3 livros clássicos de Virginia Woolf

3 livros clássicos de virginia woolf

A autora britânica Virginia Woolf (1882 -1941) escreveu grandes clássicos da literatura e  romances que são considerados obras-primas: Mrs. Dalloway, Entre os atos, Orlando, Ao farol e As ondas. Além de ser uma escritora genial, ela também contribuiu enormemente para a vida cultural e literária europeia, Junto com o marido, fundou a editora Hogarth Press, que publicou obras de escritores como Katherine Mansfield e T.S. Eliot.

Woolf nasceu em Londres em 1882. Era filha do escritor Leslie Stephen, e desde criança teve contato com o mundo dos livros. Ela e a irmã, a pintora Vanessa Bell, participaram do Grupo de Bloomsbury, formado por intelectuais e artistas. Entre os membros estavam o economista J. Maynard Keynes e Leonard Woolf, futuro marido da escritora.

Umas das grandes marcas de Virginia Woolf era o domínio do fluxo de consciência. Woolf era exímia em simular o processo caótico da mente reproduzindo os pensamentos, as sensações e a percepção do mundo do personagem, como fez em Mrs. Dalloway.

“Uma mulher, se quiser escrever literatura, precisa ter dinheiro e um quarto só seu”. A frase resume o feminismo de Virginia e também a sua visão da literatura e das mulheres.

Orlando

É um dos livros mais interessantes de Virginia Woolf, e talvez o mais acessível para quem esteja iniciando no mundo da autora. Orlando é o sexto romance da autora e foi publicado em 1928. A obra foi um sucesso comercial na época e também foi adaptada para o cinema em 1992.

Orlando é um jovem de 16 anos que vive no século XVI, mas que terá uma longa vida por três séculos de história. Orlando muda de país, pensamento, e também de sexo. Ele nasce como homem, mas em algum momento da história se transforma em mulher, sem maiores traumas. A androginia é o principal tema do livro, assim como as mudanças da sociedade que ocorreram através dos séculos, como a criação das lojas de departamento e o uso de aliança. (Quando retorna para a Inglaterra no século XIX, Orlando observa que pessoas de diversas classes sociais usam anéis nos dedos para indicar compromisso).

As características de Orlando foram emprestadas da escritora Victoria Sackville-West. Vita foi amante de Virginia, e as duas permaneceram amigas até a morte. De fato, o castelo onde Orlando morava é o castelo dos Sackville.

 

Entre os atos

Entre os atos foi o último livro escrito por Virginia Woolf. A autora tinha o hábito de escrever dois livros ao mesmo tempo para “descansar” do trabalho principal. Em abril de 1938, a obra principal de Virginia era a biografia de Roger Fry, crítico de arte e pintor. Enquanto descansava da biografia, ela começou a trabalhar no livro Entre os atos.

Em uma pequena cidade do interior da Inglaterra, é tradição que todos os anos a trupe de teatro local faça uma montagem sobre a história inglesa. Todos os moradores se engajam no espetáculo, tanto na plateia como atores. Virginia escreveu a obra durante a Segunda Guerra Mundial, e essa experiência é refletida no livro.


Mrs. Dalloway

É a obra mais conhecida de Virginia, e retrata um dia na vida da socialite Clarissa Dalloway. O modelo para a construção de Clarissa foi a socialite Kitty Maxse, amiga da família. Além de Kitty,Woolf se inspirou em outras pessoas do seu convívio para criar os personagens de Mrs. Dalloway. A bailarina russa Lydia Lopokova, que integrava o Grupo de Bloomsbury, foi a inspiração para Lucrezia Warren Smith. Num lapso, a própria Virginia chegou a chamar Lydia de Rezia. No livro, Lucrezia é casada com Septimus Warren Smith, um veterano da Primeira Guerra Mundial.

 

Leituras de janeiro

 

leituras de janeiro

 

Aura – Carlos Fuentes

É uma novela curta, leitura de poucas horas. O escritor mexicano Carlos Fuentes publicou Aura em 1962, num período em que surgia o realismo mágico na literatura latino-americana. Felipe Montero, um jovem professor de história, lê uma oferta de emprego tentadora no jornal. Uma viúva procura alguém para organizar as memórias do falecido marido. A casa é antiga e decrépita, mas Felipe se apaixona pela sobrinha da patroa, Aura. O autor é hábil em criar um clima de mistério e também de terror, um belo exemplo da literatura latino-americana.

Blink – A decisão num piscar de olhos – Malcolm Gladwell

O jornalista Malcolm Gladwell é famoso por seus livros de não-ficção. Em Blink, ele analisa como a intuição pode nos ajudar a tomar decisões, mas também como decisões tomadas de maneira rápida, baseadas em preconceito, podem ter consequências sérias. Para Gladwell, todos têm a capacidade de “fatiar fino”, ou seja, observar padrões em segundos e agir com base na intuição. Mas essa capacidade de fatiar fino também pode nos levar a agir com base em preconceitos, como classe social, sexo, aparência, raça.

Uma das histórias mais impressionantes contadas por Gladwell é sobre a musicista Abbie Conant. Por ser mulher, ela nunca era chamada para audições, e só conseguiu entrar em uma orquestra após um teste cego (onde o músico permanece escondido do júri em uma “tenda” – na série Mozart in the jungle há um exemplo). Depois que este tipo de teste foi implantado, as mulheres e outras minorias começaram a ganhar espaço nas orquestras. Sem o julgamento da aparência do candidato, os juízes poderiam avaliar pelo que realmente importava: a música. O livro também traz outras pesquisas científicas sobre intuição que valem a pena ser conhecidas.

 

A teoria de tudo – Jane Hawking

O sucesso do físico Stephen Hawking não se deve apenas ao seu maravilhoso cérebro. Por trás de sua obra, havia também o apoio incondicional de sua primeira esposa, Jane Hawking. Os dois se conheceram muito jovens, enquanto ainda eram estudantes. Em A teoria de tudo, Jane escreve sobre o início do relacionamento com um dos gênios da ciência e as dificuldades causadas pela doença de Stephen (Esclerose Lateral Amiotrófica). No início da década de 60, os médicos acreditavam que Stephen não chegaria aos 30 anos. A família do físico também não acreditava que Jane aguentaria por muitos anos o casamento com Stephen. Enfim, o casamento durou 30 anos, e o casal teve três filhos.

Há também um filme baseado neste livro, que é mais centrado na relação amorosa dos dois, deixando de lado todos os problemas que Jane teve para gerenciar a família com a condição de Stephen. O livro é mais realista, mostrando as dificuldades de Jane para seguir uma carreira própria , e também como cuidar de uma pessoa com necessidades especiais.

 

Relações íntimas – Susan Isaacs

Ainda estou no começo deste livro, que é um romance que parece ser açucarado, mas tem muitas doses de ironia. É sobre uma mulher morando em Nova York; ela é judia e trabalha como redatora de discursos para políticos. Sua família é muito tradicional, e não aceita seu casamento com um não-judeu e sua posição de mulher independente. O livro foi publicado em 1980, mas parece que algumas coisas não mudaram.

 

7 maneiras de ser feliz – Luc Ferry

Pelo título, parece apenas outro livro de autoajuda. Mas o filósofo Luc Ferry faz uma crítica a nossa sociedade obcecada com a ideia de ser feliz a qualquer custo. O autor acaba com as nossas convicções de que buscar a felicidade é um fim em si mesmo. Para ele, há outros bens mais importantes, que estão acima de ser feliz, como a liberdade de pensamento.

Melhores filmes e séries de 2018

Esta lista é bem pessoal (e atrasada). Tem produções recentes e também mais antigas. Foram obras que me marcaram ou provocaram grandes reflexões, e, agora, compartilho com vocês ;).

melhores-filmes-séries-2018

Sonhos

Akira Kurosawa foi um dos mais aclamados cineastas do século XX. No final da vida, em 1990, ele dirigiu um filme que seria diferente de toda sua obra cinematográfica. Sonhos, como o próprio título sugere, teve seu roteiro baseado nos próprios sonhos de Kurosawa. O filme é composto por oito histórias independentes, como sonhos de infância e da vida adulta.

 

The square – A arte da discórdia

Este é um filme sueco, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2018. É um filme que nos faz refletir sobre a questão da arte contemporânea e também sobre como os europeus lidam com os imigrantes. O ambiente do mundo da arte é exibido sem sacralidade e com grande sarcasmo. O espectador nunca mais verá uma exposição (principalmente de arte contemporânea) da mesma maneira.

A sociedade literária e a torta de casca de batata

A Netflix produziu este filme baseado em um livro de uma autora estreante de 70 anos, Mary Ann Shafer, que escreveu a obra com a ajuda da sobrinha Annie Barrows. A sociedade literária e a torta de casca de batata é um filme simples e romântico, indicado para quem gosta de livros, além de mostrar as consequências da Segunda Guerra Mundial na vida de pessoas comuns.

Lady Bird

A estreia da atriz Greta Gerwig na direção resulta num filme delicado e intenso sobre a adolescência e a complicada relação entre mães e filhas. Lady Bird recebeu indicações ao Oscar nas categorias melhor filme, melhor direção, melhor roteiro, melhor atriz (Saoirse Ronan) e melhor atriz coadjuvante (Laurie Metcalf). Aliás, recomendo vários filmes com Greta Gerwig: Frances Ha, Mistress America.

 

Bandersnatch

É o primeiro filme interativo produzido pela Netflix, dentro da séria Blackmirror, que explora a influência da tecnologia na vida das pessoas. Um jovem da década de 80 é contratado por uma grande empresa para produzir seu próprio videogame. A produção intensa o força a lidar com problemas psicológicos causados pela morte da mãe. O espectador deve escolher as ações que o personagem irá tomar, alterando o curso do filme. Há cinco finais alternativos, e tem gente que já mapeou cada um.

 

Unbreakable Kimmy Schmidt

Unbreakable Kimmy Schmidt é uma das séries mais loucas e divertidas da Netflix. A série foi idealizada pela humorista Tina Fey e não é um tipo de humor que vai agradar a todas as pessoas. A personagem principal é interpretada pela excelente atriz Ellie Kemper. Infelizmente, no dia 25 de janeiro, estreia a última temporada.

 

Com amor, Van Gogh

É um dos filmes mais belos que já vi! O personagem principal, Armand Roulin (que realmente existiu – foi vizinho do pintor) viaja para o interior da França em busca de respostas para o suicídio de Van Gogh. O filme todo foi pintado a óleo por cerca de cem artistas do mundo todo, com base nas obras de Van Gogh. O visual é incrivelmente bonito, uma obra de arte.

Dica de filme: A festa de Babette

a-festa-de-babette

 

festa de Babette é um filme dinamarquês de 1987, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O filme de Gabriel Axel é uma adaptação do conto de mesmo nome da escritora dinamarquesa Karen Blixen (1885-1962). Além de ser um grande filme, é também uma  homenagem aos artistas e a todas as formas de arte.

O filme mostra o choque entre a religiosidade e a arte. Duas irmãs, filhas de um austero pastor, vivem numa vila no interior da Dinamarca. Durante a juventude, cada uma teve a chance de mudar completamente de vida e seguir um destino diferente. Uma poderia ter sido uma grande cantora em Paris, mas a modéstia e a simplicidade religiosa a impediram. A outra irmã teve a chance de casar com um oficial, mas preferiu continuar vivendo sua vida simples no vilarejo de pescadores.

Depois de muitos anos, quando as duas irmãs já alcançaram a velhice, elas recebem a visita misteriosa de Babette, uma francesa que precisa de ajuda e um local para morar. Depois de anos servindo à família, Babette ganha um bom dinheiro na loteria e decide dar um presente a todos que a ajudaram: um banquete.

Por influência do cristianismo, os moradores locais veem o banquete de Babette como uma tentação, algo que os tirará do caminho religioso. Porém, para Babette, que era uma reconhecida chef francesa, a comida é vista não só como mero sustento, mas também uma forma de arte.

O mais interessante em A festa de Babette é a contraposição de como as irmãs e Babette lidam com seus talentos artísticos. As irmãs não consideravam a arte como ponto de partida para a fama ou ganhar dinheiro. Era apenas uma manifestação de Deus. Exercer uma atividade artística não era fundamental.

Enquanto as irmãs renunciavam a uma existência mais criativa, Babette sofreu enquanto não pode exercer plenamente sua profissão e arte. O banquete para os moradores é o auge, e para isso Babette irá empregar todo o seu talento. A cozinheira que deu tudo de si para exercer com perfeição sua arte, em contraposição às duas irmãs, que renunciaram a uma vida criativa. Porém, no fim do filme há uma celebração, pois um jantar preparado com tanto cuidado e dedicação só pode ser divino, uma verdadeira obra de arte.

Amós Oz e a coragem para 2019

 

amós oz coragem

Amós Oz, que faleceu no último dia 28, publicou 35 livros em sua longa carreira, também marcada pelo ativismo político (o autor defendia a criação de um estado palestino). Em 1988,o escritor publicou o livro A caixa-preta. Faz dez anos que li esse livro, não lembro da trama e nem de todos os personagens, porém foi uma obra marcante, que ficou na memória como um exemplo de escrita perfeita.

A narrativa de A caixa-preta é centrada nas correspondências trocadas entre um ex-casal sobre o casamento, e o filho, que mora num kibutz. O livro não é apenas sobre um relacionamento que não deu certo, é também sobre a complexa situação política de Israel e as implicações sobre a vida dos protagonistas. Livros estruturados na forma de cartas podem ser um pouco cansativos, mas Amós Oz conduz o leitor com ritmo e segurança.

Outra obra aclamada do escritor é De amor e trevas, um romance autobiográfico, que foi adaptado para o cinema pela atriz Natalie Portman em 2015. A vida de Amós Oz foi marcada pelo suicídio da mãe quando ele tinha apenas 13 anos. Depois do trágico episódio, ele mudou o sobrenome para “Oz”, que significa coragem em hebraico. E é isso que precisamos em 2019. Coragem para enfrentar os desafios e viver a vida sem medo.

 

“Toda a boa literatura nos transforma em homens e mulheres de outras culturas, de outros países, de diferentes religiões, diferentes tempos e nos faz sentir em casa em lugares muito distantes. É esse o milagre e a magia da literatura.”

Melhores leituras de 2018

melhores-leituras-2018

 

2018 foi um ano ruim para leituras, com muita procrastinação provocada por redes sociais, Youtube, Neflix e crise política. Comecei algumas leituras, abandonei outras, levei meses para ler certos livros. Também não sabia o que deveria fazer – um post no blog ou no Instagram. Decidi que 2019 vai ser o ano do blog! E com um foco mais nos escritores e escritoras.

Aqui vai uma listinha resumida dos livros que me marcaram em 2018.

Boas festas e muitos livros em 2019!

O castelo de vidro – Jeannette Walls

O castelo de vidro foi resenhado este ano no blog.  Neste livro de memórias, a jornalista Jeannette Walls recorda sua vida em uma família excêntrica e disfuncional. O que mais me marcou nesta leitura foi o retrato da miséria nos Estados Unidos, como vivem os pobres neste país que é considerado um modelo capitalista. A autora também escreve de maneira original, sem julgar os pais ou as circunstâncias, apenas registrando os fatos pela perspectiva de uma criança.

Apenas uma mulher – D.H.Lawrence

O título original em inglês deste conto do escritor D.H.Lawrence é The Fox – algo como A raposa ou O raposo numa tradução literal.  No finalzinho da Segunda Guerra, duas mulheres moram sozinhas em uma pequena fazenda no interior da Inglaterra. A rotina delas é interrompida com a chegada de um jovem soldado. Apenas uma mulher  é uma novela curta, mas um grande exemplo do talento literário do escritor D.H.Lawrence para envolver o leitor.

O anel do poder – Jean Shinoda Bolen

Jean Shinoda Bolen é uma psicanalista e psiquiatra americana. Em O anel do poder, Bolen se propõe a fazer uma análise psicanalítica da ópera “O anel dos nibelungos” de Richard Wagner. A obra de Wagner é complexa: são quatro óperas que basicamente giram em torno do “anel do nibelungo”, com uma trama que parece muito com o Senhor dos Anéis.

Para conseguir o poder do anel, os personagens tomam decisões questionáveis e destroem a vida das pessoas próximas. Jean Shinoda Bolen usa as quatro óperas para ilustrar como funciona uma sociedade patriarcal e autoritária, e como essa estrutura é reproduzida em escala menor nas famílias. Livro interessante para quem quer saber mais sobre psicologia e psicanálise junguiana.

 

Tudo o que eu sempre quis dizer mas só consegui escrevendo

tudo o que eu sempre quis dizer mas só consegui escrevendo

 

Maria Ribeiro é uma atriz (conhecida pelos filmes Tropa de Elite e Como nossos pais), escritora e cronista. Seus textos podem ser lidos no jornal O Globo, mas também em livros, como Tudo o que eu sempre quis dizer mas só consegui escrevendo. O livro é uma reunião de cartas que Maria escreveu para as pessoas mais próximas e queridas, como os pais, amigos, ex-namorados, colegas de trabalho. A autora escreve uma espécie de autobiografia por meio de cartas. Maria Ribeiro não tem medo de se expor e “discutir a relação” com os destinatários.

Reflexões sobre a vida se misturam com detalhes do dia a dia, como uma série, um livro legal, a relação com os filhos. As melhores cartas são as que foram escritas para os pais e os filhos. Há um tom de balanço da relação, mas também de perdão, de declaração de amor e amizade. A autora não tem medo de compartilhar seus pensamentos íntimos.

O que nos aproxima mais da escrita é que muitos dos destinatários são pessoas famosas, conhecidas pelo público, como os escritores Gregorio Duvivier e Xico Sá. Uma leitura leve e rápida. Recomendado!

A mulher na janela – A.J.Finn

a-mulher-na-janela-a.j.finn

 

Depois de anos trabalhando como crítico literário e editor, o americano A.J.Finn decidiu escrever um romance, sem imaginar que se tornaria best seller internacional em 41 países. A mulher na janela é um suspense, mas também um thriller psicológico onde o leitor entra no mundo interior da personagem Anna Fox.

Para escrever o seu primeiro livro, A.J.Finn baseou-se em sua própria experiência de vida. O autor luta desde os 21 anos contra a depressão. Apenas recentemente ele recebeu o diagnóstico de transtorno bipolar. O ajuste na medicação o ajudou a escrever A mulher na janela. Ele afirmou em entrevista que gostaria de contar a história de uma pessoa com doença mental, mostrar que precisam de cuidados e empatia.

A personagem Anna Fox é uma psiquiatra especializada no atendimento de crianças e adolescentes. Por algum motivo que o leitor não sabe (sem spoilers!), Anna tem depressão e agorafobia (medo de espaços abertos) e não consegue sair de casa. Sua principal ocupação é espionar a vida dos vizinhos e navegar na internet.

A trama do livro se desenvolve como um filme de suspense, não por acaso uma das principais influências do escritor. Quem viu o filme Janela Indiscreta irá identificar de imediato as semelhanças com a obra-prima do diretor Alfred Hitchcock. Uma pessoa que não pode sair de casa testemunha (ou pensa que viu) um crime.

Apesar da referência óbvia, Finn dá um toque moderno à trama, com uma personagem principal mulher e a exploração dos conflitos psicológicos. O autor consegue revitalizar o gênero suspense e policial, usando a estrutura dos filmes clássicos.

Aliás, os filmes antigos são a paixão do escritor e também da personagem Anna. A obra é tão cinematográfica que já está sendo adaptada para o cinema, com a atriz Amy Adams no papel principal.

Augusto – Christa Wolf

augusto christa wolf

 

A escritora alemã Christa Wolf (1929-2011) não é uma autora muito traduzida no Brasil, apesar de ser reconhecida como uma das grandes escritoras do idioma germânico. Após a Segunda Guerra Mundial, a cidade onde Wolf nasceu foi integrada à Polônia e a família teve que se mudar para a então Alemanha Oriental.

O socialismo, o comunismo, a polícia secreta e a espionagem compõem o ambiente de muitas de suas obras. Reflexões sobre Christa T., publicado em 1968, foi um dos livros mais criticados; é a história de uma mulher doente que reflete sobre suas convicções socialistas. Outras obras de maior destaque incluem Cassandra (1983) e Medea (1998).

Se a vida sob o socialismo serve como mote para muitas das obras de Wolf, Augusto é um livro que reflete sobre o pós-guerra. Augusto é uma criança internada num hospital improvisado em um castelo, logo após a Segunda Guerra. Órfão, ele desenvolve uma relação próxima com a enfermeira Lilo.

Augusto é uma novela curta (45 páginas), de leitura leve e rápida. Apesar do tema aparentemente triste, descobrimos que a vida de Augusto não foi apenas solidão e tristeza. Este clima de esperança em meio aos infortúnios talvez tenha relação com as circunstâncias com que a obra foi escrita. Augusto é o último livro escrito pela autora e um presente para o marido de Wolf.

A obra é narrada em terceira pessoa, mas sempre sob a perspectiva do olhar infantil, de uma criança fragilizada. Augusto tem uma certa semelhança com Macabéa, personagem criada por Clarice Lispector em A hora da estrela. Os dois personagens são ingênuos e viveram sofrimentos na infância. A única diferença é que Augusto foi poupado de algumas asperezas da vida e teve um final menos trágico.

Christa Wolf e Elena Ferrante

 

augusto christa wolf
Eu “conheci” Christa Wolf por “indicação” da escritora italiana Elena Ferrante. Em 2017, um jornal italiano apontou a tradutora Anita Raja como a pessoa por trás do pseudônimo Ferrante. As obras de Wolf foram traduzidas para o italiano por Anita Raja; há quem diga que há ecos da autora alemã nas obras da italiana. Se é verdade ou não, o que importa é ambas são uma ótima indicação de leitura.

Título: Augusto
Autora: Christa Wolf
Tradutor: Fernando Miranda
Editora: Jaguatirica

Orgulho e preconceito – Jane Austen

orgulho e preconceito jane austen

Elizabeth Bennet e Darcy, cena do filme “Orgulho e preconceito”, de 2005

 

Orgulho e preconceito é uma das obras mais conhecidas da escritora Jane Austen (1775-1817). Publicado em 1813, o romance entre Elizabeth Bennet e Sr. Darcy é um conto de fadas com toques de sarcasmo e humor, que nunca deixou de encantar leitores de diferentes épocas e países. É também uma das obras mais adaptadas para a TV e o cinema (a Rede Globo exibe atualmente a novela Orgulho e paixão, livremente inspirada no livro de Austen).

Orgulho e preconceito estabelece um dialogo íntimo com o leitor, como se estivéssemos com a própria Jane Austen em uma mesa de chá inglesa, contando histórias deliciosas do último baile ou fazendo alguma observação mordaz sobre os costumes da alta sociedade. Mas o que faz a obra de Jane Austen tão popular são os personagens Darcy e Elizabeth.

A família Bennet possui poucos rendimentos e cinco filhas que precisam “casar logo”. Na Inglaterra do século XIX, as mulheres não trabalhavam e não tinham direito à herança. Quem herdava os bens da família após a morte dos genitores eram os irmãos ou algum parente do sexo masculino. Portanto, o casamento era uma rota de fuga para que essas mulheres não tivessem que morar de favor em casa de parentes.

Logo no início de Orgulho e preconceito, a mãe de Elizabeth fica excitada ao saber que um jovem com rendas consideráveis alugou uma propriedade próxima. Ela diz ao senhor Bennet que este deve se apresentar ao novo vizinho, o jovem sr. Bingley, o mais rápido possível.

Durante um baile, o sr. Bingley conhece as irmãs Bennet e se encanta com a primogênita Jane. Bingley não vem desacompanhado e traz suas irmãs e um amigo, o sr. Darcy. Este logo chama a atenção do baile por sua postura e por possuir um rendimento de dez mil libras por ano. Mas a admiração inicial foi substituída por um desencanto, ele era um homem antipático e orgulhoso, que não se relacionava com ninguém.

 

 

É neste baile que ocorre o primeiro encontro entre Elizabeth e sr. Darcy. Ao contrário dos romances tradicionais, a química não é imediata. Quando sr. Bingley pergunta a Darcy por que ele não convida Elizabeth para dançar, este diz que ela não é bonita o suficiente. Elizabeth, que possui um grande senso de humor, faz piada com a situação, não deixando se abater pelo orgulhoso cavalheiro.

Logo as primeiras impressões entre os dois são desfeitas, e Elizabeth aprende a apreciar as qualidades de Darcy, que apesar da arrogância e frieza é um homem sensível e de bom coração. Darcy também aprende com o tempo a olhar Lizzy com mais carinho e a apreciar sua personalidade e  inteligência.

 

Darcy e Elizabeth

 

 

Elizabeth Bennet é uma das personagens mais bem construídas e cativantes da literatura. Todas as mulheres se identificam com Elizabeth e suas questões. Ela não é perfeita e sabe reconhecer seus erros. O tempo inteiro as tramas e ações dos personagens giram em torno de possíveis pretendentes, fofocas e festas. Porém, Austen sempre nos guia para o ponto de vista inteligente e sensível da heroína Lizzy.  Ela não é previsível, tem grande consciência das limitações e injustiças sofridas pelas mulheres, um grande senso de observação e justiça.

Mas o personagem mais polêmico é o arrogante Darcy. Muitos críticos apontaram que o personagem não era verossímil, que não era possível encontrar alguém assim na vida real. E a obra mais popular de todos os tempos foi atacada por que sua autora era “uma solteirona sem experiência de vida”. Nas inúmeras biografias sobre a escritora, como Jane Austen: uma vida revelada, vimos que a vida amorosa de Austen não foi tão morna como se pensa.

As obras de Austen são tão boas e tão populares justamente pelo seu olhar inteligente e arguto para as convenções sociais da sociedade inglesa da época e para criar personagens reais, com emoções e motivações humanas. Um talento que resiste através dos séculos.