e erudição. A sua escrita é concisa e cheia de comentários irônicos. Porém, ao lermos a história, fica a impressão de uma certa ingenuidade, um enredo quase adolescente.

dicionário-de-nomes-próprios-améli-nothomb

Amélie Nothomb escreveu uma “biografia” de sua amiga e cantora Robert

O problema principal do livro é o final. Fica claro que ela não conseguiu desenvolver a história e terminar o livro de maneira satisfatória. A personagem dentro de Amélie a deixou sem reação, sem saber o que fazer. Ela trouxe o leitor para o dilema do escritor, quando a história chega a uma bifurcação, onde tudo pode se perder. Era para ser uma história boba de adolescentes, mas se transformou numa metáfora do processo literário.

Amélie Nothomb

amélie-nothomb-livros

Amélie Nothomb publicou o primeiro livro “Higiene do assassino” aos 25 anos

A belga Amélie Nothomb é uma escritora pouca conhecida no Brasil. Talvez seja por que suas obras não tenham repercutido entre a crítica, ou não tenha sido devidamente divulgada. Ela é muito popular na Europa, onde vende muitos livros e tem fãs ávidos.

Filha de um diplomata belga, Amélie Nothomb nasceu em Kobe, no Japão, onde seu pai estava de serviço em 1967. Passou a infância vivendo entre países da Ásia e da América. Mesmo retornando à Bélgica, Amélie continuou ligada emocionalmente ao Japão (a escritora fala japonês fluentemente). Aos 21 anos, ela retornou ao país de nascimento para trabalhar numa grande empresa. A experiência foi desastrosa. A futura escritora não conseguiu se adaptar à rigidez da hierarquia no local do trabalho e voltou à França, onde publicou seu primeiro livro, “Higiene do assassino”, em 1992.

Em seu livro de estreia, com apenas 25 anos, Amélie conseguiu sucesso de público e crítica. Li  “Higiene do assassino”, durante a faculdade e me impressionei com a criatividade da trama e o estilo ácido da escritora. No livro, Prétextat Tach, escritor fictício vencedor do prêmio Nobel, tem apenas dois meses de vida. Jornalistas do mundo inteiro tentam entrevistá-lo, mas apenas uma repórter consegue. Amélie também escreveu um livro sobre sua experiência no Japão, “Medo e submissão”.

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s